The Swiss voice in the world since 1935

Digitalização cresce, mas suíços resistem ao fim do dinheiro

dinheiro
O uso de dinheiro em espécie está a diminuir significativamente na Suíça, mas a população não quer que ele desapareça. Keystone / Gaetan Bally

Mesmo com a rápida digitalização dos pagamentos e o avanço de aplicativos como o Twint, os suíços resistem ao fim do dinheiro vivo. Em 8 de março de 2026, o país decidiráLink externo em referendo se incluirá o direito ao uso de papel-moeda na Constituição.

Apesar, ou talvez precisamente por causa, da tendência ao desaparecimento das moedas e das notas, os suíços votarão no início de março sobre a inscrição do dinheiro em espécie em sua Constituição.

Mostrar mais

Impulsionada por um grupo de cidadãos que já havia se tornado conhecido por sua oposição à obrigatoriedade da vacinação, a iniciativa popular pretende garantir que o papel-moeda continue sempre acessível e disponível em quantidades suficientes no futuro.

Ela se baseia na ideia de que o dinheiro em espécie oferece segurança diante de diversos riscos percebidos como inerentes à digitalização das transações (falhas técnicas, ataques hackers, vigilância dos fluxos financeiros). As pesquisas indicam que o “sim” tem grandes chances de vencer, embora o uso do dinheiro vivo venha regredido fortemente no país nos últimos anos.

Recuo do dinheiro vivo

Ainda há uma década, não era raro, na Suíça, as pessoas terem de sair correndo para sacar dinheiro no caixa eletrônico a fim de pagar compras em estabelecimentos que não aceitavam cartão bancário. Essa época parece definitivamente superada.

Em 2017, mais de 7 em cada 10 transações em pontos de venda eram pagas em dinheiro vivo na Suíça, segundo um estudo do Banco Nacional SuíçoLink externo (BNS). Cinco anos e uma pandemia depois, essa proporção havia caído para menos de 4 em cada 10, mas o dinheiro ainda era o meio de pagamento mais utilizado pela população.

Hoje, isso já não é mais verdade. Em 2024, destronado pelo cartão bancário, o dinheiro em espécie representava apenas 30% dos pagamentos presenciais – proporção que cai para 27% quando se consideram todas as transações (ou seja, também as compras on-line e os pagamentos entre particulares).

Conteúdo externo

Na zona do euro, o uso do dinheiro vivo também recuou, mas em menor grau. Os pagamentos em espécie, que representavam quase oito em cada dez transações em 2016, ainda correspondiam a mais da metade do total das operações em 2024, segundo um estudo do Banco Central Europeu (BCELink externo). No mesmo período, a participação das transações com cartão bancário dobrou.

Os aplicativos móveis, por sua vez, responderam por apenas 6% do total das transações na União Europeia, enquanto, na Suíça, essa modalidade de pagamento experimentou um crescimento fulgurante em poucos anos, impulsionada principalmente pelo aplicativo Twint.

Conteúdo externo

Hoje, uma em cada cinco transações na Suíça é realizada por meio de aplicativos de pagamento. Nenhum outro país da Zona do EuroLink externo atinge esse nível, com exceção dos Países Baixos.

Isso explica, em grande parte, por que a Suíça figuraLink externo atualmente entre os países europeus que menos utilizam dinheiro vivo. Fora da Europa, Hong Kong, Austrália e China também estão muito avançados nesse processo.

É importante ressaltar que nem a Suécia nem a Noruega foram incluídas no estudo do BCE, uma vez que não fazem parte da Zona do Euro. No entanto, são de longe os países europeus onde os pagamentos são mais desmaterializados.

Em um estudoLink externo do Banco Central da Suécia publicado em 2024, 10% dos entrevistados afirmaram ter pago sua última compra em loja com dinheiro vivo. Já a população norueguesa praticamente não paga mais em dinheiro: apenas 2% das compras em lojas físicas foram pagas em dinheiro no país em 2024, segundoLink externo o Banco Central Norueguês.*

Conteúdo externo

Tendência global

A tendência à desmaterialização dos pagamentos é observada em todo o mundo. Segundo uma pesquisaLink externo da empresa de consultoria McKinsey publicado em 2024, o uso do dinheiro vivo em escala global situa-se hoje em 80% do nível de 2019 e continua a cair cerca de quatro pontos percentuais ao ano.

Entre 2014 e 2024, a proporção de adultos que afirmam realizar ou receber pagamentos por meios digitais praticamente triplicou nos países de baixa renda (de 13% para 37%) e dobrou nos de renda média (de 24% para 47%), de acordo com o Global FindexLink externo do Banco Mundial.

Nos países ricos, a maioria da população já ultrapassou essa fase há vários anos. Muitos deles se encontram agora na etapa seguinte: a transiçãoLink externo para ambientes cash-lite (nos quais o dinheiro vivo é marginal) e até cashless (sem dinheiro vivo), segundo a OCDE. É o caso da Suíça, onde cada vez mais restaurantes recusam pagamentos em espécie e onde pulseiras pré-pagas servem como único meio de pagamento em numerosos festivais.

Futuro sem moeda

Em 2024, o site de informações financeiras norueguês FinansplassenLink externo analisou o grau de preparação das infraestruturas dos países europeus para um futuro sem dinheiro em espécie. Os países que obtêm as pontuações mais altas (no caso, os países nórdicos) contam com maior número de terminais para pagamentos eletrônicos, menos caixas eletrônicos (sinal de menor dependência do dinheiro em espécie) e uma elevada proporção de pessoas que recorrem a serviços bancários on-line.

A Suíça ocupa a 10ª posição entre os 45 países considerados. É sua densidade ainda relativamente elevada de caixas eletrônicos que a faz recuar no ranking.

Conteúdo externo

A ausência da necessidade de sacar e transportar dinheiro vivo, bem como a rapidez e a simplicidade de uso, são, em geral, os principais motivos alegados por quem privilegia os pagamentos desmaterializados.

Em escala macro, o fim do dinheiro vivo é visto por alguns como um meio de combater a lavagem de dinheiro e o financiamento de atividades ilícitas. Esse foi, por exemplo, o argumento invocado em 2016 pelo principal banco da NoruegaLink externo para preconizar o abandono total do uso de dinheiro em espécie.

Ainda na primavera passada, o ministro da Justiça francês, Gérald Darmanin, causou grande repercussão com uma propostaLink externo que ia nesse sentido.

Valor-refúgio para os suíços

Mas isso não leva em conta o fato de que muitas pessoas continuam apegadas às cédulas e se recusam a vê-las desaparecer. Na Suíça, a generalização do “100% cashless” às vezes provoca reaçõesLink externo de desagrado. Ainda segundo o estudo do BNS, cerca de 7 em cada 10 pessoas declaram que desejam continuar a usar dinheiro em espécie no futuro. Uma proporção que sobe para quase 85% entre os maiores de 55 anos, e que aumentou nos últimos dois anos.

Mostrar mais
Pessoa com moedas e uma carteira na mão

Mostrar mais

Suíços do estrangeiro

Pela primeira vez, pagamentos digitais superam o dinheiro vivo

Este conteúdo foi publicado em Pela 1ª vez, pagamentos digitais superam o uso de dinheiro vivo na Suíça. O aplicativo Twint dispara, mas 95% ainda querem manter cédulas e moedas.

ler mais Pela primeira vez, pagamentos digitais superam o dinheiro vivo

Mesmo as pessoas que já não usam mais dinheiro vivo desejam que ele permaneça acessível. Apenas 4% dos entrevistados e entrevistadas são favoráveis à sua supressão.

Conteúdo externo

Esse apego dos suíços ao dinheiro em espécie mostra-se muito mais acentuado do que no restante da Europa: quase dois terços das pessoas consultadas na pesquisa do BCE consideram importante manter a possibilidade de pagar em dinheiro vivo; 12% não atribuem nenhuma importância a isso.

Na zona do euro, as pessoas que preferem fazer seus pagamentos em dinheiro vivo invocam principalmente o anonimato e a proteção da vida privada. O argumento da segurança aparece apenas em sétimo lugar. Na Suíça, ao contrário, a segurança é o segundo principal fator (citado por quase 40% dos entrevistados), logo após o controle dos gastos.

Recomendação de pagar em espécie

A segurança do dinheiro em espécie, contudo, vem sendo cada vez mais destacada pelas autoridades europeias, a começar pelas dos países escandinavos, que até pouco tempo atrás defendiam o advento de uma sociedade “cashless”.

No contexto do aumento da criminalidade cibernética e da guerra híbrida conduzida pela Rússia, a Suécia e a Noruega emitiram no ano passado a recomendação de pagar mais em espécie e de constituir reservas, a fim de poder enfrentar eventuais falhas do sistema, escreveuLink externo o The Guardian.

Mantenha a calma e tenha dinheiro vivoLink externo“: essa foi também a recomendação feita em setembro passado pelo BCE. O banco central aconselha os cidadãos e cidadãs da União Europeia a disporem de 70 a 100 euros (entre 65 e 90 francos) em espécie por pessoa, para que possam continuar a pagar suas despesas essenciais em caso de grande apagão, ciberataque ou crise sanitária.

A notaLink externo da OCDE dedicada ao tema destaca ainda que o desaparecimento do dinheiro em espécie pode fragilizar e excluir certas categorias da população para as quais ele é indispensável, sobretudo pessoas com deficiência, em dificuldades financeiras e aquelas que não dominam as ferramentas digitais.

Atualmente, o montante mediano de dinheiro em espécie nas carteiras da União Europeia é de 59 euros. O valor é mais baixo em países altamente digitalizados, como os Países Baixos (35 euros) e a Finlândia (47 euros). A Suíça situa-se na média europeia, com um montante mediano de 50 francos suíços, segundo o Monitor Suíço de PagamentosLink externo – que precisa que sua amostra inclui valores individuais bem mais elevados.

Os suíços, por outro lado, são mais propensos a manter uma reserva em casa: 60% declaram guardar dinheiro em geral no domicílio. Trata-se de uma proporção claramente superior à de todos os países da zona do euro (apenas a Eslováquia se aproxima, com 57%), onde, em média, um terço da população dispõe de reservas de dinheiro em espécie. 700 francos: é esse, em média, o montante escondido nas gavetas helvéticas.

* Nota: o artigo foi atualizado em 18 de fevereiro de 2026 para esclarecer que a Noruega e a Suécia são, de longe, os países europeus que menos utilizam dinheiro em espécie. Eles não constam na classificação do BCE, pois não fazem parte da zona do euro.

Edição: Samuel Jaberg

Adaptação: Karleno Bocarro

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR