Tensão social aumenta na França com greve de funcionários e protesto estudantil
A França viveu, nesta terça-feira (29), um dia de protestos, com greve de servidores públicos e confrontos entre estudantes e policiais, a dois dias da apresentação do orçamento e a poucos meses de uma eleição presidencial na qual a extrema direita aparece como favorita.
Cerca de 200.000 manifestantes foram às ruas em todo o país, dos quais quase 30.000 em Paris, segundo o Ministério do Interior. Mais de 170 marchas foram convocadas para reivindicar reajustes dos salários dos servidores, corroídos pela inflação, e “recursos orçamentários à altura” das necessidades da administração pública.
Segundo a central sindical CGT, mais de 300.000 pessoas se manifestaram em todo o país, entre elas 70.000 em Paris.
“Mesmo com 40°C, nossos salários continuam congelados”, dizia um cartaz na marcha em Lyon, após um verão de calor intenso que pôs à prova os bombeiros e o sistema de saúde.
“Estamos nos manifestando hoje porque precisamos ser recebidos pelo ministro”, disse Nicolas March, bombeiro de 52 anos que chegou com seus colegas à Praça da Bastilha, em Paris, sob os aplausos dos demais manifestantes.
As reivindicações dos servidores incluem a perda do poder de compra, o número insuficiente de funcionários, a deterioração das condições de trabalho e, em alguns casos, a precariedade diante dos cortes orçamentários.
Com a dívida pública em níveis recordes, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu anunciou, em meados do mês, que planejava um ajuste fiscal de 54 bilhões de euros (R$ 319,5 bilhões), cerca de 62 bilhões de dólares (R$ 323,7 bilhões), no próximo orçamento.
Por volta do meio-dia, quase 10% dos servidores da administração estatal estavam em greve, segundo dados do governo. Entre os professores, 13,71% aderiram à paralisação.
Mathilde Bourgain, professora de física de 47 anos em uma escola de ensino médio de Paris, chegou à manifestação com um grupo de professores e pais de alunos, erguendo um cartaz que dizia “Fartos!”.
“Estamos fartos. Todos temos que enfrentar o fechamento de turmas e temos a impressão de que a rede pública é mais afetada do que a privada”, explicou à AFP.
Em sua escola, como em muitas outras do país, foram eliminadas turmas do primeiro ano do ensino médio, e há professores obrigados a trabalhar em vários estabelecimentos.
“Não recebemos formação e nos pedem que sejamos às vezes psicólogos, às vezes assistentes sociais, às vezes mães”, denunciou Nadia M’Dahoma, de 45 anos. Ela acompanha alunos com deficiência e diz receber cerca de 1.000 euros (R$ 5.916,60) por mês por 24 horas semanais de trabalho.
– Conflitos em mobilização estudantil –
Estudantes do ensino médio, que protestam desde a semana passada por melhores condições na educação, protagonizaram um dia de confrontos violentos. Grupos de adolescentes incendiaram contêineres de lixo e lançaram objetos contra a polícia, querespondeu com golpes de cassetetes e bombas de gás lacrimogêneo.
Os conflitos levaram à detenção de 440 pessoas, informou o Ministério do Interior. Também houve feridos, entre eles dez funcionários e vários alunos.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou a abertura de ações judiciais pelos atos de violência.
“Essa violência é indescritível (…) Legitimá-la ou pedir, neste contexto, que os bloqueios sejam ampliados é colocar em perigo tanto nossos alunos quanto os servidores públicos”, escreveu na rede X.
Os estudantes mantinham bloqueios e protestos em centenas de escolas de ensino médio pelo país. Suas queixas abrangiam a organização dos horários, o tamanho das turmas, a falta de professores e as salas de aula superaquecidas durante as recentes ondas de calor.
– Alta tensão social –
Desde 2017, o índice usado para calcular os salários dos servidores só subiu duas vezes: em 2022 (3,5%) e em 2023 (1,5%), um reajuste total ligeiramente superior a 5%.
Enquanto isso, a inflação acumulada desde 2017 deverá chegar a 24,17% no fim de 2026, segundo o instituto oficial de estatísticas Insee.
O congelamento do índice representa “uma redução salarial para milhões de servidores”, declarou a líder da CGT, Sophie Binet, nesta terça-feira à BFMTV/RMC.
O clima social está tenso a meses da eleição presidencial. A segunda maior economia da União Europeia irá às urnas em abril e maio de 2027, após quase dez anos de governo do presidente de centro-direita Emmanuel Macron.
A candidata de extrema direita Marine Le Pen lidera as pesquisas mais recentes de intenção de voto. Seu principal adversário em um eventual segundo turno é o ex-primeiro-ministro de centro-direita Édouard Philippe, mas apenas se o centrista Gabriel Attal deixar a disputa.
Caso contrário, Le Pen disputaria o segundo turno com o líder da esquerda radical Jean-Luc Mélenchon, segundo as pesquisas.
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