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Estados Unidos se retiram mais uma vez da Unesco

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O governo dos Estados Unidos anunciou sua saída da Unesco nesta terça-feira (22), alegando que a agência cultural e educacional da ONU é tendenciosa contra Israel e promove causas “divisivas”, uma decisão sobre a qual a organização lamentou.

Esta é a segunda vez que o presidente republicano Donald Trump decide pela saída da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco, sigla em inglês) após 2018. Seu sucessor Joe Biden (2021-2025) restabeleceu a adesão dos Estados Unidos posteriormente.

A diretora-geral da Unesco, a francesa Audrey Azoulay, disse que lamentava “profundamente” essa decisão, que será efetiva no final de 2026.

No entanto, “a Unesco se preparou para isso”, disse, observando que “está mais bem protegida financeiramente” do que outras agências da ONU, e que a contribuição americana de US$ 75 milhões (R$ 417 milhões) anuais representa apenas 8% do orçamento total da organização.

A porta-voz do Departamento de Estado americano, Tammy Bruce, descreveu a Unesco como uma entidade que “promove causas sociais e culturais divisivas” e está excessivamente focada nos objetivos de sustentabilidade da ONU, os quais chamou de “agenda ideológica globalista”. 

Bruce também questionou seu reconhecimento da Palestina como Estado, uma decisão que “contribuiu para a proliferação da retórica anti-Israel dentro da organização”, disse a porta-voz. 

Após o anúncio da decisão de Washington, o chanceler de Israel, Gideon Saar, celebrou a saída dos EUA da Unesco, “um passo necessário, elaborado para promover a justiça e o direito de Israel a um tratamento justo no sistema da ONU”.

“Refuto absolutamente (…) que existam preconceitos anti-israelenses ou antissemitas dentro da organização”, respondeu Azoulay à AFP, afirmando que “esses argumentos contradizem a realidade dos esforços liderados pela Unesco, especialmente na educação sobre o Holocausto e na luta contra o antissemitismo”.

– Três retiradas em 40 anos –

Esta é a terceira vez que Washington deixa a Unesco em 40 anos. 

Em outubro de 2017, durante seu primeiro mandato, Donald Trump anunciou a retirada de seu país, denunciando os “persistentes tendências anti-israelenses” da instituição. Essa retirada, seguida pela de Israel, entrou em vigor em dezembro de 2018. 

A Unesco contrariou Israel principalmente em julho de 2017, ao inscrever o centro histórico de Hebron na lista do Patrimônio Mundial em Perigo e ao caracterizar Hebron, na Cisjordânia ocupada, como uma cidade islâmica, enquanto os judeus, dos quais centenas agora vivem entrincheirados entre 200.000 palestinos, reivindicam uma presença de 4.000 anos. 

O presidente francês, Emmanuel Macron, reiterou nesta terça-feira seu “apoio inabalável” à Unesco, com sede em Paris, em uma mensagem na rede X.

Durante o governo Biden, os Estados Unidos retornaram à Unesco e se comprometeram a reembolsar integralmente, em parcelas, os pagamentos em atraso desde 2011, no valor de US$ 619 milhões (R$3,44 bilhões). 

Após a admissão da Palestina à Unesco naquele ano, Washington suspendeu todo o financiamento previsto em uma lei americana que proíbe investimentos em uma organização da qual faça parte o Estado palestino.

Em 1984, Ronald Reagan também retirou a participação dos Estados Unidos, alegando uma suposta inutilidade e os excessos orçamentários da agência. Washington retornou à organização em outubro de 2003.

– Redução da carga financeira –

Embora abandonem a organização que abriga a Unesco, os Estados Unidos permanecerão como membros do Comitê do Patrimônio Mundial, que vota pela designação de locais protegidos, disse uma fonte próxima ao assunto dentro da organização.

Acostumada às reviravoltas de Washington, a Unesco se esforçou nos últimos anos para reduzir sua dependência do financiamento americano, principalmente aumentando a proporção de contribuições voluntárias, que dobrou sob o comando de Audrey Azoulay. 

“Esta decisão, no entanto, afetará nossas atividades nos próximos anos ou nos forçará a buscar outras fontes de financiamento”, acrescentou a fonte próxima ao assunto. 

A Unesco é conhecida principalmente por seus programas educacionais e suas listas de patrimônios mundiais de bens culturais e sítios naturais extraordinários, e às vezes ameaçados. 

Nos últimos anos, a organização também abordou a questão do uso ético da inteligência artificial.

bur-sva/cl/ms/pb/mb/jc/dd/aa/lm

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