FIFF chega à 40ª edição como ponte entre culturas e conflitos do mundo
Com filmes de 62 países e recorde de público, o 40º Festival International du Film de Fribourg reforçou o papel da Suíça como plataforma do cinema global, ao reunir histórias sobre guerra, censura e identidade em um espaço de diálogo cultural cada vez mais raro.
O 40º Festival International du Film de Fribourg confirmou, entre 20 e 29 de março, o papel singular do evento suíço como vitrine do cinema global e espaço de diálogo em tempos de tensões internacionais. Com 114 filmes de 62 países e dezenas de estreias, a edição jubilar reforçou uma identidade construída ao longo de quatro décadas: apresentar histórias que confrontam o público com realidades urgentes — da guerra à censura — sem abrir mão da dimensão humana.
Segundo o diretor artístico Thierry Jobin, o festival continua fiel à sua missão original. “Desde sua criação, o FIFF fala do necessário: liberdade de expressão, emancipação, vida e morte”, afirmou durante a conferência de imprensa. Essa linha editorial ficou evidente na competição internacional, que reuniu filmes sobre conflitos históricos e contemporâneos, como a guerra do Vietnã, a repressão no Irã e a guerra na Ucrânia:
Um cinema que “abre os olhos”
A cerimônia de abertura, marcada por discursos de autoridades suíças e convidados internacionais, destacou o papel do festival como espaço de encontro e reflexão. A conselheira federal Elisabeth Baume-Schneider ressaltou a importância da cultura em um cenário global polarizado: “Em um mundo barulhento, a voz dos artistas deve ser ouvida”.
O filme de abertura, A Sad and Beautiful World, do diretor libanês Cyril Aris, sintetizou essa proposta ao retratar a vida de um casal em meio à instabilidade política no Líbano. Já o encerramento trouxe a sátira argentina Homo Sapiens?, refletindo sobre crises sociais contemporâneas.
Além das exibições, o festival apostou em experiências híbridas e espaços de convivência. O novo pavilhão Nomad Wood Nest, instalado no centro de Friburgo, funcionou como ponto de encontro entre público e cineastas. Para o presidente do FIFF, Mathieu Fleury, o espaço simboliza a essência do evento: “um lugar para celebrar, se encontrar e dialogar”.
Diversidade global e impacto local
O FIFF mantém uma característica rara entre festivais europeus: dar visibilidade a cinematografias pouco representadas no circuito comercial. A programação incluiu produções da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia, além de uma seção especial dedicada, este ano, ao cinema colombiano.
Esse posicionamento também se reflete em iniciativas como o fundo suíço visions sud est, que ao longo dos anos apoiou cerca de 250 filmes de países do Sul global. Mesmo após cortes financeiros, sua importância foi destacada na retrospectiva da edição.
Outro eixo relevante foi a educação: mais de 12 mil estudantes participaram das sessões do programa “Planète Cinéma”, reforçando o papel do festival na formação de novos públicos — um elemento central da política cultural suíça.
Premiações refletem tensões do mundo
O palmarés da edição de 2026 espelhou os temas centrais do festival. O Grande Prêmio foi para Divine Comedy, do iraniano Ali Asgari, uma crítica à censura e à burocracia no Irã. O júri destacou a relevância do filme “em um contexto de erosão das liberdades públicas”.
A guerra na Ucrânia também marcou presença: Honeymoon, de Zhanna Ozirna, recebeu dois prêmios, incluindo o voto do júri jovem. Já o prêmio do público ficou com o macedônio DJ Ahmet, evidenciando a diversidade de narrativas que conquistaram espectadores.
Além disso, a diretora tunisiana Kaouther Ben Hania recebeu o primeiro “Fribourg Cinema Award”, criado em parceria com a Universidade de Friburgo, reconhecendo sua contribuição ao cinema contemporâneo.
Um festival suíço com alcance internacional
Criado em 1980, o Festival International du Film de Fribourg tem hoje mais de quatro décadas de história, embora tenha celebrado sua 40ª edição apenas em 2026. Desde o início, o evento se distinguiu no panorama europeu por dar espaço a cinematografias fora do circuito dominante — uma escolha que marcou sua identidade e influência ao longo dos anos.
Já na primeira edição, o festival exibiu Antônio das Mortes, do cineasta brasileiro Glauber Rocha, obra emblemática do Cinema Novo e símbolo de um cinema político, autoral e voltado às realidades do Sul global. Esse gesto inaugural não foi isolado: ele sinalizou uma linha editorial que continua até hoje, privilegiando narrativas que raramente encontram espaço nas grandes plataformas comerciais.
Ao longo de sua trajetória, o FIFF consolidou-se como uma das principais vitrines europeias para produções da América Latina, África, Oriente Médio e Ásia. Essa vocação é reforçada por iniciativas suíças como o fundo visions sud est, que contribuiu para a realização de cerca de 250 filmes e evidencia o papel da Suíça como promotora cultural além de suas fronteiras.
Na edição de 2026, esse posicionamento ficou evidente tanto na diversidade da programação quanto na resposta do público. O festival voltou a registrar números elevados de participação — superando a marca de mais de 51 mil entradas (presenciais e online) da edição anterior, segundo dados oficiais do FIFF — e ampliou seu alcance com atividades paralelas, sessões escolares e exibições digitais.
Autoridades locais e federais destacaram esse duplo papel — profundamente enraizado em Friburgo, mas com impacto internacional. O presidente do Conselho de Estado do cantão (governador), Philippe Demierre, ressaltou o equilíbrio entre “ancoragem local e vocação global”, enquanto o diretor artístico Thierry Jobin avaliou que esta edição representa “um momento decisivo” para o futuro do festival, com maior reconhecimento nos meios culturais, políticos e econômicos.
Em um contexto marcado pela fragmentação do debate público e pelo consumo individualizado de conteúdo, o FIFF reafirma a importância de espaços coletivos de experiência cultural. Mais do que exibir filmes, o festival suíço segue atuando como plataforma de encontro, reflexão e circulação de ideias — conectando histórias, públicos e geografias que raramente se cruzam.
Ao completar mais de 40 anos de existência, o FIFF demonstra que ainda há espaço para um cinema que desafia, provoca e aproxima. Em Friburgo, o grande diferencial continua sendo justamente esse: olhar o mundo de frente — e fazê-lo em conjunto.
Edição: Eduardo Simantob
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