Surto de Ebola no Congo acelera busca por nova vacina
O surto de Ebola Bundibugyo na República Democrática do Congo acelerou uma corrida internacional por vacinas, com testes em humanos já iniciados no Reino Unido e no Canadá.
Sem vacina ou tratamento aprovado para a cepa Bundibugyo do Ebola, o surto na República Democrática do Congo (RDC) desencadeou uma resposta científica urgente. Pesquisadores condensaram anos de desenvolvimento de vacinas em semanas, iniciando os primeiros testes em humanos, enquanto a Organização Mundial da Saúde (OMS), com sede em Genebra, alerta que a epidemia pode atingir proporções sem precedentes.
“A busca por uma vacina contra o vírus Ebola Bundibugyo é uma corrida contra o tempo”, disse Rachael Bonawitz, chefe do Programa de Doenças por Filovírus da Coalizão para Inovações em Preparação para Epidemias (CEPI).
Com milhares de infecções já relatadas e o vírus se espalhando rapidamente pelo leste do Congo, cientistas, organizações globais de saúde e fabricantes de vacinas estão agindo com excepcional rapidez para desenvolver, testar e produzir vacinas candidatas antes que o surto se alastre ainda mais.
A cepa Bundibugyo, responsável pela epidemia atual, é altamente contagiosa e altamente letal. Ao contrário da cepa Zaire do Ebola, para a qual existem vacinas e tratamentos licenciados, atualmente não existem medidas médicas aprovadas contra a Bundibugyo.
Segundo Tedros Adhanom Ghebreyesus, diretor da OMS, 4.449 casos haviam sido relatados na República Democrática do Congo até 12 de agosto. Um total de 2.061 pessoas morreram, enquanto 886 pacientes se recuperaram, apesar da ausência de terapias e vacinas específicas, várias das quais estão agora em fase de testes.
O vírus Ebola, altamente infeccioso, é transmitido por fluidos corporais e pode causar febre alta, hemorragias internas e externas e falência de órgãos. Para as autoridades de saúde, conter o surto não é apenas um desafio nacional, mas uma prioridade regional. Quanto mais tempo a transmissão continuar, maior será o risco de os casos se espalharem para além das fronteiras.
Desafios de vacinação
No entanto, o desenvolvimento de vacinas contra ameaças epidêmicas emergentes representa um desafio fundamental. Os surtos são raros, imprevisíveis e geralmente de curta duração, o que deixa as empresas farmacêuticas com poucos incentivos comerciais para investir.
“Como os surtos são raros e esporádicos, os desenvolvedores de vacinas não têm um mercado confiável”, disse Bonawitz. “Dada a demanda incerta, a falta de compradores garantidos e os retornos financeiros limitados, isso pode gerar custos significativos para os desenvolvedores.”
Sem intervenção, alertou ela, o mundo corre o risco de ficar sem vacina sempre que surgir um novo surto. Para lidar com essa falha de mercado, a CEPI, uma organização sem fins lucrativos com sede em Oslo, e a Gavi, a Aliança de Vacinas, com sede em Genebra, lançaram em junho uma estratégia de financiamento inovadora que combina os chamados mecanismos de incentivo e de demanda.
Apoiada por investidores privados, filantropia e países como a Suíça, a CEPI comprometeu-se a investir US$ 22,7 milhões entre 2022 e 2026 no desenvolvimento de vacinas contra futuras ameaças de epidemias e pandemias. A organização fornece o financiamento inicial, custeando a pesquisa e o desenvolvimento de vacinas. A CEPI já investiu mais de US$ 60 milhões para avançar com um portfólio de vacinas candidatas contra a doença de Bundibugyo.
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“Esse financiamento inicial é crucial para reduzir os riscos científicos e técnicos para os desenvolvedores e para levar uma vacina candidata do laboratório aos ensaios clínicos”, explicou Bonawitz.
Em vez de apoiar uma única vacina, a CEPI está apoiando várias candidatas simultaneamente. Essa abordagem de portfólio aumenta a probabilidade de que pelo menos uma vacina se mostre segura e eficaz e possa ser distribuída rapidamente caso o surto piore.
A contribuição da Gavi concentra-se nos riscos comerciais que frequentemente atrasam o desenvolvimento de vacinas, mesmo após o surgimento de resultados promissores. Por meio de seu Fundo de Primeira Resposta, a aliança aprovou até US$ 40 milhões para ajudar os fabricantes a investir em capacidade de produção antes mesmo de se saber se uma vacina será bem-sucedida.
O objetivo é garantir que as doses da vacina possam ser disponibilizadas rapidamente assim que os ensaios clínicos produzirem resultados encorajadores. “Este financiamento de emergência visa garantir rapidez, capacidade e acesso”, afirmou Emanuele Capobianco, Diretor de Segurança Sanitária Global da Gavi, em comunicado.
Primeiros ensaios clínicos
A estratégia já está produzindo resultados. A primeira vacina candidata direcionada especificamente à cepa Bundibugyo entrou na Fase 1 de testes clínicos no Reino Unido em 24 de julho. Desenvolvida pela Universidade de Oxford e pelo Serum Institute of India (SII), a candidata, conhecida como ChAdOx1 BDBV, é baseada na mesma tecnologia de vetor viral usada na vacina Oxford-AstraZeneca contra a Covid-19.
Pesquisadores de Oxford desenvolveram a vacina em apenas oito semanas, um tempo significativamente menor do que o que foi possível durante a pandemia de Covid-19. O primeiro voluntário a receber a vacina experimental foi o britânico Ed Hunt, de 37 anos, que disse ter decidido participar após ver notícias sobre o surto mortal na República Democrática do Congo. O ensaio clínico recrutará 50 voluntários saudáveis com idades entre 18 e 55 anos e tem como objetivo avaliar a segurança, a tolerabilidade e a capacidade da vacina de gerar uma resposta imunológica.
Uma segunda vacina candidata, a mRNA-1469 da Moderna, entrou na Fase 1 de testes no Canadá em 4 de agosto. A vacina utiliza a mesma plataforma de mRNA que ganhou destaque durante a pandemia de Covid-19. Aproximadamente 80 voluntários saudáveis devem participar do estudo. A Moderna anunciou que Susan Murray se tornou a primeira participante a receber a vacina candidata como parte do ensaio clínico financiado pela CEPI.
Os pesquisadores esperam avançar rapidamente desses estudos iniciais para ensaios clínicos de Fase 2 e 3 em maior escala, caso os resultados iniciais sejam promissores. Os participantes do ensaio serão monitorados por até um ano, mas os cientistas esperam obter informações preliminares sobre as respostas imunológicas e os possíveis efeitos colaterais muito antes disso.
Ao mesmo tempo, os fabricantes de vacinas já estão produzindo doses antes mesmo de qualquer candidata ter sua eficácia comprovada. O Serum Institute of India, o maior fabricante de vacinas do mundo, produziu e estocou cerca de 620.000 doses da vacina candidata de Oxford em apenas duas semanas. Cerca de 4.000 doses foram destinadas ao estudo de Fase 1.
A CEPI financiou a produção dessas doses antecipadamente assumindo, assim, o risco financeiro e garantindo que os suprimentos estivessem disponíveis imediatamente para testes em maior escala ou para distribuição emergencial, caso a vacina se mostrasse eficaz. “Se fabricarmos as doses com antecedência, não perdemos tempo assim que determinamos que uma vacina candidata pode avançar para a próxima fase de testes e podemos começar imediatamente”, disse Bonawitz. Referindo-se ao estoque já preparado pelo Instituto Serum da Índia, ela acrescentou: “Em uma situação de surto, estamos correndo contra o tempo”.
Entretanto, a OMS também está explorando se as ferramentas existentes podem ajudar. Em agosto, recomendou que a Ervebo, a única vacina contra o Ebola licenciada atualmente disponível e originalmente desenvolvida contra a cepa Zaire, fosse incluída em um estudo de Fase 3 contra a cepa atual. A recomendação foi feita após dois estudos em animais que sugeriram que a vacina pode oferecer alguma proteção contra a variante responsável pelo surto atual.
Edição: Virginie Mangin/ts
Adaptação: DvSperling
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