Festival de cinema em Genebra expõe crise do multilateralismo global
O Festival Internacional de Cinema e Direitos Humanos de Genebra (FIFDHLink externo) destacou, além de crises globais como a guerra em Gaza, os desafios enfrentados pela própria Genebra internacional.
Ao subir ao palco, em meio a aplausos e aclamações, após a exibição do documentário Disunited Nations, a relatora especial da ONU, Francesca Albanese, falou sobre sua raiva e frustração diante do fracasso da comunidade internacional nas tentativas de impedir a morte e a destruição generalizadas em Gaza.
No evento com lotação esgotada, o debate revelou detalhes dos bastidores do filme, que acompanhou Albanese durante dois anos, enquanto ela documentava violações do Direito Internacional na guerra em Gaza, sob intensa pressão política.
“O Direito Internacional não está morto, mas não se trata [de uma questão] de estar morto ou vivo”, afirmouLink externo a relatora à plateia, ao lado do diretor do filme, Christophe Cotteret, em uma das sessões mais esperadas do FIFDH Internacional deste ano em Genebra.
“Trata-se de um instrumento. Não adianta ser romântico e dizer que o Direito Internacional vai erguer sua espada, derrotar o mal no mundo e salvar a todos nós. Não, a verdade é que não somos capazes de exercer o poder que temos, mesmo em uma democracia”, declarou Albanese.
Um filme, um tema, um debate
O festival anual de cinema – lançado em 2003 como uma “plataforma contra a indiferença” e agendado para coincidir com a sessão principal do Conselho de Direitos Humanos da ONU em Genebra – reúne cineastas, organizações internacionais, ativistas dos direitos humanos, jornalistas, acadêmicos, filantropos e públicos de todas as esferas da sociedade.
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Declaração dos Direitos Humanos da ONU
Entre os dias 6 e 15 de março, as sessões dos 54 filmes de 40 países ficaram lotadas. E o público participou também de fóruns e eventos comunitários que incorporam o conceito do FIFDH: “um filme, um tema, um debate” como forma coletiva de defender os direitos humanos, conscientizar e inspirar o compromisso com os valores universais. “Os filmes nos levam a refletir sobre essas questões por meio de suas histórias. Temos também o formato de fórum, com painéis de discussão após as exibições, voltado para a compreensão dos desafios geopolíticos do multilateralismo”, declarou Laura Longobardi, codiretora editorial do FIFDH.
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Genebra recebe festival de cinema sobre direitos humanos
Para o público, essa foi uma oportunidade de compartilhar as vidas, as lutas e as esperanças de pessoas que precisam lidar com a situação precária dos direitos humanos e do Direito Internacional em vários lugares do mundo – desde as cicatrizes do colonialismo e o sofrimento dos deslocados até a violência alimentada por questões que envolvem os recursos naturais e os perigos que a tecnologia representa para a democracia e a saúde mental.
Com 29 filmes na competição oficial do festival deste ano, as três premiações principais abordaram experiências profundamente pessoais de exílio, preconceito e abuso de poder.
O filme A Fox Under a Pink Moon, de Soraya Akhlaghi e Mehrdad Oskouei, que levou o Grande Prêmio e o Prêmio do Júri Jovem, acompanha uma jovem artista afegã enquanto ela registra suas tentativas de fugir do Irã ao longo de um período de cinco anos, ao mesmo tempo em que cultiva sua paixão pelo desenho e pela escultura.
Já Letters from Wolf Street, de Arjun Talwar, vencedor da categoria documentário criativo, retrata a vida em Varsóvia, a cidade onde o diretor vive, e o racismo cotidiano enfrentado pelos migrantes na Polônia.
Na categoria ficção, Cotton Queen, de Suzannah Mirghani, levou o prêmio pelo retrato de uma jovem mulher, em uma região produtora de algodão do Sudão, que é arrastada para uma disputa de poder que perturba e transforma sua comunidade.
Genebra sob fogo cruzado
Este ano, com conflitos se alastrando em várias frentes, a geopolítica em transformação e as Nações Unidas sofrendo cortes drásticos, a 24ª edição do FIFDH refletiu também as incertezas que pairam sobre a “Genebra Internacional”. “Ficou bem evidente que havia o que discutir sobre o que vai acontecer com a ‘Genebra Internacional’, bem como sobre as preocupações com o que vai ocorrer na prática, à medida que esse sistema vem sendo atacado e privado de recursos”, pontuou Longobardi.
As implicações são graves para a cidade de Genebra em sua condição de centro de ajuda humanitária, desenvolvimento e diplomacia, com mais de 40 organizações internacionais e quase 500 ONGs.
Devido aos enormes cortes no financiamento por parte dos Estados Unidos, ao atraso no pagamento das contribuições por parte da China, da Rússia e de outros Estados-membros, e à redução dos gastos com ajuda externa por parte de muitos governos, as Nações Unidas e suas agências tiveram seus orçamentos reduzidos em 15% em 2026. Os efeitos da reestruturação e das demissões de funcionários já estão sendo sentidos.
“Numa época em que o multilateralismo atravessa uma crise profunda e as instituições internacionais veem seus recursos e sua legitimidade sendo questionados, o festival serve como um lembrete sobre as razões pelas quais a ‘Genebra Internacional’ continua sendo essencial”, afirmou Thierry Apothéloz, presidente do Conselho de Estado de Genebra, em uma mensagem oficialLink externo publicada no site do FIFDH. “Isso também levanta questões sobre o que Genebra precisa se tornar para continuar a defender, com credibilidade e coragem, os valores sobre os quais foi fundada”, acrescentou Apothéloz.
Genebra: retração seguida de recuperação
Após a exibição do filme Solidarity, de David Bernet, um painel de palestrantes deu continuidade ao debate em um fórumLink externo sobre o futuro da ‘Genebra Internacional’, com reflexões sobre como o multilateralismo precisa evoluir e sobre qual poderia ser a contribuição da Suíça para um novo modelo de governança global.
Uma das possibilidades apresentadas por Yves Daccord, presidente da Principles for Peace, uma fundação suíça dedicada à promoção da paz, foi um “cenário de retração seguido de recuperação”, no qual a ‘Genebra Internacional’ passaria por um período de redução temporária antes de se reorientar e se recuperar.
“O status quo não é uma opção”, afirmou Daccord ao público, acrescentando que Genebra precisa desempenhar um papel importante no “novo contrato social global”.
“Quai são os passos que precisamos dar para lutar pelos princípios básicos? Como defender o Direito Internacional? É possível que Genebra volte a ser, de repente, um centro interessante e importante”, acrescentou Daccord.
Heba Aly, diretora do Article 109 Coalition, um grupo de organizações da sociedade civil, que busca atualizar a Carta das Nações Unidas, afirmou que o mundo precisa de um sistema de governança mais inclusivo, eficiente e justo, sem descartar os conceitos das Nações Unidas que continuam relevantes.
“Se agirmos corretamente – e eu realmente penso que Genebra pode ser o berço de um novo sistema multilateral, da mesma forma que esteve no centro do multilateralismo 1.0 –, isso poderia ajudar a impulsionar o multilateralismo 2.0”, declarou Aly ao público.
“Vamos tentar reformá-la e renová-la para uma nova geração, mas mantendo ao mesmo tempo aquilo em que todos nós em Genebra acreditamos: um multilateralismo verdadeiramente universal”, completou a diretora do Article 109 Coalition.
>> Trailer de “Letters from Wolf Street”, que ganhou o prêmio de documentário mais criativo.
Valores unidos
Em entrevista à Swissinfo, concedida em um café em Genebra, Christophe Cotteret, diretor da Disunited Nations, afirmou que os conflitos não resolvidos em Gaza e em outros lugares chamam a atenção para a necessidade de renovarmos o respeito pelo Direito Internacional e de pressionarmos os governos a apoiar os valores das Nações Unidas.
“Essa é a questão que as pessoas mais colocam: ‘As Nações Unidas existem, mas isso é absolutamente inútil, porque não podem fazer nada’. Eu discordo disso. As Nações Unidas podem fazer muita coisa. O problema não está nas Nações Unidas. O problema está na falta de visão das nações”, afirmou Cotteret. “Diante do novo mundo, no qual temos que viver, precisamos pensar de maneira diferente”, completou.
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Como a Declaração Universal dos Direitos Humanos mudou o mundo
Com tantas incertezas que pesam sobre o multilateralismo e a “Genebra Internacional”, os organizadores do FIFDH continuam empenhados em investir em uma produção cinematográfica que defenda os direitos humanos e o Direito Internacional, incluindo os Impact Days – eventos profissionais do festival destinados a aglutinar ideias e promover novas colaborações.
“Nos últimos sete anos, temos desenvolvido uma iniciativa do setor dedicada à produção de impacto, na qual cineastas de todo o mundo se reúnem durante dois dias, refletem e cooperam no sentido de transformar os filmes em ferramentas de mudança social”, declarou Longobardi à Swissinfo.
“Vamos continuar buscando filmes e vozes capazes de expressar não apenas o mundo que nos cerca, mas também o mundo que gostaríamos de construir juntos, para que possamos seguir em uma direção mais esperançosa”, concluiu a codiretora do festival.
>> Trailer do filme “Cotton Queen”, ganhador do principal prêmio de ficção do festival FIFDH.
Edição: Eduardo Simantob e Virginie Mangin
Adaptação: Soraia Vilela
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