Filme venezuelano retrata dor de retornar ao país natal em Cannes
Um sonho recorrente sobre uma casa abandonada. Daí surgiu “La muerte no tiene dueño”, um filme do venezuelano Jorge Thielen Armand sobre o vazio sentido pelos que retornam ao seu país natal, protagonizado pela atriz italiana Asia Argento.
A produção, apresentada na Quinzena dos Realizadores, conta a história de Caro, filha do dono de uma grande fazenda na Venezuela que retorna ao país após a morte do pai para vender a propriedade.
Radicada na Itália, esta mulher de semblante arisco e corpo tatuado descobre em que estado se encontra a mansão onde cresceu: em ruínas, devorada por uma vegetação exuberante e… habitada por vários dos funcionários do falecido proprietário.
Sobre a origem da história, Armand explica que, sempre que acordava daquele sonho recorrente sobre um prédio abandonado, pensava no que ficou para trás quando deixou seu país há duas décadas.
O filme é “como o pesadelo de voltar à Venezuela e descobrir que aquele velho eu está apodrecido e que já não há nada”, explica à AFP o cineasta, nascido em Caracas em 1990.
“É um filme para quem deixou algo para trás e volta e descobre que é estrangeiro em seu antigo refúgio e, portanto, será estrangeiro para sempre em qualquer lugar”, acrescenta.
Em uma cena, Caro, interpretada por Asia Argento, diz: “Este país me traz más lembranças”.
A estrela italiana ficou um mês inteiro na Venezuela antes de filmar o longa-metragem, ensaiando nos espaços, conhecendo alguns dos atores não profissionais, e onde aprendeu espanhol.
– “Decisão 100% visceral” –
“Vi fotos dela e algo em seus olhos me disse que era ela, foi uma decisão 100% visceral”, relembra o cineasta, citando que a protagonista foi uma colaboradora “fenomenal, muito instintiva”.
Para o diretor, o passado da intérprete – uma das pioneiras do movimento #MeToo após revelar que havia sido estuprada pelo produtor Harvey Weinstein – podia acrescentar muito à história.
“Fiquei muito interessado nela, no que ela representa, na vida dela, e estava convencido de que isso poderia acrescentar algo ao filme”, conta o venezuelano, que agora mora principalmente no Canadá.
As cenas violentas estão muito presentes na produção, desde a tensão em um encontro com policiais até várias sequências sangrentas.
“A violência no meu filme e na Venezuela pode ser algo onipresente, que está na forma de falar, nos gestos, nos medos, no corpo também”, adicionou.
Para “La muerte no tiene dueño”, no qual trabalhou por seis anos, Armand chegou a cogitar filmar na Colômbia, mas acabou optando por fazê-lo em seu país.
“Não há nenhum lugar no mundo como a Venezuela que tenha essas qualidades (…) tanto visuais quanto sonoras, essas contradições e esse aspecto surreal em que nada é certo”, explica.
O cineasta engata seu terceiro filme, após os trabalhos anteriores, “La soledad” (2016) e “La fortaleza” (2020), também situados na Venezuela e que retratam as crises que abalaram o país.
“Cada filme para mim é um retorno, uma forma de escavar a minha história pessoal, de ir para um lugar que para mim é como um vício, no sentido de que é algo que me dá prazer, mas que também sei que me contamina e me fere, mas eu preciso fazer isso”, afirma.
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