Comboio humanitário da ONU chega à cidade curda de Kobane, na Síria
Um comboio humanitário da ONU chegou, neste domingo (25), a Kobane, cidade síria predominantemente curda e repleta de pessoas deslocadas pelos recentes combates, disse um porta-voz à AFP.
Essa ajuda chega depois que o governo sírio e as forças curdas estenderam o acordo de cessar-fogo por 15 dias no sábado, após a trégua declarada esta semana, depois que a minoria curda concordou em ceder o controle de grandes extensões de território às tropas do governo.
Na noite deste domingo, as duas partes acusaram uma à outra de violações da trégua acordada.
O exército afirmou ter sido alvo de ataques com drones na região de Kobane, e as Forças Democráticas Sírias (FDS) denunciaram bombardeios que teriam provocado a morte de uma criança na zona oeste da cidade.
Mais cedo, o exército sírio havia anunciado a abertura de um corredor humanitário para Kobane, cidade na fronteira com a Turquia, também conhecida como Ain al-Arab em árabe, que simboliza a vitória dos combatentes curdos contra o grupo jihadista Estado Islâmico (EI).
No início desta semana, moradores de Kobane disseram à AFP que não tinham comida, água e eletricidade, e que o enclave estava abarrotado de pessoas que fugiam do avanço do exército sírio.
Celine Schmitt, porta-voz da agência da ACNUR para refugiados na Síria, disse à AFP que “o comboio chegou”.
A ONU afirmou que o envio foi coordenado com o governo sírio, liderado por Ahmed al-Sharaa, que tenta consolidar seu poder em todo o país após a deposição de Bashar al-Assad no final de 2024.
Al-Sharaa, um líder islamista, chegou ao poder após liderar uma coalizão de insurgentes que forçou Assad a fugir depois de mais de 13 anos de guerra civil.
– “Ajuda vital” –
Gonzalo Vargas Llosa, representante do ACNUR na Síria, afirmou no X que “graças à cooperação com o governo sírio, um comboio de 24 caminhões carregados com suprimentos básicos de alimentos, itens essenciais e diesel” partiu para Kobane “para entregar ajuda vital de inverno aos civis afetados pelas hostilidades”.
O exército sírio anunciou em um comunicado neste domingo que está abrindo dois corredores, um em direção a Kobane e outro na província de Hasakah, para permitir “a entrada de ajuda”.
As FDS, lideradas pelos curdos, perderam grandes extensões de território para as forças governamentais durante semanas de combates e agora estão restritas a áreas de maioria curda no nordeste e a Kobane, no norte.
A cidade é cercada pela fronteira turca ao norte e por forças governamentais em todos os lados. Ela está localizada a cerca de 200 quilômetros do reduto curdo no nordeste da Síria.
Kobane, que as forças curdas libertaram de um longo cerco imposto pelo Estado Islâmico (EI) em 2015, tornou-se um símbolo da sua primeira grande vitória contra esses islamistas radicais que conseguiram controlar grandes extensões do território sírio durante a guerra civil.
No sábado, o governo sírio e as forças curdas estenderam o cessar-fogo com Damasco, afirmando que seu objetivo era apoiar a transferência de prisioneiros do EI da Síria para o Iraque, liderada pelos EUA, um processo que começou esta semana.
As forças armadas dos EUA já anunciaram sua intenção de transferir até 7.000 detidos suspeitos de pertencerem ao Estado Islâmico para o Iraque.
As autoridades em Damasco exigem a dissolução das FDS, enquanto os Estados Unidos sustentam que sua missão inicial — combater os jihadistas do EI — não é mais relevante.
A trégua entre Damasco e as FDS faz parte de um acordo mais amplo que visa integrar as instituições civis e militares curdas ao Estado sírio central.
O acordo, para o qual os curdos devem apresentar um plano de implementação, representa um golpe drástico nas esperanças de autonomia dessa minoria, que havia estabelecido uma zona autônoma no norte e nordeste do território sírio.
O partido pró-curdo da Turquia DEM declarou no sábado que a situação em Kobane se transformou de uma crise em uma “catástrofe mortal”, declaração emitida após o envio de uma delegação do partido à cidade.
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