Ministro da Defesa diz que combate a gangues na Guatemala ocorre sem ‘abusos’
A ofensiva da Guatemala contra as gangues após o assassinato de 11 policiais em janeiro é conduzida sem “abusos” nem “prisões arbitrárias”, afirmou em entrevista à AFP o ministro da Defesa, Henry Sáenz, que descartou adotar o modelo do presidente salvadorenho Nayib Bukele no combate ao crime.
Após uma onda de ataques de membros da gangue Barrio 18 contra as forças de segurança, o governo da Guatemala manteve o país sob estado de sítio durante um mês, entre janeiro e fevereiro, e depois limitou as operações do Exército e da polícia a seis departamentos, incluindo a capital, sob um “estado de prevenção”.
O ministro afirma que essas medidas fazem parte de uma estratégia de segurança do governo de Bernardo Arévalo que respeita os direitos humanos, em contraste com a guerra contra as gangues de Bukele, que permite detenções sem ordem judicial.
Segundo organizações de direitos humanos e juristas, na ofensiva de Bukele – muito popular por reduzir a violência a níveis historicamente baixos – foram cometidos inclusive crimes contra a humanidade.
Sáenz disse à AFP que a luta “sem abusos” contra as gangues Barrio 18 e Mara Salvatrucha, declaradas organizações terroristas pelos Estados Unidos e pela Guatemala, é um “caminho mais longo”, mas é “o melhor”.
PERGUNTA: Qual é o balanço dos estados de exceção?
RESPOSTA: Todos os mandados de busca que executamos foram autorizados por um juiz. Respeitando os direitos humanos e fortalecendo o modelo democrático, que nestes tempos é importante mostrar à comunidade internacional, o resultado é positivo.
Interrompemos a comunicação dos líderes das gangues. Sem essa comunicação, ficaram sem direção e sem ordens e, com isso, reduzimos em 50% os assassinatos nas ruas e em 33% as extorsões. Retomamos o controle do território e temos fronteiras mais seguras.
Mas, embora os dados sejam animadores, não somos ingênuos. Avançamos pouco, ainda há muito a fazer e muito a desarticular (…) para dizer que as gangues perderam poder.
P: Há risco de novos motins nas prisões como os de janeiro?
R: A ameaça é latente e permanente. O trabalho do Exército da Guatemala é garantir que dentro das prisões não haja armas, drogas ou álcool que possam levar (…) a novos motins, à tomada de reféns e a mais assassinatos.
Por enquanto, o Exército precisa continuar colaborando tanto nas prisões quanto nas ruas (…) para que essa estratégia seja sustentável ao longo do tempo.
P: Consideraram adotar algo do modelo Bukele?
R: Não. Somos um país democrático. A prisão de segurança máxima que está sendo projetada terá certificações internacionais.
Não vamos colocar 200 ou 300 pessoas em um mesmo espaço com um único banheiro. Não faremos isso porque nenhum ser humano deixa de ser humano e temos isso claro na Guatemala: todos têm direitos.
Não estamos defendendo criminosos; estamos combatendo, perseguindo e prendendo dentro de um sistema legal.
Mais do que adotar um modelo, queremos criar um. É um caminho mais longo, mas é o melhor e o mais seguro para todos.
P: O que fizeram para evitar abusos como os denunciados em El Salvador e Honduras?
R: Estamos há dois meses em estados de exceção e não houve uma única denúncia de abusos. O que fizemos foi respeitar os cidadãos guatemaltecos em todos os seus direitos civis.
A ideia é proteger o desenho da operação para que o Exército possa participar, sem violar os direitos da população.
P: Pode garantir que não houve nenhuma prisão arbitrária?
R: Nenhuma. Esperamos as ordens de um juiz competente, atuamos junto às forças de segurança civil e não cometemos nenhuma arbitrariedade.
P: Qual é a expectativa da aliança contra o narcotráfico liderada pelos Estados Unidos?
R: Nosso parceiro estratégico diz que todas as forças armadas do hemisfério devem se envolver no combate aos cartéis. Já estamos fazendo isso.
Vêm bons tempos para o hemisfério, em que todos, sem exceção, combatam o narcotráfico a partir de suas posições.
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