Governo suíço abandona a discrição e ganha visibilidade internacional
O ministro das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, visitou a Coreia do Norte. Mas ele não é o único, seus antecessores também projetaram a Suíça para o centro da diplomacia internacional.
Imagens carregadas de simbolismo, grandes manchetes: no fim de outubro, o ministro das Relações Exteriores da Suíça, Ignazio Cassis, visitou a isolada Coreia do Norte. Seu objetivo era reativar o diálogo político. Para isso, a Suíça aposta também em seu escritório em Pyongyang, cuja reabertura contou com a presença do Conselho Federal.
Meeting with DPRK Foreign Minister Choe Son Hui in #Pyongyang. We discussed reopening the 🇨🇭 diplomatic office in a new format, regularising political relations and reestablishing a political #dialogue. We also exchanged views on security on the Korean Peninsula and broader Eurasian security challenges.
— Ignazio Cassis (@ignaziocassis) October 30, 2026Link externo
Um encontro com o ditador Kim Jong-un não estava previsto. Ainda assim, a missão diplomática de Cassis é notável, já que poucos integrantes de governos ocidentais viajaram até Pyongyang nos últimos anos.
Em declarações ao jornal 20 MinutenLink externo, políticos suíços especializados em política externa reagiram com opiniões que variam do ceticismo ao apoio em relação à viagem de Cassis. Para o deputado liberal-radical Hans-Peter Portmann, o papel de mediação desempenhado pela Suíça faz sentido. É preciso, porém, tomar cuidado para não se tornar parte de um “teatro político”, como aquele encenado pelo presidente americano Donald Trump em sua relação de amizade com o ditador Kim Jong-un.
Os chamados bons ofícios estão profundamente enraizados na história do moderno Estado federal suíço. Durante muito tempo, sua principal marca foi a “máxima discrição”, observa o cientista político Michael Hermann. “Os bons ofícios eram, por assim dizer, um produto do próprio sistema e não estavam vinculados a uma pessoa específica.”
De lenço na cabeça em Teerã
Desde o início dos anos 2000, uma mudança se tornou perceptível: ministros e ministras das Relações Exteriores da Suíça passaram a dar maior visibilidade aos seus esforços diplomáticos. Em alguns casos, isso também provocou duras críticas.
Micheline Calmy-Rey (2003-2011), Didier Burkhalter (2012-2017) e Ignazio Cassis (desde 2017) deram maior visibilidade a seus esforços diplomáticos. No entanto, cada um fez isso de maneira diferente.
“Isso corresponde, antes de tudo, a uma mudança cultural mais ampla na política”, afirma Hermann. Segundo ele, essa transformação também foi impulsionada pelo fortalecimento dos departamentos de comunicação dentro dos ministérios e, em última análise, reflete a era da mídia e da comunicação permanente.
O silêncio é ouro
Para Hermann, porém, a verdadeira ruptura ocorreu durante o debate sobre os ativos não reclamados depositados em bancos suíços nos anos 1990. A discrição suíça passou, então, a ser vista de outra forma.
“O silêncio, a estratégia de ganhar tempo e a tendência de escolher apenas os aspectos mais favoráveis deram origem a uma narrativa que passou a lançar suspeitas sobre a Suíça”, explica Hermann.
Muitos judeus europeus depositaram dinheiro, títulos e outros bens em bancos suíços antes e durante a Segunda Guerra Mundial. Após o Holocausto, inúmeras contas permaneceram sem qualquer contato com seus proprietários ou seus herdeiros.
Nos anos 1990, críticos acusaram os bancos suíços de terem dificultado ou até impedido durante décadas a restituição desses ativos. O debate acabou se transformando na mais grave crise diplomática do pós-guerra e em um sério problema de reputação para a praça financeira suíça.
Um olhar cada vez mais desconfiado para a Suíça, que também se manifestou nos debates sobre o sigilo bancário, nas longas negociações dos acordos bilaterais III com a União Europeia e, mais recentemente, na guerra na Ucrânia.
Hermann interpreta a política externa suíça mais visível como uma tentativa de romper com essa imagem. A ideia é simples: mostrar ao mundo que a Suíça faz parte da solução, e não do problema.
Diplomacia como instrumento de imagem
Além disso, a posição especial da Suíça na diplomacia internacional vem se desgastando em um mundo cada vez mais multipolar.
“Uma competição global se instalou”, afirma Hermann.
Países do Golfo, assim como Estados como o Paquistão e a Turquia, também procuram projetar-se como mediadores e promotores da paz. Entre os objetivos está fortalecer suas relações com as grandes potências mundiais.
A Conferência de Bürgenstock sobre a guerra na Ucrânia pode ser vista como uma afirmação do papel da Suíça no cenário internacional. A principal responsável pela iniciativa foi a então presidente da Confederação, Viola Amherd. Alain Berset e Guy Parmelin também deram maior destaque à política externa durante seus anos na presidência.
Com isso, observa Hermann, eles acabam inclusive competindo, em certa medida, com os ministros das Relações Exteriores em exercício por espaço e visibilidade na cena diplomática.
Uma diplomacia suíça mais visível não é, portanto, um fim em si mesma. Ela também serve para fortalecer a imagem do país e pode abrir portas, tanto no campo diplomático quanto no econômico.
O fator personalidade na política externa
Para Adrian Vatter, cientista político da Universidade de Berna, não há dúvidas: “A personalidade de cada ministro e ministra das Relações Exteriores marcou profundamente a política externa suíça.”
Micheline Calmy-Rey não entendia a política externa suíça apenas como a defesa de interesses diplomáticos, mas pretendia posicionar a Suíça internacionalmente como uma mediadora ativa. “Com seu conceito de ‘neutralidade ativa’ e suas aparições de grande repercussão pública, ela conferiu uma nova visibilidade à diplomacia de paz suíça”, afirmou Vatter à SRF News.
Ignazio Cassis apresenta certos paralelos com Calmy-Rey. “Ele também é um político autoconfiante, comunicativo e, por vezes, não convencional, que busca o cenário internacional e não hesita em suscitar discussões com declarações públicas.”
Ao contrário de seu antecessor, Didier Burkhalter, que se destacava por sua extrema discrição, Cassis tem uma postura visivelmente mais direta. No entanto, Vatter vê uma diferença importante em relação a Calmy-Rey: “Ela seguia uma visão relativamente clara de política externa, que colocava em prática com grande determinação.”
Por isso, é fundamental distinguir entre a personalidade e o desempenho efetivo na política externa. Afinal, um ministro das Relações Exteriores pode ser muito ativo internacionalmente mesmo sem grandes aparições públicas. “Didier Burkhalter demonstrou isso especialmente durante a presidência suíça da OSCE em 2014”, avalia Vatter.
Sua conclusão: as personalidades muito diferentes dos ministros das Relações Exteriores marcam, acima de tudo, o estilo, a visibilidade e as prioridades políticas da política externa suíça. “O que mudou, especialmente desde Calmy-Rey, é a disposição de assumir esse papel de mediador de forma proativa e com impacto público.”
Adaptação: Fernando Hirschy
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