Cuba abre economia a emigrados e permite investimentos de residentes nos EUA
A diáspora cubana poderá investir e dirigir empresas na ilha, anunciou Havana nesta segunda-feira (16), enquanto avançava em conversas com os Estados Unidos, onde Donald Trump disse que espera “ter a honra de tomar Cuba”.
“Realmente acredito que terei a honra de tomar Cuba de alguma maneira”, disse o presidente americano, na Casa Branca. “Quero dizer, libertá-la ou tomá-la. Acho que posso fazer o que quiser.”
O governo Trump pressiona para que o presidente Miguel Díaz-Canel deixe o poder, publicou hoje o jornal The New York Times, que citou quatro fontes.
Pouco antes, Havana havia anunciado que os emigrantes cubanos vão poder investir e ter suas próprias empresas na ilha comunista.
“Cuba está aberta a manter uma relação comercial fluida com empresas americanas” e “também com cubanos residentes nos Estados Unidos e seus descendentes”, afirmou o ministro cubano do Comércio Exterior e Investimento Estrangeiro, Oscar Pérez-Oliva, em entrevista à rede de TV americana NBC exibida nesta segunda-feira.
O anúncio foi feito em meio à crise energética que paralisa grande parte da economia cubana. Sob embargo dos Estados Unidos desde 1962, o país sofreu um agravamento da escassez de combustível após Washington cortar os envios de petróleo da Venezuela, seu principal fornecedor, e ameaçar sancionar países que vendam combustível à ilha.
A ilha, de 9,6 milhões de habitantes, sofreu hoje um apagão geral, o sexto desta magnitude em quase um ano e meio. “O bloqueio nos priva do acesso ao financiamento, à tecnologia e aos mercados e, nos últimos anos, teve como objetivo específico privar nosso país do acesso ao combustível”, acrescentou o ministro.
Em entrevista à TV cubana, Pérez-Oliva explicou que os emigrantes “poderão se associar a uma entidade pública ou privada já existente” na ilha ou criar sua própria empresa, e que “não há nenhuma limitação” para isso. Entre outros setores, ele mencionou os bancos de investimento, a agricultura com a entrega de terra em usufruto e a produção de energia e alimentos.
Pérez-Oliva ressaltou que o embargo americano “é o principal obstáculo ao desenvolvimento de todas as transformações” que Cuba “implementa no âmbito econômico”.
A crise energética atinge setores vitais da economia, como o turismo, a extração de níquel e o tabaco, e obrigou o governo a adotar um plano de contingência, que inclui um racionamento de gasolina que afeta gravemente todos os setores.
– ‘Infraestrutura’ –
“Foram abertos todos os canais permitidos pela legislação cubana para que os cubanos residentes possam se inserir plenamente no desenvolvimento econômico e social do nosso país”, acrescentou o ministro. Ele destacou que a abertura não se aplicará apenas a “pequenos empreendimentos”, mas também a “grandes investimentos, principalmente em infraestrutura”.
A abertura “sugere que a medida busca preparar negociações com os Estados Unidos sobre investimentos americanos em Cuba, mais do que promover a participação econômica de emigrantes”, publicou no X o economista Pedro Monreal.
Na cidade americana de Miami, principal reduto do anticastrismo, emigrantes cubanos discordaram do anúncio. “Queremos investir lá, mas quando houver uma mudança econômica e política”, disse à AFP Ramón Fernández, 60.
Embora até recentemente cerca de 80% da economia cubana estivesse baseada em um sistema de produção estatal centralizado, a crise levou o governo a abrir espaço para o setor privado.
Em 2021, a atividade de pequenas e médias empresas privadas voltou a ser permitida. No fim de 2025, cerca de 10 mil empresas privadas representavam 15% do PIB e empregavam mais de 30% da população economicamente ativa.
No começo deste mês, o governo cubano autorizou pela primeira vez em quase 60 anos a associação entre empresas públicas e privadas. Até então, as únicas empresas mistas eram formadas entre o Estado cubano e companhias estrangeiras não americanas.
O embargo impede os empresários americanos de fazer negócios em Cuba. “Hoje, a legislação americana não permite, mas as portas de Cuba estão abertas”, ressaltou Pérez-Oliva.
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