Leão XIV é aclamado em Paris após alertar sobre os riscos da IA
O papa Leão XIV alertou, nesta sexta-feira (25), para o risco da perda da humanidade em um “paraíso de máquinas” movido pela inteligência artificial, no primeiro dia de sua visita à França, onde foi aclamado por multidões e por milhares de jovens.
Cerca de 300 mil pessoas, segundo estimativas oficiais antecipadas pelo Vaticano, lotaram as ruas da Cidade Luz na primeira visita papal desde a de Bento XVI em 2008.
“Aí vem ele!”, gritou uma pessoa, enquanto o papamóvel com o pontífice circulava em seu primeiro contato com a multidão, sob um céu azul e sem nuvens. “Olha, é o papa, isso é uma loucura”, disse outra.
Terry Spytek, de 83 anos, viajou dos Estados Unidos para ver seu compatriota por apenas três segundos, mas acredita que valeu a pena. “Sinto bem aqui, no meu coração. Estou muito emocionada, mesmo tendo sido uma visão muito rápida”, acrescentou.
Outros 80 mil jovens de 17 a 35 anos lotaram o Estádio de França, ao norte de Paris, para uma vigília com Leão XIV. O aumento dos batismos nessa faixa etária, apesar da queda geral da prática religiosa, desperta a curiosidade do papa.
Os jovens, com celulares nas mãos, receberam o pontífice como uma estrela do rock. Ele agradeceu a eles pela “coragem, presença e fé”. “Vocês são os santos da França!”, afirmou, após um espetáculo pirotécnico e uma apresentação histórica que recriou os vínculos cristãos desse país laico.
– “Formar as mentes” –
“Nesta era em que estamos centrados em nós mesmos, ele nos diz que não devemos esquecer de olhar para os outros. Essa mensagem é muito importante para mim”, admite Coralie Cece, uma enfermeira de 33 anos, que pediu um dia de folga para poder “ouvir” o papa “pessoalmente”.
Assim que chegou ao país, onde foi recebido pelo presidente Emmanuel Macron e por sua esposa, Brigitte, vestida de preto, o líder espiritual do 1,4 bilhão de católicos no mundo já lançou suas primeiras mensagens.
Diante de autoridades e diplomatas no Palácio do Eliseu, ele exortou “formar as mentes em um discernimento ético capaz de distinguir o que é moralmente bom”, para que o progresso tecnológico esteja a serviço da dignidade humana.
Durante uma visita à Unesco, ele também pediu à comunidade internacional que proteja “as crianças e os jovens” das novas tecnologias digitais. O avanço dessas tecnologias deve apoiar “seu crescimento” e preservar “sua liberdade de pensar”, afirmou.
Em maio, o sumo pontífice já havia dedicado sua primeira encíclica, “Magnifica Humanitas”, à IA, uma tecnologia que ele conclamou a “desarmar” para “impedi-la de dominar o que é humano”.
– “Morte programada” –
Em seu discurso, Leão XIV condenou a “manipulação genética, a barriga de aluguel, a compra de órgãos” e “a oferta de morte programada”, e defendeu o “direito à vida” como fundamento dos direitos humanos, em uma crítica velada ao governo francês.
A França foi o primeiro país a consagrar em sua Constituição a “liberdade garantida” ao aborto em 2024 e, em julho, aprovou o direito à eutanásia e ao suicídio assistido em certos casos.
A sete meses da eleição presidencial na França, crucial para a União Europeia, Leão XIV assegurou que “uma justa laicidade não consiste em excluir a religião do espaço público” e defendeu um diálogo “urgente” entre pessoas de diferentes culturas e religiões.
O pontífice também se tornou o primeiro papa a visitar a catedral de Notre-Dame após a reconstrução que se seguiu ao devastador incêndio de 2019. Ele celebrou seu “esplendor” e contemplou a imagem do Senhor dos Milagres, muito venerada no Peru.
Seu predecessor, o papa Francisco — que visitou a França em três ocasiões, mas nunca Paris — não compareceu à reabertura dessa joia da arte gótica no fim de 2024, ao contrário de Donald Trump e do bilionário Elon Musk.
– Missa campal na Champs-Elysées –
Esta visita em três etapas – Paris, Lourdes e Metz – mobiliza um forte contingente de 15 mil policiais e gendarmes e custará 27 milhões de euros (aproximadamente R$ 156 milhões).
O ponto culminante será uma missa campal no sábado, na turística Champs-Elysees, onde são esperados até 600 mil fiéis.
Em seguida, Leão XIV viajará para Lourdes, um local de peregrinação para cristãos de todo o planeta, onde se reunirá no domingo, em caráter privado, com vítimas de agressões sexuais na Igreja.
O papa encerrará sua visita na segunda-feira em Metz, com um discurso sobre a paz e a União Europeia.
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