Restrições de acesso ao Starlink freiam a ação dos drones ucranianos
As restrições relatadas pela Ucrânia ao uso do sistema americano de internet via satélite Starlink evidenciam a dependência de Kiev dessa tecnologia para fins ofensivos e defensivos em sua luta contra a invasão russa, apontam analistas e observadores.
Um funcionário de alto escalão do governo ucraniano disse à AFP na quarta-feira (14), sob condição de anonimato, que as velocidades de transmissão de dados da Starlink foram reduzidas.
A mudança ocorre em um momento de tensão entre Kiev e Washington, quando o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, busca comprar diesel russo para reduzir os preços dos combustíveis e pressiona os dois lados do conflito a pararem de atacar infraestruturas energéticas.
A Starlink é controlada pela SpaceX, do bilionário aliado de Trump, Elon Musk, que também é proprietário da rede social X. Musk sugeriu na quarta-feira que qualquer interrupção relatada pela Ucrânia em seu sistema de comunicações por satélite é responsabilidade do governo dos Estados Unidos, e não de sua empresa.
O bilionário esclareceu a diferença entre o Starshield, usado pela Ucrânia para suas comunicações na linha de frente, e o Starlink, limitado a usos civis. Ambos os sistemas via satélite foram projetados pela SpaceX, a empresa de Musk.
“Os sistemas Starshield são propriedade e estão sob o controle do governo dos Estados Unidos. Qualquer limite de velocidade ou de uso é decidido pelas Forças Armadas dos EUA e, em última instância, pelo presidente” Donald Trump, disse Musk.
Trump reclamou dos ataques ucranianos contra instalações energéticas russas, o que gerou temores de represálias dos Estados Unidos contra Kiev, como deixar de compartilhar informações de inteligência ou reduzir a velocidade da Starlink.
– Sinal fraco para os drones –
O presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, afirmou que seu país enfrentou “algumas dificuldades (…) com a Starlink e com a inteligência” em meio aos ataques russos de quarta-feira.
Segundo várias fontes ucranianas, o funcionamento de alguns terminais Starlink, utilizados para comunicações no campo de batalha e na interceptação de drones, havia sido restringido durante a noite de terça para quarta-feira, sem aviso prévio.
“Contamos com a aliança com os Estados Unidos, só queremos ser muito honestos, muito claros, ser aliados firmes”, disse Zelensky.
As fontes ucranianas comentaram que a constelação de satélites de comunicação corta o sinal entre um satélite e uma antena se esta última se deslocar a mais de 160 quilômetros por hora.
Isso significa que os recursos militares móveis ucranianos, como seus drones, perdem a conexão se ultrapassarem essa velocidade.
– Impacto –
Em termos de capacidade ofensiva, o Starlink era “extremamente eficaz” em ataques contra radares, sistemas terra-ar ou a defesa de instalações, disse uma fonte europeia que pediu para não ser identificada.
No entanto, as restrições não deveriam afetar os ataques ucranianos de longo alcance, especialmente contra refinarias no interior do território russo, onde a rede Starlink não opera.
Mas “poderia ter um impacto significativo nos ataques de médio alcance” na península ucraniana da Crimeia, anexada pela Rússia em 2014, além de áreas do leste da Ucrânia ocupadas por Moscou ou no Mar Negro, comentou Yohann Michel, pesquisador do Instituto de Estudos Estratégicos e de Defesa, de Lyon.
Enquanto isso, a Ucrânia enfrenta uma escassez de sistemas de defesa antiaérea com a aproximação do inverno, quando é esperado um aumento nos ataques russos contra a infraestrutura energética do país.
Não foi confirmado que as restrições se devam às tensões entre Washington e Kiev, mas analistas consideram essa possibilidade.
“Nada pode ser descartado, desde a pressão dos Estados Unidos sobre a Ucrânia pelos ataques ao fornecimento de diesel até uma explicação mais mundana, como uma atualização de software”, observou Michel.
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