The Swiss voice in the world since 1935

Como cortes no financiamento abalaram a OMS

Criança em cadeira de rodas
Criança em cadeira de rodas do lado de fora, com placas da Organização Mundial da Saúde ao fundo. Saeed M. M. T. Jaras / AFP

A Organização Mundial da Saúde (OMS) enfrenta uma de suas maiores crises financeiras após cortes de recursos liderados pelos Estados Unidos. A redução no orçamento já afeta programas de combate à tuberculose, enquanto a entidade prevê demitir mais de 20% de seus funcionários até 2026.

Na Assembleia Mundial da Saúde (o órgão supremo de tomada de decisões da OMS, que se reúne anualmente), os Estados-membros precisam decidir quanto dinheiro e autoridade darão à OMS enquanto ela responde a crises sanitárias e humanitárias sob grandes restrições financeiras.

“De conflitos a crises econômicas, passando pelas mudanças climáticas e cortes de ajuda, vivemos tempos difíceis, perigosos e divisivos”, disse o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom Ghebreyesus, aos delegados na segunda-feira, observando que a própria agência “passou por um período difícil como resultado de cortes repentinos e acentuados no nosso financiamento”.

Mostrar mais

O mundo está fora do caminho para cumprir as Metas de Desenvolvimento Sustentável (ODS) relacionadas à saúde até 2030. A OMS estima que 4,6 bilhões de pessoas ainda carecem de acesso a serviços essenciais de saúde, enquanto 2,1 bilhões enfrentam dificuldades financeiras devido aos custos médicos. Projeta-se que o mundo enfrentará uma escassez de 11 milhões de profissionais de saúde até 2030.

O financiamento global para a saúde está sob crescente pressão desde a pandemia de Covid-19, à medida que os governos doadores mudaram suas prioridades de gastos e reduziram os orçamentos de ajuda internacional. O aperto se intensificou em 2025, depois que os Estados Unidos – historicamente o maior doador da OMS – decidiram se retirar da agência e congelaram grande parte de seus gastos com ajuda externa. Os EUA ainda não pagaram seus valores atrasados à OMS.

A decisão dos EUA criou uma lacuna financeira imediata de cerca de 600 milhões de dólares até o final de 2025 e expôs uma vulnerabilidade estrutural mais profunda, já que Washington representava quase um quinto do orçamento da agência. A OMS foi forçada a reduzir seu orçamento planejado para o biênio 2026-2027 em cerca de 20%, embora autoridades afirmem que reformas financeiras mais amplas ajudaram a amortecer o impacto.

No entanto, os cortes dos EUA no financiamento da saúde global, que foram acompanhados por grandes doadores europeus, forçaram a OMS a cortar empregos e a aplicar uma “hiperpriorização” em seus programas, interrompendo esforços de resposta a emergências e serviços que vão desde o tratamento da tuberculose até os cuidados maternos. Estes cinco gráficos mostram o impacto dos cortes e como eles afetam a saúde global e o financiamento:

1. O “buraco” no financiamento

Os EUA eram o maior doador da OMS. O país respondia por pouco mais de um terço do financiamento de emergências de saúde da OMS (34% no período 2024-25), financiava cerca de metade dos programas de tuberculose e fornecia 75% do financiamento para programas de HIV e infecções sexualmente transmissíveis. Outros governos também reduziram seu apoio.

A OMS projetou inicialmente um “buraco” no financiamento de 1,79 bilhão de dólares para o seu orçamento de 2026-2027. O deficit (saldo negativo entre receitas e despesas) foi reduzido desde então para 1,05 bilhão de dólares, após uma redução significativa na força de trabalho global da organização.

Conteúdo externo

2. Enquanto doadores tradicionais reduzem ajuda, filantropia ganha influência

O apoio reduzido de grandes doadores, incluindo a Alemanha e o Reino Unido, aprofundou a pressão financeira sobre a OMS e sobre os principais programas de combate a doenças.

  • O Reino UnidoLink externo reduziu sua promessa de contribuição ao Fundo Global de Combate à Aids, Tuberculose e Malária em 15%, fixando-a em 850 milhões de libras esterlinas para o período de 2026-2028. O país também encerrou o financiamento direto para a Iniciativa de Erradicação da Pólio, decidindo, em vez disso, canalizar o apoio por meio da OMS e da GAVI, a Aliança da Vacina (uma parceria global de saúde voltada para aumentar o acesso à imunização).
  • O orçamento da Alemanha para 2025Link externo cortou a assistência humanitária em 1,3 bilhão de euros, uma redução de 47% em comparação com os níveis de 2024. O país também cortou as contribuições para a Iniciativa Global de Erradicação da Pólio em 19%.
  • Em resposta à retirada dos EUA, a China comprometeu-se a doar 500 milhões de dólares adicionais entre 2025 e 2030 para ajudar a OMS a compensar suas dificuldades financeiras.
  • A Suíça, que sedia a OMS, prometeu 80 milhões de dólares adicionais (67 milhões de francos) para o período de 2025-2028.

“Projetamos que, para o atual biênio (período de dois anos), 90% do orçamento base esteja financiado”, disse o diretor-geral da OMS aos delegados na segunda-feira. “No entanto, reconhecemos que, no ambiente atual, os 10% restantes não serão fáceis de mobilizar.”

Mostrar mais

Mostrar mais

OMS alerta para ‘época perigosa’ em meio a crises do ebola e do hantavírus

Este conteúdo foi publicado em O hantavírus e o ebola são apenas as crises mais recentes até o momento de uma época “perigosa”, alertou, nesta segunda-feira (18), o chefe da Organização Mundial da Saúde na abertura da assembleia-geral da OMS, em Genebra.

ler mais OMS alerta para ‘época perigosa’ em meio a crises do ebola e do hantavírus

A OMS não depende apenas de países para o seu financiamento. Um estudoLink externo de 2025 da revista científica BMJ Global Health descobriu que a Fundação Bill e Melinda Gates contribuiu com cerca de 5,5 bilhões de dólares para a OMS entre 2000 e 2024, representando quase 10% da receita total da entidade e tornando-se o segundo maior doador, atrás apenas dos Estados Unidos. Os cortes de financiamento dos EUA tornam a fundação o maior financiador individual da OMS.

Conteúdo externo

3. Lacuna entre necessidades e financiamento 

A OMS gastou mais do que recebeu em cada ano, à medida que o financiamento diminuiu nos últimos três anos. Seus balanços financeiros de 2025 mostram que a agência evitou uma grande crise orçamentária por meio de profundos cortes de gastos e ao depender de fortes receitas de investimentos após o congelamento dos fundos dos EUA. Em 2025, a execução de programas – a implementação de programas e serviços de saúde financiados pelo orçamento da OMS – totalizou 3,429 bilhões de dólares, uma diminuição de 334 milhões de dólares em comparação com 2024.

Conteúdo externo

4. Impactos dos cortes na saúde

Representantes dos governos na área de saúde dizem que os cortes estão forçando a OMS e seus parceiros a racionar a ajuda e a reduzir as operações de emergência em saúde em todo o mundo. Em 2025, as reduções de financiamento afetaram 5.687 instalações de saúde em 20 países e territórios afetados por crises, de acordo com a agência de saúde global.

A OMS, que trabalha com mais de 1.500 parceiros em todo o planeta, destaca os seguintes exemplos de como os cortes de financiamento impactam a saúde:

  • Acesso à saúde: Cerca de 2.038 instalações de saúde suspenderam suas operações em 2025, reduzindo o acesso a cuidados médicos para 53,3 milhões de pessoas. Isso representa 65% das 81,4 milhões de pessoas originalmente visadas para receber assistência médica humanitária em 2025.  
  • Saúde da mulher: Os cortes nos programas apoiados pelo UNFPA (Fundo de População das Nações Unidas, a agência de saúde sexual e reprodutiva da ONU) deixaram mais de 2,2 milhões de mulheres sem serviços de saúde essenciais no Afeganistão, Sudão e Iêmen. As perdas de financiamento forçaram o cancelamento de 100 mil kits pós-estupro (conjuntos de medicamentos e insumos médicos de emergência para vítimas de violência sexual) destinados ao leste da República Democrática do Congo. Sessenta por cento das organizações de mulheres em todo o mundo reduziram suas operações. 
  • Tuberculose: A OMS alerta que os cortes de longo prazoLink externo no financiamento de doadores internacionais podem resultar em até 2 milhões de mortes adicionais e fazer com que 10 milhões de pessoas adoeçam com tuberculose entre 2025 e 2030.
  • Saúde mental: Cerca de 750 mil pessoas perderam o acesso a serviços de saúde mental em 32 países em 2025.
  • Nutrição infantil: A OMS relata que o declínio da ajuda ao desenvolvimento e o enfraquecimento do monitoramento nutricional estão limitando a capacidade dos países de rastrear e responder à nutrição infantil. Um relatório de 2025 do Global Nutrition Cluster (um mecanismo de coordenação humanitária focado em nutrição) descobriu que o número de crianças com desnutrição crônica (atraso no crescimento) ainda está aumentando na África. A desnutrição crônica é causada pela subnutrição prolongada e por doenças repetidas na primeira infância.
Conteúdo externo

5. Menos empregados

A Organização Mundial da Saúde projeta que sua força de trabalho encolheráLink externo de 9.401 funcionários em janeiro de 2025 para 7.360 até junho de 2026, uma redução de 22%. Em uma atualização de recursos humanos de janeiro de 2026, a OMS informou que enfrentou a extinção de 1.282 postos de trabalho, apesar dos esforços para limitar os cortes por meio de saídas naturais e aposentadorias antecipadas voluntárias. As reduções mais acentuadas estão projetadas para a sede em Genebra e para os Serviços Globais Compartilhados (a unidade administrativa central da organização), onde o número de funcionários deve cair 28%, enquanto as regiões africana e europeia devem encolher 25% e 24%, respectivamente.

Conteúdo externo

Edição: Virginie Mangin

Adaptação: Alexander Thoele, com ajuda do Deepl

Mostrar mais
Presidente Trump na Casa Branca

Mostrar mais

Genebra internacional

Saída dos EUA da OMS ameaça a segurança sanitária mundial

Este conteúdo foi publicado em Os EUA deixam a OMS, criando um buraco no orçamento da organização e ameaçando a saúde global. A decisão de Trump pode levar ao ressurgimento de doenças e enfraquecer a resposta a pandemias.

ler mais Saída dos EUA da OMS ameaça a segurança sanitária mundial

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR