Presidente da Áustria visita a Suíça
Ele conhece bem o país dos Alpes e se sente bem entre seus cidadãos: o presidente austríaco Heinz Fischer chega em visita oficial.
Em entrevista à swissinfo, ele lembra o estreito relacionamento entre os dois países e declara admirado pela pluralidade da Suíça, um país que, em sua opinião, destaca-se por uma notável estabilidade.
Até que ponto o Sr. conhece a Suíça e qual seria o seu relacionamento com o pequeno vizinho ao oeste?
Heinz Fischer: Eu conheço muito bem a Suíça. Estive aqui muitas vezes como turista, escalador de montanhas, esquiador, mas também como parlamentar. Minha imagem da Suíça é consistente e data de muito tempo.
swissinfo: Ao contrário da Suíça, a Áustria é membro integral da União Européia. A adesão foi um bom negócio para o seu país ou existem também desvantagens?
H.F.: Essa é uma pergunta que dividem muitos dos meus concidadãos. Na minha opinião, a adesão da Áustria à União Européia foi claramente uma decisão correta.
Eu considero essa associação não apenas através da ótica egoísta no estilo ‘o que ela nos traz e o que ela nos custa’. Para mim, o projeto da Europa é um projeto de paz.
Nós aprendemos, através da catástrofe trazida por duas guerras mundiais, que precisamos trabalhar de braços dados na Europa. Os conflitos existentes no continente não devem ser nunca mais resolvidos de forma militar. Essa nostalgia e esse desejo são concretizados inteiramente pela União Européia, pois dentro dela é impossível de se fazer uma guerra.
swissinfo: A Suíça está fora da União Européia. Como ela é vista na Áustria? Como uma ilha ou país que quer aproveitar-se apenas das vantagens? Ou seria a Suíça uma nação isolada?
H.F.: Não podemos de forma nenhuma considerar a Suíça isolada. Ela tem ótimas relações com a União Européia e os mais importantes países vizinhos da Suíça também pertencem à UE.
Eu vou naturalmente me abster de dar qualquer tipo de conselho. Eu acredito que a Suíça, de forma crescente, está construindo e reforçando suas relações com a União Européia. Porém como a questão da adesão será finalmente decidida, isso é uma decisão que só pode ser tomada pelos próprios suíços dentro da estrutura de democracia de base do país.
swissinfo: De qualquer maneira, o Sr. acredita que a Suíça pertence à Europa?
H.F.: A Suíça está no centro da Europa. Existem poucos países que sejam mais pluralistas do ponto de vista europeu do que a Suíça. Essa proximidade das mais diversas culturas e idiomas em um Estado, que se destaca de uma forma impressionante pela estabilidade política, define do charme especial da Suíça.
swissinfo: Na Suíça existe atualmente um forte debate sobre a questão da neutralidade. A Áustria trocou, há cinco anos, sua “neutralidade contínua” pela “liberdade de alianças”. Essa posição continua?
H.F.: Nossa lei constitucional de neutralidade de 26 de outubro de 1955 continua em vigor. A Áustria continua sendo um país que se obriga ao princípio da neutralidade. As tentativas visando uma adesão da Áustria à OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte) não são mais hoje em dia tema de debate.
Todos os partidos mais importantes reconhecem e tomam a posição da neutralidade. Apenas a adesão à União Européia nos trouxe algumas obrigações, dentre elas a obrigação da solidariedade, por exemplo.
O ponto decisivo para mim é que ninguém pode obrigar a Áustria a participar de ações militares dentro do contexto da UE.
Nossa decisão é apoiada pela Constituição, mas também é ditada pela nossa vontade política de participar de campanhas de paz da ONU, porém apenas em uma dimensão que permaneça controlável e com uma certa prudência.
swissinfo: A copa européia de futebol em 2008 será organizada em conjunto pela Áustria e pela Suíça. Seria essa uma equipe ideal?
H.F.: Eu já acho muito positivo o fato dos dois países estarem trabalhando juntos nesse intento. Nós dobramos dessa forma nossas capacidades, experiência e também capacidade de organização. É muito bom quando os talentos da Suíça e da Áustria possam ser unidos. Eu posso até imaginar que essa cooperação poderá servir de modelo para o futuro.
Quais seriam os pontos em comum entre os dois países afora os Alpes e o folclore?
H.F.: Nós poderíamos descobrir muitos paralelos, mas também muitos desenvolvimentos diferentes. A Suíça e a Áustria foram influenciadas pela história dos últimos séculos em diferentes aspectos do desenvolvimento cultural. Os dois países também têm – em parte – o mesmo idioma.
Mas também existem diferenças e é aí que está o atrativo. Através delas é que surge o relacionamento extremamente tenso entre os dois países, porém ressaltando que ele também é muito profícuo.
swissinfo: Os austríacos têm a fama de serem mais simpáticos e abertos do que os suíços. O Sr. concorda?
H.F.: Eu tenho muita dificuldade com generalizações. Existem também os austríacos pouco simpáticos e rabugentos e os suíços abertos e amigáveis.
Um observador mais acurado diria que os austríacos têm a capacidade de terem muito charme e os suíços de serem especialmente trabalhadores e hábeis.
Eu me considero muito satisfeito com a distribuição de talentos entre austríacos e suíços. Dessa forma podemos considerar que a justiça foi feita.
swissinfo: Existem na Áustria piadas sobre suíços como elas existem na Suíça sobre os austríacos?
H.F.: Eu poderia contar para você nesse momento mais de vinte piadas de austríacos. Porém não consigo me lembrar de nenhuma piada sobre suíços. Mas eu acho que elas existem. Afinal, não há um país sobre o qual não se faça piada.
swissinfo, Gaby Ochsenbein
A Áustria tem 8,2 milhões de habitantes e é duas vezes maior do que a Suíça.
Desde 1995 a Áustria é membro da União Européia
Os dois países são neutros
Os dois têm o segredo bancário
O volume de comércio entre os dois países foi, em 2005, da ordem de 12 bilhões de francos.
Heinz Fischer nasceu em 9 de outubro de 1938 em Graz, Áustria.
Estudou ciências políticas e direito em Viena.
Entrou na política nos anos 60, tendo assumido várias funções no Partido Socialista Austríaco (SPÖ, na sigla em alemão): deputado federal, chefe do grupo parlamentar, vice-secretário do partido, ministro das Ciências e presidente do Congresso Nacional.
Em 8 de julho de 2004, Heinz Fischer assumiu o cargo de presidente da Áustria.
Normalmente a Suíça convida uma vez por ano um chefe de Estado para uma visita oficial ao país. Em 2006 o escolhido foi o presidente da Áustria, Heinz Fischer. Ele visita a Suíça entre 7 e 8 de setembro.
As conversações programadas entre os dois países irão tratar do aprofundamento das relações, a questão européia, a organização do campeonato europeu de futebol em 2008, assim como cooperação científica e cultural.
Também está planejada uma visita ao Tessin, cantão de língua italiana.
A última visita de um chefe de Estado da Áustria ocorreu em 1992.
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