Obstáculos para realizar eleições em tempos de guerra na Ucrânia
Desde que a Rússia invadiu a Ucrânia, há quase quatro anos, o Kremlin, e recentemente a Casa Branca, têm pedido que Kiev convoque eleições como parte de um acordo de paz, mas, em tempos de guerra, isso representa um desafio colossal e o país teria que superar uma série de obstáculos.
Citando fontes anônimas, o Financial Times informou nesta quarta-feira (11) que Kiev considera a possibilidade de realizar eleições presidenciais nos próximos três meses.
A AFP analisa os obstáculos que teria de superar para consegui-lo.
– Lei marcial –
A lei marcial, imposta pela Ucrânia quando as forças russas cruzaram a fronteira em fevereiro de 2022, proíbe a realização de eleições.
O presidente Volodimir Zelensky repetiu várias vezes que a Ucrânia só pode realizar eleições quando assinar um acordo de paz com a Rússia, mas, recentemente, se mostrou disposto a antecipá-las como parte de um plano americano para pôr fim à guerra.
Nesta quarta-feira, reiterou que a Ucrânia apenas realizará eleições quando houver “garantias de segurança” e “um cessar-fogo” com a Rússia.
“Faremos as eleições quando tivermos todas as garantias de segurança necessárias”, disse Zelensky a jornalistas em uma coletiva de imprensa on-line. “É muito simples de fazer: instaurar um cessar- fogo e haverá eleições”, acrescentou.
Se a Rússia estiver de acordo, existe a possibilidade de “pôr fim às hostilidades até o verão” boreal, disse.
Kiev criou, no ano passado, uma força-tarefa composta por políticos e oficiais militares para analisar como eleições poderiam ser realizadas depois que a lei marcial fosse suspensa.
– Votar sob ataque –
Os altos cargos ucranianos costumam citar os combates em andamento como o grande obstáculo para realizar eleições. Afinal, as tropas russas bombardeiam diariamente as localidades próximas à extensa linha de frente.
Muitos ucranianos fugiram para o exterior desde que a Rússia invadiu o país, e milhões vivem sob ocupação russa. Também não está claro como centenas de milhares de militares poderiam votar na linha de frente.
“As eleições nos territórios ocupados são completamente impossíveis”, avalia o analista político Volodimir Fesenko.
“Mesmo quando a guerra acabar, são impossíveis”, acrescentou. Em sua opinião, realizar eleições nas zonas controladas por Moscou viola a legislação ucraniana.
Apenas 10% dos ucranianos apoiam a realização de eleições antes de um cessar-fogo, segundo uma pesquisa realizada no final do ano passado pelo Instituto Internacional de Sociologia de Kiev (KIIS).
– O que dizem EUA e Rússia –
O Kremlin propôs derrubar Zelensky e seu governo no início de 2022 e sustenta que o líder ucraniano é ilegítimo desde que seu mandato de cinco anos expirou em 2024.
Moscou afirma que poderia interromper os combates se a Ucrânia realizar eleições, mas apenas se for permitido que os ucranianos que vivem na Rússia e nas áreas sob seu controle votem.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, estipulou que sejam realizadas eleições na Ucrânia como parte do acordo que procura negociar.
Em dezembro, Trump, o aliado mais importante porém imprevisível da Ucrânia, acusou Kiev de aproveitar os combates em curso para evitar realizar eleições.
– Candidatos –
Os analistas confiam em que Zelensky conseguirá um segundo mandato, apesar de ele ter dito no ano passado que estaria disposto a renunciar após um acordo de paz.
“Se terminarmos a guerra com os russos, sim, estou disposto” a não concorrer nas próximas eleições, declarou Zelensky à plataforma de notícias Axios em uma entrevista em vídeo. “As eleições não são o meu objetivo”, acrescentou.
Os índices de aprovação do líder ucraniano entre a opinião pública têm diminuído gradualmente desde o começo da invasão, há quase quatro anos.
Cerca de 59% dos ucranianos confiam no ex-ator e ex-humorista de 48 anos, segundo uma pesquisa do KIIS no final de 2025.
Mas outra pesquisa sobre intenção de voto coloca Zelensky lado a lado com o popular ex-chefe das Forças Armadas, Valerii Zaluzhnyi, a quem demitiu em 2024, e indica inclusive que ele poderia perder para Zaluzhnyi no segundo turno.
Zelensky foi acusado de ter centralizado poder demais durante a guerra, junto com seu principal assessor, Andrii Yermak, a quem destituiu no final de 2025. E de ter marginalizado oponentes, como Zaluzhnyi, que agora é o embaixador da Ucrânia no Reino Unido.
Fesenko considera outros nomes como possíveis candidatos, como o ex-presidente Petro Poroshenko e a ex-primeira ministra Yulia Timoshenko, embora suas chances pareçam escassas. Ele também cita altos cargos militares.
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