Foguete europeu fracassa em seu primeiro voo comercial
O foguete europeu Vega-C, que deveria fazer seu primeiro voo comercial, desapareceu nesta terça-feira (20) com dois satélites Airbus a bordo, logo após dar início, a partir da Guiana Francesa, ao seu primeiro voo comercial, o que representa um novo revés para a indústria espacial europeia.
O fracasso pode levar ao abandono do Vega-C, o que deixaria no curto prazo a Europa sem condições de colocar satélites em órbita, após os atrasos nos foguetes Ariane 6 e o cancelamento da cooperação com a Rússia devido à guerra na Ucrânia.
Uma nova missão para o foguete Vega-C ficará parada em solo até que uma comissão de investigação independente determine “a causa da falha e proponha ações corretivas sólidas e duradouras para garantir um voo seguro e confiável” do mesmo, anunciou em Moscou o presidente da Arianespace, Stéphane Israel.
A Europa não dispõe no momento de meios próprios para lançar seus satélites antes do primeiro voo do Ariane 6, previsto para o quarto trimestre de 2023, ou da retomada dos voos do Vega-C.
Dois minutos e 24 segundos após o lançamento, às 22h47 locais, o foguete se desviou da rota prevista, e, em seguida, os dados pararam de chegar à sala de controle do Centro Espacial de Kourou.
Lançado sobre o Oceano Atlântico, o Vega-C chegou a superar 100 km de altitude e a se situar pouco mais de 750 km ao norte de Kourou. A ordem para a sua destruição foi dada pela agência espacial francesa, e os destroços caíram no mar.
“Nenhum dano a pessoas ou bens foi constatado”, destacou a Arianespace, responsável pela exploração dos lançadores europeus.
Segundo Pierre-Yves Tissier, diretor técnico da empresa, “a falha parece limitada ao Zefiro 40”, segunda etapa do foguete, construído pela fabricante italiana Avio. “Assumimos plenamente a responsabilidade por esse fracasso do Vega-C”, declarou o presidente da fabricante, Giulio Ranzo.
– Exercícios complexos –
O foguete levava dois satélites de observação da Terra fabricados pela Airbus, o Pleiades Neo 5 e 6, que se somariam a uma rede capaz de capturar imagens de alta qualidade de qualquer ponto do globo várias vezes ao dia.
Apesar dos lançamentos numerosos de foguetes espaciais nos últimos anos, principalmente sob o impulso da americana Space X, o fracasso europeu ressalta a sua complexidade.
“Sinto muito por ouvir isso. É um lembrete duro da dificuldade dos voos espaciais orbitais”, tuitou Elon Musk, chefe da SpaceX. “É muito mais complicado do que a maioria das pessoas pensa”, ressaltou Peter Beck, chefe do minilançador Rocket Lab.
A falha representa um grande revés para a gigante europeia, que havia investido recursos próprios nesse programa, cujos serviços foram vendidos tanto para empresas quanto para forças armadas.
Os satélites responsáveis por uma receita comercial geralmente são segurados. Segundo um especialista, Os satélites Pleiades Neo 5 e 6 estavam cobertos por um consórcio de seguradoras no valor de 220 milhões de euros, o que permite que a Airbus volte a fabricá-los, se assim decidir. Procurada pela AFP, a empresa não quis comentar o assunto.
– Duro revés –
A perda desses satélites também representa uma má notícia para os exércitos, principalmente o francês, cliente das imagens de alta resolução proporcionadas por essa constelação da Airbus para monitorar, principalmente, a situação na Ucrânia. O satélite militar francês de observação CSO-3 ainda não pôde ser lançado devido à falta de disponibilidade dos Soyuz e Ariane 6.
Programado originalmente para 24 de novembro, o voo desta terça-feira foi adiado por quase um mês devido a um elemento de lançamento defeituoso.
O Vega-C é considerado um precursor menor do futuro Ariane 6, com o qual a Agência Espacial Europeia (ESA) conta para ganhar competitividade no mercado dinâmico de satélites.
O novo fracasso representa um golpe para a ESA, responsável pelos programas de lançadores europeus, em um contexto de disputa global acirrada no setor, liderada pela SpaceX.