Flotilha de ajuda humanitária chega a Cuba, mergulhada em crise
O primeiro barco de uma flotilha que transportava suprimentos médicos, alimentos e painéis solares chegou a Cuba nesta terça-feira (24) para ajudar a ilha, enquanto um bloqueio de combustível imposto pelos Estados Unidos agrava sua crise energética.
O barco de pesca “Maguro” atracou em Havana com três dias de atraso, após enfrentar ventos fortes e correntes marítimas durante sua viagem desde o México.
Ao entrar no canal da Baía de Havana, com suas fortificações da era colonial, ativistas subiram no convés da embarcação, simbolicamente renomeada “Granma 2.0” em homenagem ao iate usado pelo grupo guerrilheiro liderado por Fidel Castro para lançar sua revolução em 1956.
Eles exibiam uma faixa com os dizeres “Deixe Cuba Viver”, enquanto outros, que os aguardavam no cais, gritavam “Sim a Cuba! Não ao bloqueio!”.
O presidente Miguel Díaz-Canel disse receber “com profunda gratidão” aos “amigos que hoje se levantam por Cuba e estendem a mão e o coração”, em uma mensagem no X.
Os primeiros carregamentos do comboio internacional “Nossa América”, parte da flotilha, chegaram na semana passada de avião da Europa, América Latina e Estados Unidos. Mais dois barcos devem chegar em breve. No total, serão entregues 50 toneladas de ajuda à ilha.
– “Solidariedade” vs “isolamento” –
O organizador do comboio, David Adler, cidadão dos Estados Unidos, disse à AFP que a missão entregou ajuda urgente diretamente ao povo cubano e mostrou ao mundo “o custo humano do cerco de Trump contra Cuba”.
“Demonstrou que a solidariedade internacional pode triunfar sobre o isolamento forçado”, disse Adler, coordenador do grupo de esquerda Progressive International.
O país sofreu sete apagões em todo o território nacional desde 2024 — dois deles na última semana — devido a usinas elétricas obsoletas e à escassez de petróleo.
A situação do país se agravou depois da brusca suspensão, em janeiro, do fornecimento de petróleo vindo da Venezuela, seu principal fornecedor há 25 anos, após a queda de Nicolás Maduro em uma intervenção militar dos Estados Unidos.
Desde 9 de janeiro não chega petróleo à Cuba, o que impactou o setor elétrico, reduziu o transporte público e levou a cortes de voos das companhias aéreas, um golpe para o setor turístico.
O “Sea Horse”, um navio-tanque com bandeira de Hong Kong que antes se acreditava estar transportando diesel russo para Cuba, acabou diante da costa da Venezuela nesta terça-feira, segundo o rastreador marítimo MarineTraffic.
– “Ganância” de Trump –
Cuba responsabiliza Washington pelas dificuldades do país, principalmente devido ao bloqueio de combustível e a um embargo comercial que já dura mais de seis décadas.
Em Miami, bastião do anticastrismo, exilados cubanos que atribuem a crise econômica ao governo comunista afirmam que o comboio oferece apoio político a Havana e beneficiará mais o governo comunista do que o povo cubano.
“Tudo isso não passa de um espetáculo político”, declarou à AFP o ex-preso político cubano Luis Zúñiga. “A crise elétrica em Cuba não se deve ao embargo de petróleo imposto pelo presidente dos Estados Unidos. Ela remonta a muito antes disso”, afirmou.
O “Maguro” zarpou na sexta-feira da Península de Yucatán, no México, com 32 pessoas a bordo, incluindo ativistas de Austrália, Brasil, Equador, Itália, México e Estados Unidos. Jornalistas da AFP estavam a bordo.
Durante a viagem, na qual foi escoltado em parte do percurso por um navio da Marinha mexicana, o ativista brasileiro Thiago Ávila afirmou que outros países deveriam ajudar Cuba.
“Não podemos permitir que o mundo e o direito internacional sejam soterrados pela ganância de Donald Trump”, disse à AFP Ávila, que também foi um dos organizadores de uma flotilha que tentou levar ajuda humanitária a Gaza no ano passado, mas foi impedida pelo bloqueio naval israelense.
“É por isso que estamos aqui, é por isso que as pessoas decidiram se mobilizar para isso e decidiram doar”, acrescentou.
A também brasileira Lisi Proença disse que o grupo estava aplicando a experiência adquirida com a flotilha de Gaza para levar ajuda humanitária a Cuba.
Nesta terça-feira, em um comunicado divulgado de sua sede em Georgetown (Guiana), a Comunidade do Caribe (Caricom) informou que seus 15 países-membros estão aportando recursos para a compra, no México, de “suprimentos de vital importância” para Cuba, como leite em pó, trigo, arroz e feijão, bem como suprimentos médicos e painéis solares.
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