The Swiss voice in the world since 1935

Montagem em Genebra revisita obra criada em campo nazista

Nos termos de… e o Imperador Overall Michel de Souza
O cantor brasileiro Michel de Souza interpreta o Imperador numa cena da peça "In Virtue Of", encenada na sede da ONU, em Genebra. Comédie Geneve / Boshua

Uma nova montagem da ópera composta em um campo de concentração nazista foi apresentada em Genebra como reflexão sobre a crise do direito internacional. O espetáculo combina história e atualidade para discutir os riscos da erosão das instituições globais.

Os vastos salões do Palácio das Nações (sede da ONU), em Genebra, deixaram de ser este mês um espaço restrito a negociações excessivamente programadas, para se transformarem em palco, onde ecoam as notas de um barítono de ópera. Em uma época, na qual a própria arquitetura da governança global está sob pressão e a III Guerra Mundial não é improvável, uma ópera em díptico, parte dela criada em pleno Holocausto, reflete o colapso de uma ordem.

Dirigida e concebida pelo belga-luxemburguês Stéphane Ghislain Roussel, com música do compositor Eugene BirmanLink externo, nascido na Letônia, a produção de In Virtue Of e O imperador da AtlântidaLink externo apresenta essa reflexão tanto em um contexto contemporâneo quanto histórico. A primeira parte baseia-se na Convenção Europeia dos Direitos Humanos; a segunda foi composta por Viktor Ullmann no campo de concentração nazista de Theresienstadt.

Stéphane Ghislain Roussel
O realizador belga-luxemburguês Stéphane Ghislain Roussel toma a fábula de “L’empereur d’Atlantis” como ponto de partida para criar um ousado díptico operático – uma viagem através do tempo e do espaço. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Para o público de Genebra, o resultado é uma lembrança pungente do que está em jogo quando os sistemas projetados para proteger a humanidade se desintegram e a diplomacia fracassa. “Definitivamente, vejo esse espetáculo como um verdadeiro reflexo”, diz Roussel entre um ensaio e outro. “A política, neste momento, consiste em alterar a linguagem, em usá-la indevidamente. Estou realmente horrorizado com o que está acontecendo no momento”, completa.

Percorrendo círculos virtuosos

Ambientada nas Nações Unidas, com os espectadores sentados como se fossem delegados da ONU, a apresentação da ópera In Virtue Of traz o barítono brasileiro Michel de Souza interpretando um texto baseado no Tratado, que foi simplificado, reordenado e desestabilizado. Os músicos – vestidos como um grupo de juízes – o acompanham com uma partitura que oscila entre a ordem e a dissonância. A linguagem passa de uma ferramenta pela elaboração do consenso a um emaranhado de ressalvas, que corroem os direitos básicos.

Partitura
Partitura original, datada de “Theresienstadt 1943”. Paul Sacher Stiftung

“Quando isso tem início (a erosão dos direitos humanos básicos), começa a haver realmente uma distorção do mundo e da realidade”, afirma Roussel, apontando para paralelos com a crescente normalização de ideologias extremistas, que antes seriam impensáveis no espaço público dominante, e com a redefinição de termos como “racismo” para incluir o chamado “racismo contra brancos”. Roussel lembra ainda que “um neonazista pode fazer uma manifestação na rua e isso já não é mais realmente proibido. Era proibido há dez anos, agora é praticamente aceito”, acrescenta.

A sensibilidade de Roussel à linguagem e às suas implicações, no contexto do compartilhamento de ideias e valores, tem origem em sua formação. Criado em Luxemburgo, em um ambiente descrito por ele próprio como privilegiado e internacional, o diretor cresceu em um meio europeu moldado, em parte, pelo mundo profissional de seus pais, onde o intercâmbio entre países e a cultura institucional eram parte do dia a dia.

“Eu ouvia cerca de dez idiomas diferentes por dia, talvez 12”, lembra ele, referindo-se aos encontros no pátio da escola. “Nós compartilhávamos uma certa visão, sem sequer dar um nome a isso, ao que significa estar juntos, apesar dos idiomas diferentes”, recorda o diretor.

Ópera institucional

Formado inicialmente como músico e musicólogo, tendo o violino como seu instrumento, Roussel vê a música como uma forma de linguagem, embora não necessariamente universal. Mais tarde, ele passou a se dedicar à direção teatral, com uma forte consciência de como o som, o texto e o significado interagem.

Fundação Sacher
Heidy Zimmermann, curadora da Fundação Paul Sacher, em Basileia, com um dos manuscritos do compositor. Dominique Soguel / SWI swissinfo.ch

A primeira edição de In Virtue Of foi apresentada há quatro anos em Luxemburgo, entre outros locais na antiga sede do Parlamento Europeu. A obra surgiu em um momento marcado pela pandemia de Covid-19, quando uma sensação de vulnerabilidade global compartilhada reforçou, por um curto espaço de tempo, a ideia de responsabilidade coletiva, em meio a preocupações com o crescimento do autoritarismo.

Desde então, Roussel revisou a produção, mantendo-se fiel à sua ideia original de encená-la em ambientes institucionais. “O que há de especial aqui em Genebra é que a ONU não é apenas européia”, afirma. “Trata-se de uma visão realmente global, uma visão mundial de como a comunidade e os países podem estabelecer a comunicação e uma espécie de base comum de estabilidade política”, acrescenta.

Vinicius Marignac, gestor júnior de carteiras da Gama Asset Management, que viu a apresentação, desfrutou da rara oportunidade de assistir a uma ópera dentro da própria ONU. Ele diz ter gostado das escolhas da encenação que diluem fronteiras, como por exemplo a de posicionar personagens entre o público. “Sou fã disso”, diz ele, enquanto seguranças, tanto atores quanto profissionais, observavam o público deixando o recinto.

Voz marcante do Holocausto

Para Roussel, a estrutura em díptico é essencial, já que In Virtue Of pavimenta o caminho para O imperador da Atlântida: esta ópera, uma alegoria mal disfarçada do poder totalitário, nunca foi encenada enquanto Ullmann ainda vivia. Os ensaios foram interrompidos pelas autoridades nazistas antes de ele ser deportado para Auschwitz.

Viktor Ullmann, fotografia sem data.
Viktor Ullmann, fotografia sem data. Commons, Wikimedia

O peso histórico de O imperador da Atlântida é ampliado pela improvável sobrevivência de suas fontes originais. Como explica Heidy Zimmermann, curadora da Fundação Paul SacherLink externo, os manuscritos do compositor foram preservados por meio de uma série de transferências improváveis no pós-guerra. Eles acabaram na Suíça, graças às ligações de Ullmann com o Movimento Antroposófico – um movimento de filosofia espiritual, fundado por Rudolf Steiner, que ajudou a transportar os materiais de arquivo de Londres.

Zimmermann começou a trabalhar com esse material de arquivo em 2018. Ela intensificou sua pesquisa no ritmo dos acontecimentos globais, desde a pandemia de Covid-19 até a guerra na Ucrânia e, posteriormente, o conflito entre Israel e o Hamas. “De repente, tudo se tornou tão relevante”, diz a curadora sobre O imperador da Atlântida, concebida como uma ópera de um ato, com música de Ullmann e libreto de Peter Kien.

“Agora, a obra dialoga com o público [de óperas] e também com uma comunidade interessada [na encenação] por diferentes motivos, tanto musicológicos quanto históricos mais amplos”, acrescenta Zimmerman.

Nascido em Cieszyn, na época parte do Império Austro-Húngaro e hoje uma cidade polonesa na fronteira com a República Tcheca, Ullmann foi aluno de Arnold Schönberg e alcançou breve notoriedade nas décadas de 1920 e 1930. Em 1930, foi nomeado maestro em Zurique, onde aprofundou seu interesse pelas teorias antroposóficas do filósofo austríaco Rudolf Steiner.

Embora sua família tivesse se convertido do judaísmo ao cristianismo antes de ele nascer, Ullmann foi deportado para Theresienstadt em 1942 e depois para Auschwitz, onde foi morto em 1944. Muitas de suas composições se perderam durante a guerra, mas o manuscrito de O Imperador da Atlântida sobreviveu e hoje se encontra na Suíça.

Manuscrito dos horrores

Ao exibir fac-símiles das fontes, Zimmermann destaca as condições materiais nas quais a obra foi criada. Partes do libreto foram digitadas em formulários administrativos reutilizados. O papel era originalmente usado para registrar os prisioneiros que chegavam ao gueto, listando nomes, origens e, em alguns casos, datas de morte. A arte é literalmente escrita sobre o registro burocrático da perseguição.

“A consonância desta obra com os acontecimentos atuais é realmente impressionante”, diz Martial Debély, assistente social aposentado. “É importante conhecer o contexto para compreender o poder deste trabalho, desta composição. Esse é o poder da arte”, acrescenta.

A ópera em si é tanto uma sátira quanto uma história de sobrevivência. Seu libreto ridiculariza o poder autoritário ao mesmo tempo em que imagina um mundo, no qual a morte se recusa a cooperar com o extermínio em massa, daí seu título original: A desobediência da morte. “É uma sátira bastante direta à Alemanha nazista”, revela Zimmermann.

O humor fica evidente já na cena inicial. Quando a Morte pergunta a Arlequim que dia é hoje, ele responde que já não se dá conta, uma vez que não troca de camisa todos os dias. A Morte retruca, dizendo que ele deve estar “entulhado de roupa suja do ano passado”, em uma clara referência à vida no campo de concentração, onde os prisioneiros não podiam nem se lavar nem trocar de roupa.

“É a função clássica do humor judeu, da sagacidade judaica”, diz ela. “Como sobreviver a uma situação difícil? Você simplesmente faz piadas sobre ela”, diz Zimmermann.

A ópera, segundo ela, é importante em três níveis. Em primeiro lugar, como exemplo desse momento histórico de “criar arte em um campo nazista, o que isso significou, como foi possível”. Em segundo lugar, como uma obra musical e operística universal, que continua relevante até hoje, mesmo quando dissociada de sua origem. E, por fim, como uma “peça musical fascinante”, conclui a curadora.

Música que reflete uma época

A trilha sonora aborda uma variedade de estilos musicais. Os ouvintes são presenteados com árias operísticas wagnerianas intercaladas com passagens faladas, melodias que lembram o folk e citações musicais familiares ao público da época. Motivos de canções de ninar, como Schlaf, Kindlein, schlaf, contribuem para uma paisagem sonora que combina a alta cultura com a cultura popular. A ópera atinge seu ápice com um reconhecível coral da tradição cristã.

O brasileiro Michel de Souza interpreta também o imperador da Atlântida. Sua atuação funciona como um fio condutor, ligando em díptico as duas partes da ópera, que se desenrolam em palcos distintos. O público tem que se deslocar do Palácio das Nações para a Comédie de Genève – um percurso curto de transporte público. Deixando para trás a confusa linguagem institucional contemporânea, desprovida de seus ideais e significados originais, os espectadores mergulham na realidade histórica mais sombria da obra de Ullmann.

“O fato de você sair do teatro e ter que se deslocar para outro lugar já é, por si só, uma atividade física em si”, diz Roussel. “Quanto mais você leva as pessoas a sentir coisas, melhor consegue ajudá-las ou acompanhá-las para que sejam humanas, para que vivam plenamente”, formula o diretor.

Os temas universais da ópera e sua consonância com o momento atual não passaram despercebidos pelo público. “A paz é a melhor coisa”, diz Tidiane Souare, natural da Costa do Marfim, após assistir a ambas as apresentações. Ela vive há três anos em Genebra e faz um estágio como paisagista. “Em tempos de paz, todos nós crescemos, constituímos nossas famílias. Se há guerra, não conseguimos isso. E a migração será inevitável”, pontua.

Roussel rejeita a ideia de que a arte possa salvar o mundo. No entanto, ele afirma: “a arte faz parte do processo de restabelecimento de uma nova forma de convivência”.

Stéphane Ghislain com o assistente de realização
O realizador Stéphane Ghislain Roussel conversa com o seu a Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Edição: Eduardo Simantob e Virginie Mangin

Adaptação: Soraia Vilela

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR