Jessica Foster, a “garota dos sonhos” do MAGA, a manifestação No Kings e os 50 anos da Apple
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Bem-vindos à nossa análise da cobertura da imprensa sobre os acontecimentos nos Estados Unidos. Todas as quintas-feiras, analisamos como a imprensa suíça tem noticiado e reagido a três notícias importantes nos EUA – nas áreas da política, das finanças e da ciência.
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“Será que algo está mudando nos Estados Unidos?”, questionou o Tages-Anzeiger no domingo, um dia após milhões de pessoas terem se manifestado por todo o país contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sua guerra no Irã e suas políticas autoritárias.
“Os opositores de Donald Trump não se cansam”, afirmou o Neue Zürcher Zeitung (NZZ) no domingo, observando que oito milhões deles (segundo os organizadores) se reuniram pela terceira vez em um ano para as marchas de protesto nacionais “No Kings”.
O jornal informou que, além de denunciar a política migratória de Trump e a agência de imigração ICE, os manifestantes agora criticavam a guerra no Irã – “por um lado, incomodam-se com a forma arbitrária e aparentemente caótica como Trump conduz a guerra; por outro, irritam-se com as consequências: o preço alto e crescente da gasolina”.
O NZZ considerou que as marchas “No Kings” “provavelmente não alterariam o equilíbrio do poder político nos EUA”, dado que são principalmente os oponentes comprometidos de Trump que participam. “No entanto, os eventos em todo o país são prova de que os oponentes de Trump, além da elite do Partido Democrata, continuam determinados a garantir uma mudança de poder no Congresso nas eleições de meio de mandato. Muito depende desse compromisso: se os democratas querem vencer em novembro, devem garantir que todos aqueles que estão insatisfeitos com o governo de Trump realmente compareçam às urnas.”
O terceiro dia do movimento “No Kings” não trouxe nenhuma percepção fundamentalmente nova, concluiu o NZZ. “Muitos americanos, especialmente da esquerda, continuam a detestar o presidente e suas políticas. Mas a guerra com o Irã pode ajudá-los a ampliar sua coalizão anti-Trump – se ela se prolongar e tornar a vida cotidiana no país visivelmente mais cara”.
O Tages-Anzeiger, de Zurique, concordou que não são apenas os protestos “No Kings” que representam um problema crescente para Trump. “Talvez algo esteja mudando nos Estados Unidos”, afirmou. “O fato de que até mesmo alguns políticos republicanos estejam agora expressando publicamente sua frustração com a guerra no Irã corrobora essa ideia. Isso também sugere que Trump está mais impopular do que nunca e, se tudo correr dentro das regras nas eleições do outono, ele e seu movimento MAGA provavelmente terão que se preparar para a derrota”.
- Reportagens do NZZLink externo (alemão), Tages-AnzeigerLink externo (alemão), BlickLink externo (alemã), Le TempsLink externo (francês) e Corriere del TicinoLink externo (italiano)
- Cobertura da SRFLink externo, RTSLink externo e RSILink externo (alemão, francês, italiano)
- O que os protestos “No Kings” conseguem?Link externo – SRF (alemão)
A gigante da tecnologia Apple completou 50 anos na quarta-feira. Os jornais suíços analisaram o legado do cofundador Steve Jobs e alertaram que o “monstro do sucesso” enfrenta um desafio existencial por parte da inteligência artificial.
Há cinquenta anos, em 1º de abril de 1976, Steve Jobs, Steve Wozniak e Ronald Wayne fundaram a Apple. No entanto, para o jornal Le Temps, de Genebra, “a Apple é, evidentemente, um único homem: Steve Jobs, um inventor brilhante que foi afastado em 1985, mas voltou 12 anos depois para criar produtos emblemáticos como o iMac, o iPod e o iPhone”.
Jobs, explicou o Neue Zürcher Zeitung (NZZ), “não era nem um inventor amador nem um inventor propriamente dito. Jobs era um perfeccionista que entendia o que os usuários queriam. Outros construíam o hardware e escreviam o software. Jobs tornava o produto atraente”.
Ainda hoje, Jobs, que faleceu em 2011, é considerado o epítome do empreendedor moderno, afirmou o NZZ. “Ele foi o primeiro a transformar apresentações de produtos em espetáculos. Ele fez os computadores falarem, tirou laptops finos de envelopes. Com sua blusa de gola alta preta, ele criou um uniforme e se transformou em uma marca.”
A marca Apple, como lembrou o jornal Le Temps aos seus leitores, vale hoje US$ 4,3 trilhões (CHF 3,4 trilhões) e conta com 166 mil funcionários. No ano passado, gerou vendas de US$ 416 bilhões e lucros superiores a US$ 110 bilhões. “A Apple é um monstro de sucesso, uma máquina de fazer dinheiro, uma marca icônica. Mas nada é garantido”, afirmou o jornal na quarta-feira.
“Primeiro, há o desafio da inteligência artificial (IA). A empresa foi pioneira ao lançar sua assistente de voz Siri em 2011 [… mas] incapaz de evoluir a Siri, incapaz de desenvolver seu próprio universo de IA e incapaz de cumprir suas promessas, a Apple teve que aceitar o ChatGPT em seus telefones.”
Havia também a questão da inovação, continuou o Le Temps, apontando que o mais recente produto carro-chefe da Apple, o headset Vision Pro, era um item de nicho com preço de quase CHF 4.000 (US$ 5.000). E mesmo que a empresa tenha acabado de lançar um MacBook Neo custando CHF 579, “novos produtos são raros”.
No entanto, Serge Nussbaumer, da Maverix Securities, com sede em Zurique, apresentou uma visão mais positiva. “A Apple está ficando para trás em IA generativa, isso é óbvio. Mas […] a Apple não precisa desenvolver o melhor modelo, precisa oferecer a melhor experiência de IA em seus dispositivos. E a empresa é perfeitamente capaz de fazer isso. A Apple raramente foi a primeira, mas muitas vezes foi a melhor em integração, monetização e escalabilidade”, disse ele ao Le Temps.
Quanto à inovação, “a Apple não vende apenas dispositivos, ela vende um ecossistema que gera receita recorrente por anos”, afirmou Nussbaumer. “Depois que você fica profundamente ligado ao iPhone, ao iCloud, à App Store, ao Apple Music, ao Apple Pay e a outros serviços, fica relutante em mudar”.
- Cinquenta anos da Apple – Le TempsLink externo (francês) e NZZLink externo (alemão)
Jessica Foster era a “garota dos sonhos” do movimento Make America Great Again (MAGA), segundo a emissora pública suíça RTS. O único problema é que ela era, de fato, um sonho – uma criação da inteligência artificial. A RTS explica por que o caso dela ilustra uma “tendência emergente preocupante na era da inteligência artificial”.
Na semana passada, vários sites de notícias suíços publicaram fotos de uma soldado norte-americana fotogênica, Jessica Foster. Entre dezembro de 2025 e março de 2026, o perfil de Foster no Instagram viralizou nos Estados Unidos, acumulando mais de um milhão de seguidores, milhares de curtidas “e declarações de amor”, informou a RTS. A emissora explicou que a conta mostrava Foster, sempre sorridente e de uniforme, frequentemente posando ao lado de caças ou porta-aviões, ou com figuras políticas como o presidente dos EUA, Donald Trump, e até mesmo o presidente russo, Vladimir Putin.
“Mas toda a identidade digital de Foster – incluindo suas fotos, vídeos, legendas e uma biografia pró-Trump com o lema ‘America First’ – foi criada inteiramente usando ferramentas de geração de imagens e vídeos baseadas em IA”, afirmou a RTS.
A emissora explicou como especialistas em deepfakes e jornalistas investigativos rapidamente identificaram inúmeras inconsistências, como um primeiro nome em uma etiqueta de identificação e bandeiras americanas incorretas. Posteriormente, o Exército dos EUA confirmou que nunca existiu uma soldado chamada Jessica Foster.
“Mas Foster não era apenas uma farsa”, afirmou a RTS. “Por trás dessa conta havia um objetivo comercial: direcionar um público específico – predominantemente masculino, conservador e patriota – para uma página do OnlyFans.” O OnlyFans é um serviço de assinatura de conteúdo online onde as pessoas cobram dos seguidores, ou fãs, pelo conteúdo publicado. Segundo a RTS, alguns “fãs” de Foster teriam gasto quantias consideráveis, chegando a mais de US$ 100 (CHF 80) por uma única postagem, acreditando que estavam interagindo com uma soldado de verdade que respondia pessoalmente às suas mensagens.
Como apontou o Neue Zürcher Zeitung, “sua proximidade com Donald Trump e sua patente militar têm como objetivo atrair especificamente homens do movimento MAGA”.
A RTS informou que a Meta, proprietária do Instagram, finalmente encerrou a conta em 19 de março porque ela não havia divulgado o uso de IA e publicou conteúdo enganoso. Em teoria, o OnlyFans também o fez, mas, segundo a RTS, imagens de Foster continuam circulando em outras plataformas de mídia social, notadamente o X.
“O caso de Jessica Foster ilustra uma tendência preocupante que vem surgindo na era da inteligência artificial. Não se trata mais apenas de notícias falsas ou imagens manipuladas, mas da criação de personagens digitais fictícios totalmente desenvolvidos, concebidos para manipular emoções políticas, desejos sexuais e a confiança do público”, afirmou a RTS.
“Esse fenômeno destaca uma estratégia cada vez mais difundida no campo neoconservador dos Estados Unidos – embora não exclusivamente –, onde contas de extrema direita usam uma mistura de patriotismo, pornografia soft e IA para espalhar mensagens políticas, monetizar o interesse dos usuários e ganhar popularidade”.
- Cobertura RSILink externo (italiano), RTSLink externo (francês), Tages-AnzeigerLink externo e Neue Zürcher ZeitungLink externo (alemão)
A próxima edição de “Notícias dos EUA” será publicada na quinta-feira, 9 de abril de 2026. Até lá!
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Adaptação: Fernando Hirschy
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