Revistas do pós-guerra ajudam a entender direita radical
Historiadores e historiadoras suíços analisam revistas de redes de direita publicadas depois de 1945. Essa pesquisa também ajuda a compreender as estratégias de comunicação utilizadas atualmente pelos extremistas de direita.
Quando representantes da cena política de extrema direita da Europa e dos Estados Unidos falam, em uma cúpulaLink externo realizada no litoral português, de “estética” e “vanguarda”, “memes” e “vibes”, “trabalho mediático” e “terminologia”, isso tem mais a ver com a era pré-internet do que pode parecer à primeira vista.
Essa chamada “Remigration Summit” (Cúpula da Remigração) teria sido organizada em sua maior parte a partir da Suíça, afirmou no local um extremista de direita suíço à revista Republik.
Plataformas digitais e redes sociais são instrumentos centrais de comunicação e mobilização para grupos extremistas. Em particular por meio da desinformação, cada vez mais gerada por inteligência artificial, elas criam uma espécie de esfera pública alternativa.
Nas redes da extrema direita europeia, a Suíça desempenha há muito tempo um papel.
Para compreender como, após a II Guerra Mundial, as ideologias fascistas e de extrema direita puderam continuar a se disseminar, estabelecer conexões e se reorganizar, a ciência tem voltado cada vez mais sua atenção para os chamados meios de comunicação alternativos.
O termo “meios de comunicação alternativos” reúne publicações que se definem em oposição a uma esfera pública midiática apresentada como mainstream, hegemônica ou dominada pelas elites.
Os primeiros meios de comunicação alternativos, que assim se autodenominavam, tinham muitas vezes um caráter subversivo e progressista e davam voz a temas e grupos marginalizados. Entre eles estavam, por exemplo, revistas feministas das décadas de 1970 e 1980, como a Courage, de Berlim Ocidental.
Por outro lado, a pesquisa também classifica como “meios de comunicação alternativos” (em inglês “counter media”) publicações e plataformas antidemocráticas, de orientação conspiracionista e de extrema direita. No século 21, estas frequentemente se autodenominam “mídia alternativa”.
Revista como meio de comunicação
Em meados do século 20, “as revistas eram o meio mais estimulante do discurso político”, afirma a historiadora Franca Schaad. Ela participa de um projeto de pesquisaLink externo da Universidade de Friburgo e da Escola Superior de Artes de Berna que trata dos precursores históricos dos atuais meios de comunicação alternativos.
Schaad faz seu doutorado sobre as representações da masculinidade em revistas da Nova Direita, fundadas em grande número a partir da década de 1960 na Alemanha e também na Suíça. Em comparação com os livros, as revistas eram impressas de maneira mais rápida e barata. Schaad explica: “Isso permitia também que pequenos grupos e indivíduos tivessem mais condições de disseminar suas mensagens.”
Movimentos de 1968 como modelo
Essa evolução coincidiu com uma “mudança estrutural da esfera pública”, como escreveu o filósofo Jürgen Habermas em 1962. A ditadura nazista destruiu a liberdade de imprensa a partir de 1933 e deixou na Alemanha, depois de 1945, um vácuo no mercado de mídia. Algumas grandes empresas de comunicação passaram a dominá-lo. “Isso incomodava o movimento de 1968”, afirma Schaad.
O movimento estudantil de esquerda pressionava, na Alemanha, na Suíça e em outros países, por mudanças sociais e políticas. O meio político de direita tinha uma visão dividida sobre os movimentos de 1968. Por um lado, os esquerdistas eram seu inimigo; por outro, a atividade editorial da esquerda tornou-se um modelo para eles.
Muitas revistas de direita copiaram o estilo faça-você-mesmo, com colagens e recortes feitos com estênceis, das revistas de esquerda daquela época. “A estética resultava daquilo que estava em voga e das possibilidades técnicas disponíveis”, afirma Schaad.
Mostrar mais
Como a extrema direita se tornou um movimento europeu após 1945
Retorno a Antonio Gramsci
Recorrendo ao comunista italiano Antonio Gramsci, os círculos editoriais e intelectuais de direita apropriaram-se, a partir de meios intelectuais de esquerda, da ideia de que a “transformação nas mentes” deveria preceder a conquista do poder político. Seu objetivo era penetrar na cultura, no “espaço pré-político” e na opinião pública.
Além do intercâmbio e do debate em torno de teorias, as revistas de direita das décadas de 1960 a 1980 também buscavam testar maneiras de deslocar os “limites do que é possível dizer”. “Como tornar novamente aceitável uma ideologia na qual a desigualdade e a violência desempenham um importante papel?”, pergunta Schaad retoricamente, dando em seguida a própria resposta: “Apresentando-se como intelectual e estabelecendo retoricamente uma distância em relação ao fascismo, enquanto, na prática, as posições e a visão de mundo permaneciam inalteradamente nacionalistas e racialistas.”
O resultado foi uma linguagem eufemística e, em parte, codificada. Isso também aparece no próprio termo “Nova Direita”: na Europa, inclusive na Suíça, essa autodenominação difundiu-se na segunda metade do século 20 entre grupos da direita radical e grupos de extrema direita que chegavam a recorrer à violência. O termo “Nova DireitaLink externo” servia, em parte, para ocultar suas ligações com o nacional-socialismo e o extremismo de direita, explica Schaad. Ainda assim, o termo se impôs na pesquisa acadêmica. O projeto “Counter Media” também o utiliza.
Algoritmos reforçam conteúdo
Hoje, os integrantes da Nova Direita frequentemente se autodenominam “direita alternativa”, a fim de alcançar setores mais moderados. “É perigoso subestimar o estilo de comunicação e a linguagem da direita”, afirma Franziska Marquart, pesquisadora de comunicação e mídia da Universidade de Copenhague, que, entre outros temas, estuda comunicação política e desinformação nas redes sociais.
Segundo ela, memes e a ridicularização de adversários políticos são, por exemplo, estratégias de comunicação típicas de extremistas de direita. “A embalagem humorística normaliza e relativiza a gravidade de conteúdos problemáticos”, afirma Marquart.
Estudos recentes mostram que plataformas como o TikTok reforçam conteúdos de direita porque seu algoritmo favorece publicações populistas e de forte carga emocional. “Ao navegar aleatoriamente pelo conteúdo, há um alto risco de entrar em contato com conteúdos da direita radical, sobretudo para novos usuários”, explica a pesquisadora de comunicação.
Questão de confiança
Segundo Marquart, os meios de comunicação alternativos radicais e extremistas, ou suas respectivas “bolhas” digitais, influenciam o comportamento eleitoral de apenas uma pequena parcela das pessoas e, mesmo assim, em conjunto com outros fatores, como uma atitude racista. Está comprovado que esses meios de comunicação alternativos enfraquecem a confiança na política, na mídia e nas instituições democráticas.
Mostrar mais
Por que as pessoas na Suíça confiam no Estado
Meios de comunicação alternativos que difundem informações falsas e conteúdos de incitação ao ódio seriam ainda mais problemáticos quando as próprias autoridades e governos produzem esse tipo de conteúdo, afirma Marquart, referindo-se à plataforma Truth Social, de Donald Trump. Por sua vez, o nível básico de confiança da população no Estado influencia a medida em que opiniões populistas de direita e extremistas tendem a ser mais ouvidas.
Concursos de escrita
Também as revistas de direita do século 20 procuravam envolver seus leitores por meio de conteúdos emotivos e deliberadamente provocativos, e com a disseminação intencional de informações falsas. “Revistas como Nation Europa e Im Brennpunkt tinham características de plataformas”, afirma Franca Schaad. Com elementos destinados à participação da comunidade, como testes de personalidade, concursos de escrita e seções de cartas dos leitores, elas procuravam criar um sentimento de pertencimento.
E as revistas daquela época também se dirigiam frequentemente a um público jovem, apostando em temas atuais e nas tendências de comunicação do momento. Nas universidades, no contexto do movimento de 1968, surgiram cada vez mais revistas políticas de esquerda, mas também publicações de direita conservadora, como a Neue Studenten-Zeitung. Schaad cita a Neue Studenten-Zeitung, bem como as publicações Abendland, Schweizerzeit e Memopress, como os títulos mais influentes da então Nova Direita na Suíça de língua alemã.
O alcance das revistas suíças teria sido, de fato, significativamente menor do que o de suas equivalentes alemães, afirma a historiadora Schaad. Como “espaço de articulação” transnacional do movimento, porém, a Suíça teria sido central e continua sendo até hoje. Schaad aponta como razões o multilinguismo e, em comparação com os países vizinhos, as “grandes liberdades para a realização de eventos da direita radical”.
Influência de Armin Mohler e Emil Rahm
A Suíça também exerceu influência sobre a Nova Direita por meio de indivíduos ativos internacionalmente. Entre eles estavam o publicista Armin Mohler e Emil Rahm, herdeiro da empresa de bebidas Rimuss, que editava uma revista de orientação cristã e conspiracionista.
Mohler quis ingressar na Waffen-SS na Alemanha nazista. Depois da guerra, popularizou entre os extremistas de direita europeus a ideia de uma “Revolução Conservadora”.
Os extremistas de direita atuais fazem referências explícitas a seus modelos históricos — portanto, potencialmente se interessam pelas mesmas fontes que os historiadores e historiadoras. Franca Schaad observa que a pesquisa histórica contemporânea durante muito tempo deu pouca atenção a essas revistas políticas.
Mostrar mais
O suíço que inspirou a nova direita da Alemanha
Edição: Benjamin von Wyl
Adaptação: Karleno Bocarro
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.