Famílias em Gaza ainda buscam mortos três anos após guerra
Três anos após o ataque liderado pelo Hamas contra Israel e a guerra subsequente, grande parte de Gaza continua em ruínas e muitas famílias ainda não encontraram os corpos soterrados de seus familiares.
A noite caía sobre Deir Al-Hawa, em Gaza, e o bairro havia sido esvaziado de acordo com as ordens de evacuação do Exército israelense. Hamada Abu Hasira se recorda do estrondo de tanques e tropas que quebravam periodicamente o silêncio.
Ele e sua família lutavam contra o sono. Haviam escolhido o último andar deliberadamente. Se o edifício fosse atingido, pensavam eles, estar mais alto poderia dar às equipes de resgate uma chance melhor de encontrá-los. E, pensava a família, “se formos atingidos, preferimos morrer juntos”.
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Em seguida, ouviram uma movimentação ao redor da entrada do prédio. Quando o silêncio voltou, um dos irmãos de Hamada desceu para checar o carro da família e ver se ainda poderiam partir, ignorando os apelos dos parentes para que não fosse porque era perigoso demais.
Lá fora, ele viu o que pareciam ser barris de explosivos. Dentro do carro da família, um dispositivo emitia um tique-taque. Ele correu de volta para o andar superior. O pai decidiu que ninguém mais desceria. Esperariam a luz do dia para, então, partir.
A explosão ocorreu antes da alvorada. O edifício desabou sobre eles. Abu Hasira passou mais de 24 horas sob os escombros antes que um vizinho ouvisse seus gritos e ajudasse a retirá-lo. Ele e sua mãe, Reem, sobreviveram. “Chamei meu irmão Ahmed. Ele me respondeu no início, mas depois sua voz se calou. Foi quando soube que ele havia morrido”, relatou Abu Hasira, que trabalha como cozinheiro em uma organização local.
Os corpos de seu pai, Imran, e de seu irmão Ahmed foram recuperados. Seu irmão mais novo, Momen, continua desaparecido. A ausência dos três é sentida por ele, ainda mais enquanto se preparava para celebrar o casamento.
Milhares continuam sob escombros
Abu Hasira não está sozinho nessa provação. Por toda a Faixa de Gaza, famílias inteiras foram sepultadas sob edifícios destruídos, muitos morreram e incontáveis continuam desaparecidos. Para as famílias, a prioridade é recuperar e sepultar os familiares. Para os investigadores, os mesmos escombros podem guardar evidências de como eles morreram.
A guerra decorrente dos ataques liderados pelo Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 deixou grande parte de Gaza em ruínas. Até junho de 2026, a ONU estimavam que 82% de todas as estruturas em Gaza haviam sido danificadas, incluindo 134.422 classificadas como destruídas.
Grande parte desse entulho ainda precisa ser removida. “Estima-se que pelo menos oito mil corpos permaneçam soterrados sob os escombros em toda a Faixa de Gaza”, declarou Ajith Sunghay, chefe do Escritório das Nações Unidas para os Direitos Humanos no Território Palestino Ocupado (OHCHRLink externo, na sigla em inglês). “Neste ritmo, concluir a recuperação dos corpos restantes levará pelo menos mais dez anos”, afirmou, falando de Amã, na Jordânia.
Anos sem respostas
Para muitas famílias, a incerteza já dura anos. No bairro de Al-Zaytoun, na Cidade de Gaza, um ataque israelense destruiu a residência da família Abu Zour em 4 de dezembro de 2023, segundo o vizinho Mohammed Al-Harazin. Uma menina de 13 anos foi a única sobrevivente, ele recorda. Cerca de 50 parentes e pessoas deslocadas foram mortos.
“O teto foi parar no nível do chão por causa da magnitude da destruição”, afirma Al-Harazin, estudante de engenharia que precisou se mudar para Al-Mawasi, no sudoeste da Faixa de Gaza, devido à guerra. “Os corpos dos que foram mortos permaneceram sob os escombros (até setembro) porque a área era perigosa e era difícil realizar os esforços de resgate”, acrescenta.
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O pai de Amal Maqbel, Ashraf, está desaparecido desde que um bombardeio israelense destruiu o prédio de seis andares da família em 6 de dezembro de 2023. “Não sabíamos se meu pai ainda estava lá dentro, se havia conseguido sair ou o que tinha acontecido com ele”, disse.
Um ano depois, familiares encontraram ossos não identificados nos escombros, mas não eram os restos mortais dele. “A casa que outrora reunia a família transformou-se agora em nada mais que uma pilha de pedras e escombros”, relatou Maqbel.
Descobertas revelam dimensão das perdas
Resgates recentes começaram a revelar a escala do que jaz sob as ruínas de Gaza. Mais de 630 corpos e outros restos mortais foram recuperados entre novembro de 2025 e setembro de 2026, segundo dados da Defesa Civil Palestina citados pela ONU. “Os restos mortais recuperados até agora podem ser apenas a ponta do iceberg”, declarou Thameen Al-Kheetan, porta-voz de direitos humanos da ONU.
Em setembro, os restos mortais de 96 pessoas de três famílias palestinas foram retirados de sob os escombros na Cidade de Gaza, de acordo com o escritório de direitos humanos da ONU, o ACNUDH (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos, órgão encarregado de promover e proteger os direitos humanos no mundo). Cerca de metade era composta por mulheres e crianças.
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Sunghay citou o caso da família Malaka, que perdeu 72 membros em um ataque aéreo israelense contra as residências da família em novembro de 2023. Apenas três corpos foram recuperados na ocasião.
Restos mortais que se presume pertencerem a 55 membros da família estavam entre os resgatados em setembro. Os corpos dos 14 restantes continuam desaparecidos sob os escombros.
Ele disse que um sobrevivente do ataque à família Malaka relatou à ONU que, por quase três anos, sentiu-se soterrado sob camadas de luto e dor. A escala da destruição, observou Sunghay, também torna a identificação mais complexa. “O puro poder de detonação de munições pesadas por vezes não deixou restos mortais passíveis de recuperação”, disse ele, falando de Amã. “E fica cada vez mais difícil distinguir entulho de restos mortais à medida que os anos passam.”
Resgate com poucos recursos
O trabalho de recuperação é prejudicado pela escassez severa de maquinário, combustível e pessoal. Sunghay afirmou que as equipes da Defesa Civil Palestina dispunham de apenas uma escavadeira em funcionamento e, em certos momentos, escavavam os escombros com as próprias mãos porque Israel restringe a entrada de equipamentos pesados e de equipes de resgate treinadas.
Israel afirma que os equipamentos que entram em Gaza estão sujeitos a inspeções de segurança. As Forças de Defesa de Israel declaram que o Hamas utilizou veículos de engenharia para romper a barreira entre Gaza e Israel em 7 de outubro de 2023, no ataque que matou cerca de 1.200 pessoas. O Exército afirmou que maquinário semelhante foi usado posteriormente para abrir túneis, plantar explosivos e resgatar armamentos dos escombros.
Para algumas famílias, até mesmo alcançar as ruínas é impossível. “A maior parte do território de Gaza encontra-se agora além da Linha Amarela, inacessível aos palestinos, incluindo as equipes de defesa civil e as famílias de pessoas desaparecidas”, explicou Sunghay. A Linha Amarela é a fronteira móvel que separa as áreas de Gaza sob controle militar de Israel daquelas que os palestinos ainda podem acessar.
O acordo de cessar-fogo de outubro de 2025 entre Israel e o Hamas levou à devolução de todos os reféns israelenses e de seus restos mortais. Em contrapartida, Israel libertou quase dois mil prisioneiros e detidos palestinos e devolveu corpos de palestinos que mantinha sob custódia.
No entanto, cláusulas fundamentais do cessar-fogo continuam incompletas. O Hamas e outros grupos armados não se desarmaram, Israel não concluiu sua retirada planejada e a reconstrução (estimada pela ONU e pelo Banco Mundial em um custo de pelo menos US$ 71 bilhões) ainda não começou em larga escala.
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Preservação de evidências
Limpar os escombros de Gaza não é apenas uma questão de reconstrução e de localização dos desaparecidos. Autoridades de direitos humanos da ONU afirmam que locais destruídos também podem conter provas relevantes para investigações sobre supostas violações do direito internacional (conjunto de regras que regem as relações entre Estados e protegem indivíduos em conflitos armados). “Recuperar e enterrar as vítimas não substitui a determinação das circunstâncias em que foram mortas”, afirmou Al-Kheetan a jornalistas em setembro.
As avaliações da ONU não atribuem a responsabilidade por cada edifício destruído. No entanto, especialistas em direitos humanos da organização relacionaram a destruição generalizada da infraestrutura urbana de Gaza a bombardeios aéreos, disparos de artilharia e operações terrestres de Israel.
A relatora especial da ONU, Francesca Albanese, alertou que a remoção precipitada de entulhos pode destruir tanto restos humanos quanto evidências potenciais. “Os escombros de Gaza contêm restos humanos e provas materiais relevantes para a investigação de supostos crimes internacionais”, disse.
O OHCHR também alertou que os locais destruídos podem conter provas que precisam de preservação. Al-Kheetan afirmou que o órgão tem graves preocupações de que os métodos de guerra de Israel, incluindo o uso de armas explosivas de amplo impacto em áreas densamente povoadas, “tenham falhado em assegurar a distinção efetiva entre civis e combatentes”.
Israel insiste que suas forças fazem essa diferenciação em conformidade com o direito humanitário internacional (conjunto de leis que busca limitar os efeitos de conflitos armados por razões humanitárias) e adotam precauções para minimizar danos civis, tais como bombardeios com alvos definidos por inteligência e emissão de ordens de evacuação. Contudo, argumenta também que esses esforços são dificultados pela atuação do Hamas dentro de áreas e infraestruturas civis.
Agora deslocado e vivendo com parentes no centro de Gaza, Abu Hasira continua à espera de notícias de seu irmão mais novo, Momen. Ele teme o pior, mas deseja ao menos recuperar o corpo e lhe dar um sepultamento digno. É um anseio compartilhado por milhares de famílias por toda a Faixa de Gaza. “Elas têm o direito de conhecer o destino de seus filhos, pais, irmãos e primos”, disse Sunghay. “Têm o direito de viver o luto com dignidade e têm direito à justiça.”
O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Türk, pediu a Israel que facilite a recuperação, identificação e o sepultamento digno dos mortos “sem demora”.
*Hassan Herzallah é um escritor e tradutor palestino baseado em Gaza.
Edição: Imogen Foulkes/dos/vdv/vm
Adaptação: Alexander Thoele
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