The Swiss voice in the world since 1935

Protesto indígena bloqueia a entrada da COP30 em Belém

afp_tickers

Dezenas de indígenas insatisfeitos com o tratamento recebido do governo federal bloquearam nesta sexta-feira (14) a entrada da COP30 em Belém, interferindo no andamento da conferência climática da ONU, antes de conseguirem se reunir com autoridades brasileiras.

O bloqueio, que durou cerca de duas horas, ocorreu em meio a questionamentos ao evento organizado pelo governo brasileiro e pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima na capital paraense.

Na noite de terça-feira, manifestantes indígenas invadiram as instalações da COP30 e enfrentaram as forças de segurança.

Já nesta sexta, cerca de 60 membros da etnia munduruku, vestidos em sua maioria com roupas e adornos tradicionais, posicionaram-se em frente ao acesso principal do complexo e em uma rua adjacente, alterando temporariamente a agenda de dezenas de milhares de delegados e observadores.

“Lutar por nossos territórios é lutar por nossas vidas”, dizia uma faixa carregada por um dos manifestantes, que denunciavam grandes projetos de infraestrutura na floresta amazônica e exigiam se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

“Vem, Lula, mostre a sua cara!”, declarou a líder indígena Alessandra Korap. “Queremos ser ouvidos, queremos sentar nas negociações também (…) A gente tem problema demais”, acrescentou.

A segurança do local foi reforçada com soldados usando capacetes, armas e escudos, além de policiais militares.

– Preocupações “muito legítimas” –

O protesto obrigou o presidente da COP30, André Corrêa do Lago, a cancelar sua participação em eventos e ir ao encontro dos manifestantes. Ele ouviu suas queixas e depois conduziu todo o grupo a um prédio próximo para um encontro com as ministras Sonia Guajajara, dos Povos Indígenas, e Marina Silva, do Meio Ambiente.

Isso permitiu a reabertura da COP, em meio a um grande efetivo das forças de segurança. Na saída, diante da imprensa, o diplomata reconheceu as “preocupações muito fortes e muito legítimas” dos manifestantes.

“Vamos procurar levar adiante todas as preocupações que eles têm”, acrescentou Corrêa do Lago.

Os indígenas munduruku reivindicam avanços na demarcação de suas terras. Também se opõem ao projeto de construção da Ferrogrão, uma ferrovia de quase 1.000 km que atravessará o país para escoar a produção de grãos.

Durante outra reunião de várias horas com outros grupos indígenas da Amazônia, o presidente da conferência negou qualquer “ameaça” sobre seus territórios.

“Podem estar certos de que este governo está defendendo vocês na COP30”, disse a eles.

Aliado declarado da causa indígena, Lula tem a seu favor a homologação de 16 territórios indígenas, uma forte queda do desmatamento e a nomeação de Guajajara, uma figura respeitada, à frente do primeiro Ministério dos Povos Indígenas.

Mas seus críticos lamentam a lentidão na demarcação das terras indígenas e o aval do governo à exploração petrolífera perto da foz do rio Amazonas.

Na quarta-feira, o cacique Raoni, influente liderança indígena, advertiu Lula sobre o assunto: “Vou marcar um encontro com ele, e se precisar, vou puxar a orelha dele pra ele me ouvir”.

Nos incidentes da noite de terça, dois policiais sofreram ferimentos leves, de acordo com a ONU.

Simon Stiell, principal responsável climático da ONU, enviou, segundo relatos da imprensa, uma dura carta às autoridades brasileiras denunciando as condições de segurança.

Embora tenha destacado que a segurança interna da Zona Azul, espaço diplomático do evento onde ocorreu o incidente, está sob responsabilidade da ONU, o governo brasileiro anunciou na quinta-feira que havia reforçado o dispositivo de segurança.

Em comunicado, a ONU afirmou que a “manifestação pacífica” desta sexta-feira não gerou “nenhum perigo”.

jmi/np/mlm/rsr/dga/ic/aa/am

Mais lidos

Os mais discutidos

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR