Escalada da violência no Irã vira um teste de posicionamento para a Suíça
A União Europeia incluiu a Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, alinhada ao governo local, na sua lista de organizações terroristas. A Suíça, que é responsável por representar os interesses dos EUA no Irã há 40 anos, deveria seguir o exemplo? Para o ex-embaixador Tim Guldimann, a resposta é clara.
Os últimos protestos no Irã desencadearam uma nova onda de violência estatal. As forças de segurança do governo e a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) atacaram manifestantes em várias cidades com munição real e gás lacrimogêneo, seguidos por prisões em massa.
Organizações e ativistas de direitos humanos relatam vários milhares de feridos e mortos. Os números exatos são quase impossíveis de verificar, pois a internet no Irã está amplamente bloqueada.
A Suíça também está preocupada com os acontecimentos. Manifestações contra o regime iraniano ocorreram em várias cidades, incluindo Berna e Zurique, nas últimas semanas. A polícia interveio em frente à embaixada iraniana em Berna depois que uma manifestação não autorizada se intensificou.
O governo suíço havia retomado as sanções contra o Irã em dezembro, alinhando sua posição a algumas medidas internacionais anteriores, com o objetivo de impedir a criação de um vácuo legal, que permitisse boicote às sanções internacionais através da Suíça. No início de janeiro, políticos social-democratas de esquerda pediram ao governo que seguisse as sanções da UE.
Em meados de janeiro, a Suíça convocou o embaixador iraniano em Berna para expressar sua profunda preocupação com a repressão violenta no Irã. Ao mesmo tempo, o Ministério das Relações Exteriores condenou a violência em curso no país e pediu às autoridades que acabassem com a repressão contra os manifestantes e respeitassem os direitos humanos.
Mensageiro entre os EUA e o Irã
Nesse contexto, o papel especial da Suíça ganha destaque: há mais de 40 anos, o país alpino representa os interesses dos EUA no Irã como potência protetora.
O mandato de potência protetora remonta à crise dos reféns de 1979: após a proclamação da República Islâmica no Irã, estudantes ocuparam a embaixada dos EUA em Teerã e fizeram funcionários reféns. Os EUA romperam todas as relações diplomáticas com o Irã.
Um ano depois, a Suíça se ofereceu para representar os interesses dos EUA no Irã. Desde 1980, ela atua como “mensageira” entre Washington e Teerã, assumindo tarefas diplomáticas e consulares.
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O ex-embaixador suíço em Teerã, Tim Guldimann, descreve esse papel como pragmático e nada espetacular. “Se o governo iraniano quer dizer algo ao governo americano, ele liga para a embaixada suíça no Ministério das Relações Exteriores e entrega uma mensagem por escrito, que é lida e encaminhada, com um comentário, se necessário”.
Bons ofícios
A proteção dos interesses estrangeiros tem uma longa tradição na política externa suíça. A Suíça assume mandatos de potência protetora há mais de 100 anos. Durante a Segunda Guerra Mundial, chegou a ter cerca de 200 mandatos para 35 países. O pré-requisito é sempre o consentimento de todas as partes envolvidas.
Esses mandatos conferem peso internacional à Suíça e permitem que ela exerça influência como mediadora neutra. O Ministério das Relações Exteriores vê essa atividade como parte de seus chamados bons ofícios. Além do mandato para os EUA no Irã, a Suíça cumpre atualmente outros sete mandatos de potência protetora.
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Entre neutralidade e responsabilidade
A violência atual no Irã aumenta as exigências desse papel. A Suíça se depara com a tarefa de manter o diálogo e, ao mesmo tempo, assumir uma posição clara sobre as violações de direitos humanos, sem comprometer seu papel de embaixadora.
Esse equilíbrio frágil está intimamente ligado à tradicional política de neutralidade. Historicamente, a Suíça tem contado com o diálogo com todas as partes para manter os canais de comunicação abertos, mesmo em situações tensas.
Guldimann não vê nenhum problema moral fundamental no diálogo com regimes autoritários. O fator decisivo não é com quem você conversa, mas se você abre mão de suas próprias posições. O diálogo por si só não significa consentimento. “Só se tornaria problemático se a Suíça, por consideração ao mandato, deixasse de representar posições políticas que, de outra forma, adotaria”, explica ele.
No exterior, porém, essa restrição também é vista com ceticismo. Ali Fathollah-Nejad, cientista político alemão-iraniano e diretor do Centro para o Oriente Médio e a Ordem Global, adverte que a neutralidade suíça na situação atual poderia ser interpretada como um posicionamento a favor do lado errado.
“É de se temer que a Suíça ainda seja considerada um porto seguro para os interesses da República Islâmica em alguns aspectos”, disse ele. Isso poderia não apenas prejudicar a reputação da Suíça, mas também ser prejudicial aos seus interesses, afirma.
UE inclui Guarda Revolucionária na lista de organizações terroristas
A tensão é particularmente evidente na discussão sobre uma possível classificação da IRGC como organização terrorista. Essa decisão foi tomada pelos ministros das Relações Exteriores dos Estados-membros da UE em 29 de janeiro.
A IRGC é a força armada de elite do Irã e se reporta diretamente ao líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei. Seus batalhões têm desempenhado um papel fundamental na repressão aos protestos.
A inclusão formal da IRGC na lista coloca-a em pé de igualdade com organizações como a Al-Qaeda, o Hamas ou o Estado Islâmico. Esta decisão tem sido discutida na UE há anos, mas ainda não se chegou a um consenso.
No momento, a Suíça está ponderando as consequências políticas e diplomáticas desta caracterização. Para o ex-embaixador Tim Guldimann, esta questão deve ser avaliada independentemente do mandato de potência protetora.
Se a Suíça estiver convencida de que a categorização está correta, ela deve dar esse passo, disse Guldimann. “Se o mandato terminar como resultado disso, que assim seja. Manter suas convicções políticas também significa correr riscos”, disse ele.
Edição: Marc Leutenegger/fh
Adaptação: Clarissa Levy
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