Jovem startup cria software para prever desejos de clientes

Os dois diretores e fundadores da GenLots SA em Lausanne. GenLots

Custos elevados para administrar entrega de produtos e armazenagem de insumos: uma jovem startup em Lausanne desenvolveu um software para resolver esses problemas através da inteligência artificial. Agora é possível prever o que o cliente quer.

Este conteúdo foi publicado em 02. julho 2020 - 12:30
Alain Meyer

O objetivo da GenLots é fornecer no mercado um software que, segundo ela, possa gerar economias consideráveis, fazendo com que os pedidos de mercadorias sejam rentáveis. Dentre os seus clientes, encontra-se a multinacional farmacêutica Merck GKaA (antiga Merck-Serono).

"Foi a primeira empresa a confiar no nosso produto", explica Matthieu Dumont, porta-voz da jovem empresa sediada no Parque de Inovação da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL, na sigla em francês). A startup emprega cerca de dez pessoas, e espera convencer cerca de 400 empresas do setor industrial da importância dessa abordagem inovadora.

E é isso que o software faz: avalia o custo do trânsito de materiais - muitas vezes matérias-primas - de um lugar para outro do planeta, de acordo com parâmetros pouco considerados e, portanto, não quantificados. O software também ajuda as empresas a planejar melhor seus pedidos, antecipando futuras etapas de produção.

O projeto foi desenvolvido em 2017 a partir da tese de mestrado de Simon Schenker, um dos diretores do GenLots, e é também o resultado da estreita colaboração entre a EPFL, sua instituição irmã em Zurique (ETHZ, na sigla em alemão) e a Universidade de Lausanne (UNIL).

O software, que é comercializado na forma de uma licença anual, beneficia-se da angariação de fundos de um milhão de francos, concedidos no final do ano passado pela Fly Ventures - uma empresa sediada em Berlim que atua no financiamento participativo do setor industrial - e pela ACE & Company - um grupo privado de investidores em Genebra.

Cadeias de abastecimento frágeis

Nos tempos do novo coronavírus, as cadeias de abastecimento sofreram muito com as medidas emergenciais decretadas pelo governo. "A crise teve um impacto significativo nas cadeias de abastecimento das chamadas empresas globais, incluindo nossos clientes", confirma Dumont.

"Queremos ajudar as empresas ao informá-las sobre os materiais que correm o risco de escassear." O software garante que os chamados materiais "estratégicos" cruciais para a fabricação de um determinado produto não se tornem escassos, especialmente em tempos de crise.

A proteção do clima também é uma questão: a jovem empresa quer contribuir, à sua maneira, para o cumprimento de critérios relacionados ao aquecimento global. "Temos vários projetos de pesquisa. E a ecologia é um tema que estamos discutindo cada vez mais com as empresas.

Começamos a integrar o custo das emissões de carbono no cálculo dos custos operacionais totais, a fim de otimizar os planos de pedidos das empresas", explica Dumont. E, ao mesmo tempo, os setores de logística dessas empresas também devem ser capacitados para cumprir seus compromissos climáticos.

Tornando o transporte rentável

Mais do que nunca, este tipo de empresa necessita saber qual é o melhor momento para comprar insumos, seja em termos econômicos ou logísticos. E com que quantidade de material é possível minimizar os custos. O software questiona os planos de pedidos das empresas.

Um algoritmo cobre todas as variáveis concebíveis (perecibilidade, controle de qualidade, prazos de entrega) que têm impacto nos custos dos pedidos. "Nosso projeto de pesquisa enfatiza a importância das perdas ocultas devido ao planejamento subaproveitado de compras", resume Dumont.

A pequena equipe de funcionários no Parque de Inovações em Lausasnne. GenLots

O algoritmo calcula cuidadosamente todos os custos de estoque (armazenamento, custos de oportunidade de capital), os custos diretamente relacionados aos pedidos (transporte) e, é claro, os preços dos materiais transportados. Além disso, um processo de filtragem capta o impacto dos descontos de quantidade nos preços. Embora a GenLots ainda não cuide da organização real do transporte, ela está considerando a possibilidade de integrar este aspecto no futuro.

Até 10% de economia

"Com essa abordagem de custo total, economizamos em média até 10% nos custos de armazenagem, nos custos de pedidos e no preço do próprio material", diz Dumont. Dependendo da natureza do negócio, isto pode representar um volume significativo. No entanto, a GenLots estabeleceu um limiar de encomenda: um volume mínimo de compra de CHF 30 milhões.

"O algoritmo se adapta a um número quase ilimitado de materiais", diz ele. Mas são principalmente os componentes e matérias-primas que se beneficiam desta abordagem global. "Nosso mercado são principalmente empresas dos setores farmacêutico, químico, de bens de consumo e manufatura. Por exemplo, para o transporte de álcool, produtos químicos, parafusos, manteiga de coco, cacau, corantes, óleo, cabos...", ele enumera.

Como as cadeias de fornecimento têm se tornado cada vez mais complexas, criar um plano de pedidos pode rapidamente se tornar um pesadelo. Mas enquanto a abordagem do software está se mostrando eficaz para facilitar o transporte de uma empresa para outra, a GenLots admite que é difícil otimizar fluxos mais contínuos, como os óleo ou gasodutos por exemplo.

Viabilidade econômica

Aos olhos de Simon Schenker, o software é muito moderno. "Uma tecnologia madura combinada com a vontade de trocar dados nos abre portas", explicou ele em dezembro, logo após o anúncio do investimento de um milhão de francos.

Entretanto, embora a inteligência artificial tenha se tornado um valor agregado ao longo do tempo, a mentalidade ainda se opõe a ela, especialmente no mundo industrial. As empresas muitas vezes não sabem o que esperar de tal software. Ou que economias eles podem conseguir. Para apoiá-los, nasceu o conceito do "Cérebro Artificial da Cadeia de Suprimentos" - um fornecedor inteligente de cadeias de suprimentos.

O fabricante de chocolates Barry Callebaut foi uma das primeiras empresas a utilizar o software desenvolvido pela startup. Keystone / Steffen Schmidt

Como um primeiro passo, "oferecemos aos nossos clientes uma 'prova de economia'", explica Dumont. Em resumo, uma análise dos dados históricos, comparando o que o algoritmo GenLots teria recomendado com os mesmos dados. Estes resultados são então ponderados em relação ao que o sistema estabelecido na empresa recomenda. "É um processo rápido que não requer esforço do cliente e mostra se há potencial", explica Dumont.

A startup sugere então "um projeto piloto com usuários no local" que testam o software com dados em tempo real durante várias semanas. "A empresa começa a realizar economias mesmo durante esse tempo", diz Dumont. Se os resultados do projeto piloto forem bons, a aplicação real pode ser iniciada. Será estabelecido um link com o software que a empresa utiliza para as suas atividades diárias (ERP, na sigla em inglês). Esta etapa irá permitir uma troca otimizada de dados entre este ERP e a GenLots.

Até agora, apenas o setor privado (o fabricante de chocolate Barry Callebaut ou o grupo industrial Huber+Suhner de Zurique) utilizou esta nova modalidade para racionalizar os custos dos pedidos. A maioria dessas empresas tem um volume de produção de mais de CHF 30 milhões.

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