The Swiss voice in the world since 1935

Estudo suíço prevê aquecimento global acima do esperado

Um campo de milho
Um campo de girassóis perto de Genebra, em agosto. Keystone / Salvatore Di Nolfi

Um estudo científico sugere que o mundo pode chegar a 3,25°C de aquecimento até 2100 com as políticas climáticas atuais. A previsão indica que a Suíça teria de se preparar para um aquecimento local de quase 5°C.

No ano passado, o Instituto Suíço de Meteorologia (MeteoSwiss) e a Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH) publicaram o Climate CH2025Link externo, um relatório sobre como o país seria afetado à medida que o planeta esquenta. Foram considerados três cenários: um em que o mundo estaria 1,5 °C mais quente do que na era pré-industrial; outro em que o aquecimento chegaria a 2 °C; e um terceiro, mais grave, em que o planeta estaria 3 °C mais quente. Este último representa o limite superior que os modelos científicos conseguem descrever com algum grau de confiança.

Uma nova pesquisa da ETH e da Universidade de Leipzig sugere que esse cenário mais severo é agora o desfecho mais provável. Mantidas as políticas atuais, o principal autor do estudo calcula que o aquecimento global poderá chegar a 3,25 °C até 2100 – muito além do que a maioria dos países planejou e mais que o dobro do limite estabelecido pelo Acordo Climático de Paris de 2015.

“Para qualquer trajetória de emissões sem cortes imediatos e drásticos, esperamos um aquecimento 25% maior”, afirma Gergana Gyuleva, pesquisadora de doutorado do grupo de física do clima da ETH e autora principal do estudo, publicado em agosto na revista Earth’s Future. “Nossos resultados não mudam o que acontece em um mundo 3 °C mais quente. Eles apenas mudam a rapidez com que esse mundo de 3 °C se tornará realidade ou a probabilidade de isso acontecer.”

E 3 °C já não é uma expectativa considerada excepcional entre muitos cientistas. Em um estudo realizado em 2024 com 211 autores do IPCC, 42% disseram esperar um aquecimento de 3 °C ou mais até o final do século.

Para a pessoa média na Suíça, o calor extremo tornou-se uma realidade. Este verão foi o mais quente já registrado, com longos períodos de temperaturas extremas e uma grave seca em grande parte do país.

Mostrar mais
As pessoas são fotografadas a caminhar ou em pé ao sol na Paradeplatz, durante a onda de calor e as temperaturas extremas, com uma câmara de imagem térmica, por volta das 13h55 de quinta-feira, 30 de julho de 2026, em Zurique. Esta câmara de imagem térmica (câmara termográfica) não capta luz visível nem cores, mas sim radiação infravermelha (radiação térmica) emitida pelas superfícies: o azul indica frio, o vermelho indica calor e o branco assinala as temperaturas mais elevadas.

Mostrar mais

Adaptação climática

Calor recorde expõe lacunas da adaptação climática suíça

Este conteúdo foi publicado em A Suíça é referência contra avalanches e enchentes, mas o verão recorde expôs lacunas diante de calor, seca e falta de água. O país tem estratégias climáticas, mas ainda carece de metas vinculantes e coordenação nacional.

ler mais Calor recorde expõe lacunas da adaptação climática suíça

Além disso, a Suíça aquece mais rapidamente do que a média global, o que significa que um mundo 3 °C mais quente elevaria as temperaturas locais em cerca de 4,9 °C.

Como especialistas subestimaram o aquecimento global

A previsão mais preocupante do estudo da ETH baseia-se em uma revisão dos modelos climáticos. Normalmente, as previsões são feitas a partir de uma análise do passado – de quanto o planeta se aqueceu em função do aumento da concentração de dióxido de carbono na atmosfera.

Mas os cientistas afirmam que as próprias oscilações naturais do clima – como o fenômeno La Niña, o recorrente padrão de resfriamento do Pacífico – fizeram com que o mundo se aquecesse mais lentamente durante esses anos do que teria acontecido em outras circunstâncias. “Na verdade, tivemos azar do ponto de vista estatístico, porque captamos um período em que a variabilidade produziu menos aquecimento no mundo real”, afirma Gyuleva.

A pesquisa remove esses episódios. Ela também se baseia em outra fonte de dados: medições por satélite da quantidade de luz solar que o planeta absorve e do calor que ele devolve ao espaço. A diferença entre a luz absorvida e o calor liberado mais do que dobrou desde 2000, sugerindo que a quantidade de calor retida na atmosfera terrestre está aumentando mais rápido do que se pensava.

Conteúdo externo

“A principal revisão para cima decorre da inclusão do desequilíbrio energético”, observa Gyuleva. Isso eleva sobretudo o limite inferior da faixa: cenários futuros de baixo aquecimento não são compatíveis com o que os satélites estão observando.

Gyuleva reconhece que essa é a parte mais frágil da pesquisa. Os registros por satélite remontam a apenas 25 anos, por isso é difícil saber como essa tendência se compara à de períodos anteriores. Os modelos fazem um trabalho melhor ao prever o calor que deixa o planeta do que a luz solar que entra, cuja quantidade depende das nuvens e do gelo. Por isso, ela refez os cálculos usando apenas o calor que deixa o planeta, a variável que os modelos conseguem representar melhor. O resultado foi o mesmo. É por isso, diz ela, que confia nos resultados.

Um mundo três graus mais quente

Se 3 °C é o rumo para o qual o mundo caminha agora, como isso se manifesta na prática? Ao avaliar este verão, o ponto de comparação mais relevante é o verão de 2003, quando o calor provocou a morte estimada de 70 mil pessoas em toda a Europa e de cerca de mil na Suíça. Desde então, aquele verão tem servido como parâmetro para o que significa calor extremo no país. Este ano o superou em quase todos os indicadores.

Mostrar mais

A Basileia registrou 58 dias com temperaturas acima de 30 °C, contra 41 em 2003; Berna teve 46, contra 29; Zurique, 38, contra 27. Basel-Binningen registrou um recorde histórico de 39,7 °C e passou 20 dias consecutivos acima dos 30 °C; Locarno chegou a 24 dias, um recorde nacional. A precipitação em Basileia durante os três meses do verão totalizou 82,8 milímetros, aproximadamente metade do volume registrado em 2003.

Os cenários publicados pela MeteoSwiss e pela ETH em novembro passado projetam cerca de 30 dias de calor, com temperaturas acima de 30 °C, para a região de Zurique em um verão típico de um mundo 3 °C mais quente. Este ano foram 38.

Sonia Seneviratne, que dirige o Instituto de Ciências Atmosféricas e Climáticas da ETH e é coautora dos cenários nacionais, afirma que a intensidade deste verão não foi surpreendente. Antes de 2003, as ondas de calor na Suíça eram raras. Desde 2018, tornaram-se uma característica recorrente do verão, e a própria estação está se prolongando nas duas extremidades, estendendo-se agora de junho a setembro.

Como evitar o pior cenário

A maior parte do aquecimento que está por vir ainda pode ser evitada. Segundo os especialistas, uma redução drástica das emissões reduziria pela metade os cenários de aquecimento.

Os cientistas acompanham isso por meio de algo chamado orçamento global de carbono: a quantidade total de CO₂ que o mundo ainda pode emitir antes de ultrapassar determinada temperatura.

O estudo de Gyuleva atribui mais aquecimento a cada tonelada de CO₂ do que os modelos anteriores. Com essa revisão, o orçamento restante encolhe cerca de um quinto. Há menos margem para erros, mas ainda há tempo para agir. “Nossos resultados apontam para a necessidade de uma mitigação mais rápida para atingir uma determinada meta de temperatura”, afirma.

Na prática, isso significa que as emissões globais precisam ser reduzidas pela metade por volta de 2030 e chegar a zero até 2050, no máximo. Isso exige eliminar a dependência de petróleo, gás e carvão. Na Suíça, especificamente, segundo Seneviratne, isso significa substituir os carros a gasolina por veículos elétricos e os sistemas de aquecimento a óleo e gás por bombas de calor ou energia geotérmica, além de ampliar a geração de energia solar, eólica e hidrelétrica para suprir a eletricidade adicional.

Essas substituições resolvem a maior parte do problema. Juntos, os setores de transportes e edifícios respondem por mais da metade das emissões de gases de efeito estufa da Suíça.

A Suíça se comprometeu a reduzir pela metade suas emissões até 2030, em relação aos níveis de 1990, e a alcançar emissões líquidas zero até 2050. Até agora, conseguiu reduzi-las em pouco mais de um quarto. Em agosto, o ministro do Meio Ambiente, Albert Rösti, afirmou que a Suíça provavelmente não atingirá sua meta para 2030.

Mostrar mais

Ainda há uma escolha

No relatório CH2025, os autores também observam que narrativas alarmistas sobre o clima são contraproducentes e que é útil apresentar, junto com elas, possíveis caminhos de ação. “O que sinto falta no meio político, em termos de mitigação das mudanças climáticas, são narrativas positivas”, afirma Gyuleva.

Perguntada sobre como seria uma narrativa positiva, ela cita exemplos suíços baseados em benefícios adicionais. Carros elétricos conectados à rede durante a noite podem funcionar como sistemas de armazenamento de energia, enquanto as cidades se tornam mais silenciosas e têm um ar mais limpo à medida que diminui o número de carros movidos a gasolina, sem que ninguém seja impedido de dirigir.

Produzir e consumir menos carne e laticínios, em vez de eliminá-los por completo, melhoraria a qualidade dos alimentos, reduziria a importação de ração animal, diminuiria a concentração de nitrato nas águas subterrâneas e melhoraria o bem-estar dos animais. Um sistema energético que não dependa de combustíveis fósseis importados fica menos exposto a choques geopolíticos.

Um estudo recém-publicado pelo PNUMA apresenta uma versão dessa mesma ideia em números. Considerando as políticas que os governos realmente adotaram, o relatório projeta um aquecimento de cerca de 2,6 °C até 2100.

Se todos os compromissos nacionais e as metas de emissões líquidas zero fossem integralmente cumpridos, esse número cairia para cerca de 1,8 °C. “A sociedade precisa de narrativas positivas, de visões positivas de futuro que sejam viáveis”, afirma Gyuleva. “E elas existem.”

O mais recente estudo climático da ETH mostra que um aquecimento de 3 °C é um cenário perfeitamente possível, mas não inevitável. O que o futuro nos reserva dependerá das políticas, das narrativas e das ações adotadas hoje, afirmam seus autores.

Edição: Gabe Bullard/vdv/ts

Adaptação: Karleno Bocarro

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR