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Rudi Berli, o agricultor suíço que virou parlamentar morando na França

Homem de meia idade.
A alimentação está no centro do compromisso de Rudi Berli: a fazenda comunitária onde ele trabalha entrega semanalmente cestas de legumes a 400 famílias de Genebra. Thomas Kern / SWI swissinfo.ch

Rudi Berli é o novo representante do Partido Verde (PV) no Parlamento suíço. Vivendo na França, esse agricultor e sindicalista suíço defende causas como agricultura local, direitos sociais transfronteiriços e o voto eletrônico para suíços do estrangeiro.

O primeiro aspecto incomum: Rudi Berli tem apenas seis semanas para mudar de vida. O horticultor de 61 anos soube em 19 de outubro, durante a eleição de Nicolas Walder, do Partido Verde (PV), para o governo de Genebra, que o sucederia no Conselho Nacional (Câmara dos Deputados). Ele assumiu o cargo em 1º de dezembro.

Começou a corrida contra o tempo: Berli precisa renunciar ao cargo de secretário sindical na organização de agricultores Uniterre, encontrar acomodação em Berna e reduzir sua carga horária na fazenda comunitária onde trabalha.

No entanto, não há qualquer possibilidade de abandonar definitivamente seus implementos agrícolas para assumir o cargo de conselheiro nacional. “Quero continuar a trabalhar, para manter o contacto com a terra e o equilíbrio entre o trabalho físico e o intelectual”, afirma Rudi Berli, sentado ao sol ao lado das estufas de vegetais que irão parar aos cestos entregues semanalmente a 400 famílias de Genebra.

Apenas um vinhedo adornado com as cores do outono separa a fazenda da fronteira francesa. Rudi Berli o atravessa todos os dias: ele mora na pequena comuna francesa de Pougny, a algumas centenas de metros do território suíço.

Essa situação singular faz dele o quarto cidadão suíço residente no exterior a ocupar uma cadeira no Parlamento Federal. O último representante da chamada “Quinta Suíça” no Parlamento Federal foi o ex-embaixador em Berlim, Tim Guldimann. Eleito em 2015, ele renunciou ao cargo após dois anos, alegando a dificuldade de cumprir seu mandato em Berna enquanto residia no exterior. Na década de 1990, Ruedi e Stephanie Baumann, um casal, mudaram-se para a França durante seu último mandato no Conselho Nacional.

No Parlamento francês, Rudi Berli pretende defender os interesses da diáspora, particularmente no que diz respeito ao voto eletrônico. “Isso resolveria o problema enfrentado por muitos expatriados que recebem seus materiais de votação depois que as eleições já aconteceram”, afirma.

Tensões precisam ser amenizadas

No entanto, ele se considera mais um trabalhador transfronteiriço. “Estou comprometido com a governança transfronteiriça, seja em Genebra, Basileia, Schaffhausen ou Ticino, e com o respeito aos direitos sociais das pessoas que vivem nessas regiões”, afirma.

Ironicamente, na delegação de Genebra ao Conselho Nacional (Câmara dos Deputados), Rudi Berli trabalhará ao lado de representantes eleitos do Movimento Cidadão de Genebra (MCG), um grupo conhecido por suas posições contrárias aos trabalhadores transfronteiriços.

Um deles, Daniel Sormani, diz estar pronto para trabalhar com o parlamentar recém-eleito. “Eu o critiquei no Facebook, mas vou cumprimentá-lo pessoalmente”, afirma. Segundo ele, Rudi Berli não é “um verdadeiro trabalhador transfronteiriço”, já que é suíço. “Acho curioso que alguém possa ser eleito para o Parlamento morando no exterior, mas é perfeitamente legal e democrático, então aceito.”

Por sua vez, Rudi Berli descreveu os comentários sobre seu local de residência como “desagradáveis”. “No entanto, tentarei demonstrar por meio das minhas ações que estou plenamente integrado à realidade nacional”, anunciou.

O político também destaca o problema da escassez de moradias e dos preços exorbitantes dos imóveis na região do Lago de Genebra. “Não queríamos sair da Suíça, mas nossa renda não nos permitia comprar uma casa em Genebra”, diz este pai de três filhos, com idades entre 6 e 20 anos. Ele pretende levar essa questão, que afeta muitas pessoas, ao Parlamento.

Um caminho atípico

Embora Rudi Berli nunca tenha atuado no parlamento, sua formação incomum deve ajudá-lo a defender suas causas na Assembleia Federal. Seu primeiro trunfo: o idioma. O alemão e seus dialetos suíços não são segredos para alguém que cresceu na zona rural de Zurique. “Isso deve me ajudar a fazer com que a voz de Genebra seja ouvida em Berna”, afirma.

Ele conhece bem o funcionamento da política, que começou a aprender na adolescência nos movimentos juvenis da década de 1980 em Zurique. Aos 18 anos, ele se mudou para Genebra para se formar no centro de horticultura Lullier. Apaixonado pela região, ele nunca mais saiu e continuou seu ativismo lá, principalmente por meio do sindicalismo.

Homem de meia idade
“Nos anos 80, em Zurique, descobri que os movimentos sociais eram uma forma de expressão coletiva que eu carregava dentro de mim”, explica Rudi Berli. Thomas Kern / Swi Swissinfo.ch

Mais de vinte anos de atividade no sindicato agrícola Uniterre permitiram-lhe familiarizar-se com o funcionamento interno do poder. “Conheço bem a arquitetura política e muitas pessoas em Berna”, enfatiza.

Rudi Berli também é um Verde atípico. Ele acredita que seu partido às vezes é “um pouco dogmático” em certas questões, por exemplo, sobre o consumo de carne. “Pessoalmente, eu como carne levando em consideração sua origem e as condições em que o animal foi criado, e acho que isso não é incompatível com um compromisso ambiental”, afirma.

Europa, sim… mas com cautela

Embora apoie a abordagem bilateral para a gestão das relações entre a Suíça e a União Europeia (UE), Rudi Berli se mostra cético em relação ao novo pacote de acordos negociado pela Confederação com Bruxelas. “Tenho um problema com essa abordagem de pacote”, explica. “Ela impede que o público compreenda o alcance desses tratados”, lamenta.

Ele está preocupado principalmente com as consequências dos acordos para a agricultura suíça e defende o fortalecimento da proteção interna. “A liberalização do mercado de queijos em 2007, por exemplo, foi prejudicial para a indústria de laticínios suíça. Quase metade das fazendas leiteiras desapareceram”, alerta.

Esse ceticismo não ofende seus colegas de partido. “Ele é um ótimo colega”, garante a deputada do PV, Delphine Klopfenstein Borggini. Embora os Verdes apoiem o pacote de acordos com Bruxelas, ela coloca a cautela do novo deputado em perspectiva. “Se ele recuar nessa questão, isso não enfraquecerá a posição clara do partido”, afirma. Ela também considera positiva a inclusão de um representante da agricultura no grupoLink externo dos Verdes no Conselho Nacional.

Agricultura como projeto social

Rudi Berli quer colocar a agricultura no centro de sua atuação política. Em 1985, quando ingressou nos Jardins de Cocagne, onde trabalha até hoje, a fazenda estava entre as pioneiras da agricultura orgânica. “Como jovem aprendiz, fiquei chocado ao ter que usar uma máscara de gás para manusear os vegetais que acabariam em nossos pratos”, conta.

Nozes, pão e queijo estão sobre a mesa na pequena cabana de madeira, que serve tanto de cozinha quanto de escritório para os funcionários da fazenda. A alimentação é uma parte importante do compromisso de Rudi Berli. “Precisamos construir um projeto compartilhado entre a comunidade e a agricultura: garantir alimentos de qualidade e permitir que os agricultores ganhem a vida com seu trabalho”, argumenta ele.

Um opositor ferrenho dos acordos de livre comércio, ele os chama de “pacotes ideológicos”. “Queremos alimentar primeiro as pessoas que vivem ao redor de nossas fazendas antes de abastecer os mercados internacionais. Caso contrário, a natureza e a sociedade pagarão o preço”, alerta.

Para impulsionar os índices de aprovação do seu partido, Rudi Berli acredita que o projeto verde deve permanecer primordialmente social. “Sem esse componente, jamais conseguiremos construir uma sociedade mais sustentável”, afirma.

Ele vai ter que fazer sacrifícios por conta de seu novo mandato? “Haverá períodos em que não verei minha família. Será uma grande mudança, também para meus filhos”, confidencia, olhando para as muitas fotos que adornam as paredes da cabine.

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Edição: Pauline Turuban

Adaptação: DvSperling

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