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Como a Suíça está adiando a implementação de novas regras climáticas

aeronaves no Aeroporto de Kloten
O setor do turismo dispõe agora de mais tempo para implementar as novas diretrizes. Gaetan Bally / Keystone

Há pouco mais de um ano, uma nova legislação climática entrou em vigor, com alterações aprovadas na Lei do Carbono (CO2) e na Lei do Clima e da Inovação. No entanto, o lobby e a pressão para adiar as obrigações estão dificultando a implementação da legislação na Suíça. Confira a análise.

Desde 1º de janeiro, todas Link externoas passagens aéreas de Zurique para Los AngelesLink externo deveriam mostrar o valor de “1,9 toneladas” de carbono emitidas impresso em cada bilhete. Isso porque, de acordo com o Artigo 7aLink externo da Lei do CO2 revisada, as companhias aéreas agora são obrigadas a declarar toda a quantidade de CO2 emitida por cada voo.

De acordo com a Portaria sobre CO2, que regula a Lei do CO2, essa seria uma obrigação das empresas aéreas desde primeiro de janeiro de 2026. No entanto, qualquer passageiro para Los Angeles que resolva procurar essa informação não vai  encontrar nenhuma menção ao carbono na sua passagem. Se seria obrigatório, como é possível que as empresas não estejam cumprindo?

Alex Tiefenbacher estudou ciências ambientais e filosofia no Instituto Federal de Tecnologia (ETH) de Zurique. É autora de artigos e jornalista freelancer, especializada na cobertura da legislação climática suíça, com publicações em diversos meios de comunicação. Em 2022, cofundou a Rede de Jornalismo Climático da Suíça. Ela também é filiada ao Partido Verde da Suíça.

Sucesso do lobby da indústria de viagens

Em 2025, o órgão executivo do governo suíço, o Conselho Federal, revisou a Portaria sobre CO2. O Link externorelatórioLink externo sobre a revisão afirma que: “Como a indústria de viagens trabalha com horizontes de planejamento de longo prazo e requer um prazo de preparação adequado, o início da implementação será adiado por um ano.”

O lobby da indústria de viagens claramente deu frutos. André Lüthi, diretor da agência de viagens Globetrotter, e Martin Wittwer, presidente da Associação Suíça de Viagens, viajaram para Berna especificamente em busca disto. Link externoSegundo a indústriaLink externo, não existem métodos de cálculo padronizados e internacionalmente reconhecidos para a implementação da declaração da quantidade de carbono. O argumento é surpreendente, já que os dados de emissão de CO2 para voos estão disponíveis há décadas em portais como o myClimate, onde com apenas alguns cliques você pode consultar quanto emite em cada trajeto.

A informação impressa nas passagens aumentaria a conscientização sobre as emissões. Na Suíça, cerca de um terço das emissões de cada cidadão é causado nas férias, sendo que cerca de metade desse volume é emitido nas viagens aéreas. Em comparação com outros países, durante as férias os suíços emitem a mesma quantidade de CO2 por pessoa que uma pessoa média emite durante todo o ano, de acordo com um estudo publicado na revista Link externoNatureLink externo. Entre os 170 países pesquisados, a Suíça ficou em sétimo lugar em termos de emissões relacionadas a férias.

Procrastinação em todos os setores

As táticas de adiamento da indústria de viagens poderiam passar despercebidas se fossem um caso isolado. De fato, isso pode não parecer grande coisa quando visto da perspectiva de um único setor. No entanto, um olhar mais amplo mostra que, no ano passado, a Lei do CO2 foi enfraquecida em todos os setores.

De acordo com o Instituto Federal de Estatística, cerca de 80% dos destinos para os quais se voa a partir da Suíça estão na Europa – e, portanto, em teoria, também podem ser alcançados de trem. É por isso que, ao revisar a Lei do CO2, o parlamento decidiu investir na expansão da rede de trens.

Desde o início de 2025, o Artigo 37aLink externo prevê explicitamente o financiamento para “o transporte ferroviário de passageiros de longa distância transfronteiriço e, em particular, para promover trens noturnos”. A Companhia Ferroviária Federal Suíça começou, portanto, a planejar uma nova rota de trem noturno de Zurique, passando por Hamburgo e Copenhague, até Malmö. Os primeiros bilhetes foram vendidos.

No entanto, as viagens de trem noturno para o norte da Europa não vão mais acontecer, porque o parlamento não aprovou o financiamento durante as discussões sobre orçamento, em dezembro de 2025. A companhia ferroviária teve, portanto, que cancelar a venda de bilhetesLink externo e reembolsar o dinheiro dos clientes.

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Redução de emissões

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Enquanto as emissões do setor de transportes diminuíram apenas 8% desde 1990, no setor da construção civil elas Link externocaíram quase 46%Link externo. Esse sucesso deve-se principalmente ao alto custo gerado pelas emissões de aquecimento cobrado na taxa de CO2 e pelo ao programa de edificações, também regulamentado na Lei do CO2, no Link externoartigo 34Link externo. Desde 2010, cerca de 500 milhões de francos suíços (636 milhões de dólares) em subsídios têm sido canalizados anualmente por meio do programa para a substituição de sistemas de aquecimento a combustíveis fósseis e para o isolamento de edifícios.

Essa história de sucesso está agora ameaçada. O ministro do Meio Ambiente, Albert Rösti, queria encerrar o programa de edifícios e Link externoretirar o Artigo 34 da Lei do CO2Link externo. Esse corte seria um dos maiores itens do pacote de economias do governo, com o qual o Conselho Federal pretende economizar cerca de CHF 3 bilhões por ano a partir de 2027. Rösti argumentou que o programa de edifícios cumpriu seu propósito, em uma Link externocoletiva de imprensaLink externo no final de 2024. Apenas algumas semanas depois, o órgão de auditoria mais alto do país, o Tribunal Federal de Contas da Suíça, publicou um Link externorelatórioLink externo sobre o programa. Ele constatou que “quase dois terços do aquecimento de ambientes e da água quente […] ainda são gerados com combustíveis fósseis”. Em outras palavras, o programa de edifícios está longe de ter cumprido sua missão. Embora o parlamento tenha agora decidido Link externofazer cortes menos drásticosLink externo do que o Conselho Federal pretendia, o financiamento para reformas de edifícios foi, mesmo assim, significativamente reduzido.

As empresas também foram aliviadas de responsabilidades. O Artigo 66aLink externo da Portaria sobre CO2 estabelecia a meta mínima de redução de 2,25% nas emissões de CO2, por ano, para certas empresas. Em geral, na Suíça, é cobrado o imposto de carbono de CHF 120 por tonelada de emissões provenientes de combustíveis fósseis. Algumas empresas, no entanto, estão isentas do pagamento deste imposto. Em troca, elas têm um chamado acordo de metas com o governo federal — uma espécie de contrato que especifica quais medidas de proteção climática as empresas devem implementar para ficarem isentas da taxa de CO2. Antes de 2025, esses contratos não incluíam uma exigência de redução mínima, o que não forçaria a empresa a buscar reduzir suas emissões. Mas no ano passado, a meta de 2,25% foi estabelecida, como um passo na direção certa.  

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Em 2023, os transportes representavam 43% das emissões de CO2 da Suíça (não incluindo a aviação). Entre 1990 e 2023, as emissões de CO2 provenientes dos transportes registaram uma redução de 7%.

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Mas esse passo está agora sendo revertido, apenas um ano depois. A partir de 2026, certas empresas industriais poderão novamente solicitar taxas de redução mais brandas. Segundo o governoLink externo, a mudança é uma medida de alívio “em resposta às novas tarifas adicionais de 39% impostas às importações suíças para os Estados Unidos a partir de 7 de agosto de 2025”. O fato de as tarifas americanas terem sido reduzidas desde então não altera o fato de que essa isenção está agora consagrada na lei. Também neste caso, a indústria parece ter obtido uma vitória com seu lobby.

Falta de regras detalhadas e iniciativa fracassada

A implementação da segunda lei climática fundamental da Suíça, a Lei do Clima e da Inovação, também não tem sido fácil. Dois artigos da lei ainda não foram traduzidos em regras claras.

O primeiro deles é Link externoo Artigo 10Link externo, relativo ao papel do governo como modelo. Órgãos federais e empresas estatais ou controladas pelo Estado devem dar o exemplo e reduzir suas emissões a zero antes do resto da Suíça. Regras detalhadas para isso estão Link externosendo elaboradasLink externo  só Link externoagoraLink externo. Em seguida, há Link externoo Artigo 9Link externo sobre o setor financeiro que estabelece que “o governo federal deve garantir que o centro financeiro suíço contribua efetivamente para um desenvolvimento de baixas emissões e de resiliência às mudanças climáticas”. No entanto, a legislação suíça ainda não contém regulamentações climáticas para as instituições financeiras suíças. Tudo o que existe é uma pesquisa voluntária e anônima. O Conselho Federal justificou sua inércia alegando que não recebeu um mandato claro do parlamento, já que o Artigo 9º se refere ao Link externogoverno federal, e não ao Conselho FederalLink externo.

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A Suíça é um país pequeno. Em escala global, suas emissões parecem insignificantes. No entanto, as toneladas de CO2 geradas na esfera de influência do centro financeiro suíço são muitas vezes maiores. De acordo com um estudo da consultoria Link externoMcKinseyLink externo, essas emissões equivalem a cerca de seis a nove vezes as geradas diretamente em solo suíço.

“Da forma como as coisas estão hoje, posso garantir que não atingiremos nossas metas climáticas para 2030 – e por uma grande margem.” Declara, não uma organização ambientalista, mas do principal responsável pelo clima da Suíça, Reto Burkard, vice-diretor do Escritório Federal do Meio Ambiente e chefe do setor climático.

A Lei do Clima e da Inovação foi aprovada em uma votação nacional no verão de 2023 por uma maioria muito clara de quase 60%. Por outro lado, a Iniciativa do Fundo Climático, submetida ao voto dos eleitores em 8 de março de 2026, teve um destino bem diferente. A iniciativa propunha que a Suíça investisse entre 3,9 e 7,7 bilhões de francos suíços por ano para impulsionar a transformação ecológica do país. A proposta foi rejeitada por quase 71% dos eleitores.

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Edição: Veronica De Vore/fh
Adaptação:Clarissa Levy

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