Riqueza suíça ajuda a manter modelo familiar conservador
A política familiar suíça segue menos desenvolvida que a de muitos países europeus, resultado de uma combinação de federalismo, normas sociais conservadoras e uma esquerda menos forte, segundo Silja Häusermann.
17% da população da Suíça são crianças e adolescentes. Trata-se de um grupo significativo, não apenas porque em breve este contribuirá para o sistema previdenciário e, assim, garantirá os benefícios das gerações mais velhas. O futuro econômico e o atendimento à população – por exemplo, no que diz respeito aos serviços de saúde – também dependem, em grande parte, dos jovens.
Diante desse cenário, pode parecer surpreendente que a Suíça tenha dificuldades em promover as famílias. Embora existam organizações especializadas – como a Pro Juventute ou a Pro Familia – que representam os interesses das crianças e dos jovens, a renomada cientista política Silja Häusermann, da Universidade de Zurique, observa que “é evidente que o lobby (da família) é muito mais fraco do que o de outros grupos sociais, como por exemplo o da agricultura.”
Häusermann vê a principal razão disso no fato de que as demandas de crianças, adolescentes e famílias são difusas e amplamente dispersas. “As necessidades imediatas de crianças e adolescentes podem ser identificadas cientificamente, mas sobre quais são as condições ideais para as famílias atenderem a essas necessidades, pode-se discutir.”
Essa discussão está em andamento. Em nível federal, forças conservadoras e progressistas entram em conflito – e frequentemente acabam bloqueando umas às outras.
O que diferencia a Suíça de muitos países da União Europeia
Embora esses conflitos de valores também existam no exterior, em comparação com o contexto europeu, a política familiar na Suíça é pouco desenvolvida. Häusermann aponta três causas para isso.
Primeiramente, a chamada “esquerda intervencionista do Estado” é claramente mais fraca na Suíça do que na maioria dos países europeus. Assim, o Partido Socialista (SP) e o Partido Verde (PV) nunca ultrapassaram 30% dos assentos no Parlamento Federal, enquanto partidos de esquerda em países escandinavos, por exemplo, historicamente alcançaram quase sempre mais de 40% dos votos.
Em segundo lugar, a Suíça é fortemente marcada pelo federalismo, o que dificulta reformas. “Países com sistemas federalistas geralmente têm menos benefícios de política familiar, porque existe uma transferência de responsabilidades e custos, e os desafios são percebidos sempre apenas localmente”, afirma Häusermann.
O resultado são grandes diferenças regionais. “Na Suíça existem cidades com uma política familiar quase escandinava e outras com uma política familiar praticamente italiana.” Essa fragmentação é desejada: “É justamente o objetivo do federalismo permitir que diferentes comunidades possam viver diferentes concepções de valores.”
Como terceiro motivo, Häusermann menciona as normas e valores sociais comparativamente conservadores da Suíça. “As três dimensões se reforçam mutuamente, resultando em uma política familiar muito mais cautelosa.”
Prosperidade suíça dificulta reformas
A diferença em relação aos países europeus vizinhos, porém, não inclui todas as áreas. No que diz respeito às deduções fiscais e aos abonos familiares, a Suíça está “bastante na média”, afirma Häusermann.
A diferença é grande, entretanto, no cuidado infantil. As vagas em creches são caras e, dependendo da renda e do local de residência, precisam ser pagas integralmente ou em grande parte pelas próprias famílias. Além disso, especialmente em pequenos municípios, existem poucas – ou até mesmo nenhuma – vagas em creches.
A escassez de vagas em creches explica apenas parcialmente por que, em muitas famílias suíças, um ou ambos os pais trabalham em regime de tempo parcial. Também desempenha um papel importante o fato de que a jornada de trabalho para um emprego em tempo integral na Suíça é mais longa do que na maioria dos países europeus.
E algo que frequentemente é esquecido: “Na Suíça, muitas famílias conseguem viver com 1,5 renda, enquanto isso não acontece em muitos países europeus”, diz Häusermann. “Muitas famílias podem se dar ao luxo de manter um modelo conservador.” Na maioria dos casos, ainda são as mães que reduzem sua carga horária de trabalho.
Queda da natalidade: qual país ainda pode servir de exemplo?
No entanto, cada vez menos famílias decidem ter filhos. Atualmente, a Suíça está entre os países ocidentais com o menor número de nascimentos. Recentemente, a taxa de fecundidade caiu para 1,29Link externo – o menor valor já registrado na história.
Com isso, a Suíça permanece claramente atrás da França e dos países escandinavos, que durante muito tempo tiveram as maiores taxas de reprodução da Europa. Na França, isso estava relacionado a uma política pronatalista, que oferecia incentivos específicos para famílias de todas as classes de renda. Nos países escandinavos, a política familiar foi um subproduto da igualdade de gênero.
Enquanto isso, a Bulgária possui atualmente a maior taxa de fecundidade da Europa, o que é atribuído principalmente à menor idade média das mães no momento do nascimento do primeiro filho – um dos fatores de maior influência. Além disso, existem efeitos estatísticos distorcidos devido à contínua e intensa emigração.
A Bulgária também investe muito no incentivo à natalidade: desde a licença-maternidade remunerada até o subsídio estatal para fertilizações artificiais.
Rígido mercado de trabalho
O que a Suíça pode aprender com esses desenvolvimentos? As taxas de natalidade poderiam se beneficiar de medidas semelhantes às adotadas pelos países da União Europeia?
Häusermann afirma que a política familiar é apenas um dos três fatores de influência. O segundo é o mercado de trabalho, e o terceiro são as normas sociais. “Enquanto houver conflitos entre esses três fatores, pouco adianta mexer apenas em uma engrenagem.”
Isso pode ser observado no Japão e na Coreia do Sul. Os governos desses países estão alarmados diante das baixas taxas de natalidade e estão ampliando suas políticas familiares. “Mas ambos são sociedades nas quais nem o mercado de trabalho nem as normas foram reformados”, afirma Häusermann.
Também na Suíça ela identifica problemas relacionados à conciliação entre trabalho e família: “A Suíça está muito distante de uma situação em que todos trabalhem em tempo integral. Temos uma jornada semanal muito mais longa do que outros países. Todos fazem uma hora de pausa para o almoço e vão para casa às 18 horas. Isso é diferente nos países onde ambos trabalham 100%.”
Consequentemente, os papéis de gênero na Suíça também não se transformaram fundamentalmente. Mesmo mulheres com formação superior lidam com a incompatibilidade entre carreira e família reduzindo sua carga de trabalho e assumindo uma constante dupla jornada. “Uma vida tipicamente feminina hoje é muito diferente daquela de quarenta anos atrás; uma vida tipicamente masculina, não”, afirma Häusermann. “Talvez esteja aí a chave”, acrescenta.
Medidas políticas, como a licença-paternidade obrigatória de duas semanas aprovada há seis anos, teriam menos efeito por si mesmas do que pelo fato de questionarem a autopercepção e as normas sociais. “Reformas legislativas normalizam projetos de vida. A licença-paternidade significa que é normal e esperado que um homem fique em casa quando tem um filho”, afirma Häusermann.
Imigração bloqueia o debate
Ela não acredita que a Suíça em breve promoverá um amplo debate sobre a política familiar e o incentivo a ter mais crianças. Para isso, falta na discussão sobre política familiar o aspecto pronatalista, ou seja, a compreensão de que a política familiar pode ser uma alavanca para aumentar a taxa de natalidade.
A esquerda pensa principalmente em termos de igualdade de gênero; os círculos economicamente liberais e conservadores querem preservar o modelo de divisão de papéis e o mercado de trabalho. Na Suíça, com sua elevada imigração líquida, não existe a percepção de que a população esteja diminuindo e de que isso seja um problema, constata Häusermann. “O objetivo de ‘ter mais crianças’ não é percebido.”
Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos
Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch
Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!
Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.