Onde as vacas disputam o título de rainha
Toda primavera, no cantão do Valais, sudoeste da Suíça, milhares de pessoas assistem às lutas de vacas da raça Hérens. Mas o que realmente acontece na arena? E de onde vem essa tradição tão enraizada no vale do Ródano? Fomos descobrir na cidade de Martigny.
O ar está frio e cheio de tensão. Na arena do anfiteatro romano de Martigny, numa manhã de março, 15 vacas aguardam em círculo para serem liberadas dos cabrestos. Nas arquibancadas, mil espectadores observam a cena, seus narizes avermelhados e bonés bem encaixados na cabeça. Ao comando do juiz – “Proprietários, soltem o gado” –, as vacas se sacodem, como se levassem um choque elétrico. A luta das rainhas começa.
No meio da arena, com o focinho no chão e os chifres apontados para cima, NegraLink externo cava a terra com os cascos. Ela ainda não escolheu a adversária com quem vai lutar. Ao seu redor, pares já estão em pleno confronto. Algumas vacas se encaram, enquanto outras correm em círculos com o rabo levantado.
Finalmente, Negra encontra sua adversária. As narinas se dilatam, os olhos fixam-se à frente e os músculos do pescoço se retesam. Depois, vem o impacto entre as duas bestas de quase 700 kg. Bastam alguns empurrões com as patas traseiras para fazer a outra vaca desistir e se afastar. O embate é muito desigual. O mesmo acontecerá em mais três lutas classificatórias. Negra avança para a final.
No anfiteatro, atrás das cordas, Gérard Rouiller acompanha nervoso a luta. Ele é um dos quatro proprietários de Negra, junto a Nathalie Lugon, Pierre Mugnier e Michèle Lattion. São todos apaixonados pelas vacas da raça Hérens.
Eles descobriram Negra durante uma luta em Cogne, no vale de Aosta, e imediatamente se apaixonaram por ela. “A compra foi uma decisão impulsiva, movida pelo coração”, conta Rouiller, confidenciando que cada um dos quatro desembolsou 5 mil francos suíços para convencer o dono a deixá-la partir para Martigny-Combe.
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Essas são as regras do combate de vacas suíças
Passeio entre fileiras de vacas
O espetáculo que se desenrola no entorno e dentro do anfiteatro de Martigny é um amálgama de tradição agropastoril, paixão pessoal, identidade cantonal e reconhecimento social.
Ao raiar do dia, sob um céu acinzentado e com as montanhas cortadas por uma nevasca de primavera, os animais desfilam como um exército diante das estátuas dos imperadores romanos César, Augusto e Cláudio.
As vacas chegam em massa, conduzidas pelos proprietários. Cerca de 180 cabeças de gado, entre vacas e novilhas, participam dos “combates”, como as lutas são chamadas na parte francófona de Valais. À espera delas estão os organizadores do evento e os membros do sindicato de criadores ‘Pied du château’.
As vacas são pesadas e examinadas. Seus chifres, quando muito afiados, são aparados com uma lixa. Por fim, armados com um pote de tinta branca e um pincel, os responsáveis escrevem um número nos flancos dos animais. Para Negra, é o 58.
Depois de amarradas às correntes, as vacas presenciam um vai e vem constante. Os criadores voltam aos carros para buscar sacos de feno, sacolas cheias de pão seco, baldes com grãos, mesas e cadeiras, bolsas térmicas, contêineres e tendas.
Entre as fileiras de vacas, formam-se grupos de pessoas: familiares, amigos e conhecidos. Parece um tipo de piquenique. O ar começa a cheirar a esterco, café e vinho branco. A música country de festival que toca nos alto-falantes se sobrepõe ao mugido e ao tilintar dos sinos das vacas. A espera começa.
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Laura, guardadora de vacas e de sonhos
“Não preguei olho na noite passada”, diz Nathalie Lugon. “Mas agora o pior já passou. Agora é sua vez de ser homenageada”, diz ela, acariciando o focinho de Negra.
Símbolo do cantão
A raça Hérens leva o nome de um vale secundário localizado ao sul do vale do Ródano, no Valais. As vacas são de porte médio e têm uma constituição forte e musculosa. Distinguem-se pelos chifres grossos curvados para dentro e pela pelagem uniforme, que varia do preto ao marrom-avermelhado.
Mas o que as caracteriza é principalmente seu temperamento combativo. E é desse comportamento natural que surgiu a tradição das lutas de rainhas. Inicialmente, elas aconteciam apenas nos pastos alpinos comunais.
Quando os rebanhos de diferentes criadores se encontravam, era preciso definir uma líder. “A vaca mais forte, a rainha, podia pastar a grama dos melhores pastos, e com ela as vacas de seu estábulo”, escreve o historiador do Valais Thomas Antonietti, em seu livroLink externo Kein Volk von Hirten – Alpwirtschaft im Wallis (Não uma nação de pastores – Pecuária alpina no Valais).
“As lutas de vacas não eram, portanto, apenas simbólicas e de prestígio social, mas também respondiam a considerações práticas. […] Como as vacas premiadas nas exposições de gado, a coroação de uma rainha aumentava o valor econômico do animal”, afirma.
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Em busca da vaca perdida
Nas montanhas, as lutas de rebanho eram assistidas apenas pelos criadores. A popularidade das lutas de vacas aumentou quando, a partir da década de 1920, os combates passaram a ser organizados nas planícies.
As primeiras lutas foram realizadas em Montana e Martigny, no outono, após a pastagem de verão. O verdadeiro sucesso veio quando os encontros passaram a ser realizados na primavera. A partir da década de 1960, as lutas se tornaram um espetáculo muito popular, frequentemente assistido por vários milhares de pessoas, nem todas do mundo rural. Segundo Antonietti, a regionalização dos eventos levou a uma mudança semântica. “A vaca de luta gradualmente se tornou um símbolo de todo o cantão”.
Assim, com o passar dos anos, a vaca Hérens se tornou um dos animais representantes do Valais: sua resistência e tenacidade a transformaram em uma metáfora do território alpino acidentado e selvagem e das pessoas que o habitam.
O momento mais representativo dessa identidade cantonal é a final nacional realizada em maio, na cidade de Aproz, onde todo Valais se reúne. E é lá que encontraremos Negra.
No meio da arena, com o focinho no chão e os cascos cavando a terra, Negra aguardará sua adversária para o encontro que poderá consagrá-la como rainha das rainhas.
As lutas de vacas da raça Hérens seguem regras precisasLink externo. Os animais são divididos em três categorias de acordo com o peso, além de primíparas (primeira lactação) e novilhas. O dia inclui rodadas classificatórias pela manhã e finais à tarde, ao final das quais a rainha de cada categoria é coroada.
Um júri de cinco membros, incluindo um presidente, dirige as lutas e é responsável por fazer cumprir as regras, eliminar vacas que perdem ou recusam o combate e estabelecer a classificação final. Uma vaca geralmente é eliminada quando perde ou se retira três vezes.
Também atuam na arena os rabatteurs (tocadores), geralmente jovens, que agem sob as instruções dos juízes. Sua tarefa é se aproximar das vacas para facilitar a luta, impedir que outros animais perturbem as duas competidoras e remover da luta os animais eliminados ou relutantes.
As lutas são conduzidas usando o sistema de eliminação progressiva: durante a rodada classificatória, grupos de 12 a 16 vacas competem entre si e as cinco a seis melhores de cada grupo avançam para a final da categoria. Na final, as competidoras lutam até que uma domine todas as outras e seja proclamada rainha da categoria.
Adaptação: Clarice Dominguez
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