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Fotógrafo suíço relembra o cerco de Sarajevo 30 anos depois

Trinta anos após documentar o cerco de Sarajevo, Thomas Kern revisita as memórias de uma cidade devastada pela guerra, mas determinada a preservar sua humanidade. Hospedado entre moradores locais durante o conflito na Bósnia, ele registrou não apenas a destruição, mas também os gestos cotidianos de resistência que marcaram uma geração.

Eu não frequentava muito o Holiday Inn. Na verdade, minha intenção inicial era nem sequer ir a Sarajevo. A cidade estava sitiada pelas forças sérvias desde abril de 1992. Eu tinha a impressão de que já havia fotógrafos e fotógrafas suficientes por lá. Não queria fazer parte daquele grupo reunido no Holiday Inn, o único hotel na cidade cercada.

No início de 1992, eu trabalhava para um jornal suíço fotografando um centro de acolhimento de refugiados em Davos. Foi ali que encontrei pela primeira vez refugiados de um país que estava se desintegrando: a Iugoslávia. As impressões deixadas por aquele encontro não me deixaram mais. O massacre de Vukovar já era então conhecido. Pela primeira vez, tomei consciência de uma guerra na Europa, quase à nossa porta.

Diário
Uma página dupla do diário do fotógrafo com um autorretrato colado – incluindo a máquina fotográfica, o capacete e o colete de proteção. Setembro de 1992. Thomas Kern

Naquela época, eu dividia com um amigo um Saab, que acabou aos poucos ficando mais comigo. Foi com ele que viajei para a Croácia, em agosto de 1992. Em Zagreb, consegui me alojar com pessoas que trabalhavam para a ONU.

Depois, aproximei-me da linha de combate. Atravessei várias vezes o rio Drina, passando para Bosanski Brod, onde unidades croatas, forças bósnias e sérvios se enfrentavam. Com diferentes mapas, eu tentava manter uma visão geral da situação – algo muito importante para avaliar onde existiam os diversos riscos. Depois de algum tempo, contudo, percebi que não encontrava naquela região o que realmente me interessava.

Eu não me via como um fotógrafo de guerra. O que me movia era mostrar o que a guerra provocava e o que ela significava para as pessoas que viviam sob seu impacto. Muitas conversas com Ervin, um experiente jornalista esloveno da revista Mladina, levaram-me à conclusão: para ver isso, eu provavelmente teria mesmo de ir a Sarajevo.

Entre 1992 e 1996, tropas e milícias sérvias ocuparam os subúrbios e as colinas ao redor da cidade durante 1.425 dias. Foi o cerco mais longo do século 20. Entre 350 mil e 450 mil pessoas permaneceram em Sarajevo. Enquanto algumas fugiam, novos refugiados provenientes do leste da Bósnia também chegavam à cidade sitiada. Uma ponte aérea através do aeroporto e um túnel permitiram o abastecimento mínimo.

Diariamente, mais de 300 projéteis atingiam a cidade, enquanto franco-atiradores sérvios a mantinham constantemente sob mira.

Segundo estimativas, os disparos e bombardeios causaram a morte de mais de 11 mil habitantes de Sarajevo.

A Justiça italiana investigaLink externo a suspeita de que ricos cidadãos da Europa Ocidental também tenham participado desses assassinatos.

Sarajevo como símbolo do Estado multiétnico

Na Croácia, encontrei, é claro, sobretudo croatas. Embora tivessem opiniões diferentes, compartilhavam, ainda assim, uma perspectiva semelhante.

Em Sarajevo, era diferente. A cidade era, na Iugoslávia em desintegração, o símbolo do Estado multiétnico. Ali conviviam bósnios, sérvios, croatas, judeus e ciganos. As pessoas que encontrei tinham consciência de que essa convivência estava em risco. Eu podia sentir o quanto estavam dilaceradas.

Minhas fotografias foram posteriormente publicadas juntamente com um texto do escritor croata-bósnio Miljenko Jergović.

Suas palavras descreveram minhas impressões melhor do que qualquer legenda poderia fazê-lo:

“Os altos choupos, acácias e freixos tombam sobre a venerável arquitetura gótica do mármore austro-húngaro. A pedra friável se desagrega, há muito corroída pela chuva ácida e pelo comunismo. Caem lápides que conservavam memórias eternas, para nunca mais serem erguidas, para deixarem de existir. As pessoas querem aquecer-se e não mantêm registro dos mortos. Estes estão frios, algures nas profundezas, para além de todo este horror, muito longe daquela necessidade incorrigível dos vivos de conservar a temperatura do corpo na confortável escala de trinta e seis vírgula oito graus.”

Aquecer-se com furos na tubulação de gás

Fazia um frio de rachar. Não havia aquecimento. Ou se fazia fogo com lenha, ou se utilizava gás para aquecer o ambiente. Na prática, isso significava fazer furos numa tubulação de gás e aproximar uma chama. Como eu estava alojado numa residência particular em Sarajevo, vivi o dia a dia das pessoas. Aprendi como funcionava a busca por lenha e acompanhei os moradores quando iam buscar água. Foi assim que realmente conheci a cidade.

Pouco a pouco, fui ampliando o perímetro da cidade que conhecia bem. Passei horas caminhando e fotografando. Ia a todos os lugares onde era possível chegar e onde se estava relativamente protegido dos franco-atiradores sérvios. Ainda circulava na cidade um jornal bósnio, o Oslobođenje; as notícias publicadas nele, assim como as conversas com meus anfitriões, ajudavam-me a orientar-me.

Eu morava na casa de Medina, que conheci por intermédio de Ervin. Ela também era jornalista e escrevia para a revista Mladina. Com ela viviam ainda sua irmã Jasna, os filhos desta, bem como Ismira e Sead, que trabalhava para o gabinete de imprensa do Exército bósnio.

As fotos a seguir fazem parte do arquivo particular do fotógrafo. Na época, elas não se destinavam à publicação.

Ao Holiday Inn para comprar um bolo de aniversário

Já naquele primeiro inverno do cerco, pouco restava da vida normal em Sarajevo. Mas as pessoas continuavam seguindo em frente: comemoravam o Ano-Novo, celebravam aniversários das crianças, e de duas em duas semanas, algum bar abria as portas. Naquela época, eu não podia esbanjar dinheiro, mas, como jornalista estrangeiro, ainda dispunha de mais recursos do que a maioria. Assim, por exemplo, pude contribuir com um bolo para a festa de aniversário da filha da irmã de Medina. Foi para comprar esse bolo que acabei indo ao Holiday Inn.

Na época, eu estava completamente entregue a mim mesmo. Não queria ser um fotógrafo de guerra, mas naturalmente fazia parte daquela realidade. Estava em contato constante com outros jornalistas e também dependia deles.

Quase não havia telefones para chamadas internacionais. Num edifício que abrigava um estúdio de televisão, era possível utilizar um telefone via satélite ao custo de 20 marcos por minuto. Em determinado momento, liguei para meu editor-chefe e lhe disse: “Agora estou no lugar certo. Trabalho todos os dias. As coisas estão indo bem, mas não vou voltar para casa para revelar e examinar os filmes. Vocês simplesmente terão de esperar.”

DU Repro
Título da edição da DU, n.º 5, maio de 1993. Thomas Kern

Meu trabalho foi publicado pela primeira vez, em maio de 1993, na revista DU, sob o título “Bálcãs. Um desastre europeu”. Porque era exatamente isso que aquela guerra representava: um desastre europeu. Era algo muito diferente do Iraque, onde eu tinha estado antes. Eu sentia e sabia que aquela guerra tinha muito mais a ver comigo.

Proximidade e os vínculos com a Suíça

Na Croácia e na Bósnia, eu via transeuntes carregando sacolas plásticas da rede de lojas suíça Manor – uma imagem que me fazia sentir em casa. E, se eu entrasse no carro e dirigisse durante dezesseis horas seguidas, na manhã seguinte poderia realmente estar sentado no Café Sprüngli, em Zurique. Em Sarajevo, encontrei jovens ligados à cena política e intelectual que eu poderia perfeitamente ter conhecido na Suíça. Em uma ou duas ocasiões, cheguei até a encontrar pessoas que passavam o fim de semana lutando na guerra, na Croácia, e depois retornavam à Suíça para trabalhar. Até hoje, quando ouço homens da minha idade falando servo-croata no cotidiano, pergunto-me: o que estariam eles fazendo há trinta anos?

Suad Snezana
É 26 de dezembro de 1992. Sarajevo está há meses isolada do mundo exterior. Lá fora faz frio e, ao longo do dia, cidadãos que antes da guerra passavam despercebidos insultam-se e chegam a trocar agressões por causa da lenha necessária para aquecer seus cômodos com fogões improvisados, feitos de sucata de metal. Suad e Snezana, porém, estão felizes; a dureza da vida cotidiana não os afeta hoje. É dia de casamento! O casamento deles. O fato de o pai de Suad ser muçulmano e a família de Snezana ser de origem croata não incomoda ninguém ali; e, se alguém lhes perguntasse sobre isso, provavelmente receberia em resposta um olhar de total incompreensão diante da própria pergunta. Suad e “Snezu” conhecem-se há vários anos. Por que decidiram casar-se justamente agora, em plena guerra, numa cidade sitiada como nos tempos medievais, em circunstâncias tão difíceis? Eles não foram os únicos a se casar naquele dia no improvisado edifício administrativo de Novi Grad. Enquanto trocavam alianças sob as cinco flores-de-lis do brasão da Bósnia, na penumbra de uma sala indefinível, outro casal já esperava do lado de fora. Em tempos como aqueles, as pessoas se aproximam umas das outras; precisam de calor humano. Thomas Kern
Aconselhar o Papa
Este era o pai de Suad. Ele também morava num conjunto habitacional em Novi Grad, entre o centro da cidade e o aeroporto. Sempre que Suad passava seus dias na frente de batalhas, o pai observava a colina onde o filho estava destacado através destes binóculos de plástico, embora mal conseguisse enxergar alguma coisa com eles. Talvez isso o tranquilizasse; talvez o fizesse sentir-se mais próximo do filho, como se pudesse velar por ele e protegê-lo. Thomas Kern
coleção de madeira
Na diagramação da revista, publicamos uma série inteira de fotografias, em páginas duplas, sobre a busca por lenha e o aquecimento das casas. Quando olho para esta imagem – as luvas de couro da mulher, a expressão em seu rosto, a maquiagem, os cabelos cuidadosamente escovados e a maneira como tenta proteger o filho daquilo que acontece ao redor -, imagino que sua vida anterior dificilmente a tivesse preparado para uma situação como essa. Thomas Kern
Kenan Herenda
Kenan Herenda tem treze anos e provavelmente é o maior colecionador de estilhaços de granadas, projéteis não detonados, bombas e outros artefatos explosivos de Sarajevo. Kenan vive em Dobrinja 2, próximo à frente de combate. Ele coleciona esses objetos desde o início da guerra e, sempre que ocorre um bombardeio, é o primeiro a correr em direção aos restos das granadas que acabaram de cair, a fim de assegurar a maior quantidade possível de estilhaços. Sarajevo, janeiro de 1994. Thomas Kern

Quando penso naquela época, tenho plena consciência de quanto minha situação era melhor do que a das pessoas que viviam ali, incapazes de simplesmente deixar a cidade sitiada, como eu podia fazer. Conheço várias repórteres e vários repórteres daquele período que posteriormente buscaram tratamento terapêutico, e sou grato por nunca ter me sentido traumatizado dessa maneira. Talvez isso também se deva ao fato de eu ter conseguido realmente colocar nas fotografias aquilo que procurava expressar.

Mas a experiência deixa marcas. Quando voltei à Suíça, foi difícil para mim falar sobre tudo o que havia vivido. A melhor amiga da minha companheira na época passara por situações semelhantes em missões da Cruz Vermelha. Isso ajudou. Pudemos compartilhar nossas experiências.

Edição: David Eugster

Adaptação: Karleno Bocarro

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