ONG tenta convencer chefes de guerra a poupar civis
À frente do Apelo de Genebra desde 2017, Alain Délétroz negocia com grupos armados para proteger civis e fazer respeitar as regras da guerra. Em conflitos como Gaza, Ucrânia e Sudão, aposta na neutralidade, no diálogo e na "centelha de humanidade".
Entrar em contato com os grupos armados mais sanguinários do planeta, a fim de sensibilizá-los quanto às regras da guerra. Seu ofício é insólito, mas, com seus imponentes 1,90 metro de altura, Alain Délétroz tem o físico para isso. Por trás de seu olhar intenso, que impõe atenção, escondem-se, contudo, um humanismo e uma sensibilidade que sua voz, calma e pausada, revela ainda mais rapidamente que sua afabilidade. Porque esse valaisano que percorreu o mundo não esqueceu suas origens: recebe-nos com um café e nos oferece quadradinhos de chocolate, suíço, é claro.
Quando lhe perguntamos o que o levou, em 2017, a aceitar o cargo, o diretor do Apelo de GenebraLink externo responde: “Desde muito jovem, sinto-me atraído por aquilo que faz com que o ser humano continue humano, mesmo nas piores situações.” É, aliás, essa “fé na humanidade”, inabalável e herdada de sua infância em uma “família católica em Ayent”, que o impeliu a ingressar no trabalho humanitário. Uma carreira que iniciou em 1994, como delegado do Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) em Moscou.
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“O que me marcou em meus diferentes trabalhos, sobretudo durante meus primeiros anos como jovem delegado, foi perceber que essa centelha de humanidade pode ser reencontrada no coração de pessoas que cometeram os piores crimes”, explica. E acrescenta: “Na verdade, é justamente nisso que trabalha o Apelo de Genebra.”
Ao buscar sensibilizar os grupos armados para as Convenções de Genebra, a ONG visava originalmente preencher uma lacuna no setor humanitário. Um quarto de século depois, o Apelo de Genebra se consolidou como um ator indispensável da Genebra internacional. É também um dos mais discretos, embora Alain Délétroz aceite levantar uma ponta do véu.
Centelha de humanidade
Hoje, o Apelo de Genebra mantém contato com mais de 200 grupos espalhados pelos quatro cantos do mundo. Abordá-los e conquistar sua confiança exige um excelente conhecimento do terreno, razão pela qual a organização vem desenvolvendo, há dez anos, uma rede de escritórios internacionais.
“Já não são os funcionários da sede em Genebra que desembarcam de um avião para iniciar o diálogo. Nossos colaboradores no local fazem esse trabalho”, explica Alain Délétroz. Ele se desloca mais tarde, quando surge a oportunidade de encontrar comandantes de alto escalão.
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Como faz, então, para convencer chefes de guerra, com os quais, a priori, não compartilha nada, a respeitar um direito internacional humanitário (DIH) que lhes é estranho? “O puro argumento jurídico, por si só, não basta para obter uma mudança de comportamento de grupos armados que cometeram, às vezes durante anos, graves atos de violência contra populações civis”, esclarece de imediato. “É preciso encontrar outra coisa.”
Essa “outra coisa” é precisamente a “centelha de humanidade” que Alain Délétroz evoca desde o início de nosso encontro. “É preciso tentar encontrar aquilo que, em seu código mental ou em sua ideologia, permita tecer laços”, explica, acrescentando que “não existe uma receita”.
É fácil imaginar que seu domínio de idiomas, entre os quais o russo e o quíchua, aprendido na juventude com indígenas peruanos, seja uma vantagem. Sua fé profunda, que cultiva desde sempre e que foi particularmente alimentada durante um seminário de dois anos na congregação clerical missionária dos Espiritanos, em Paris, também desempenha um papel importante.
Como Alain Délétroz ressalta, os aspectos culturais e religiosos ocupam um lugar importante entre esses grupos que, invariavelmente, defendem “uma causa”. “Se você questiona essa causa, acabou. Evidentemente, quando chego a determinados conflitos, como cidadão, custa-me aceitar que a causa deles possa ser justa”, confessa. Mas a neutralidade humanitária permite que ele deixe de lado as considerações políticas. “Não discutimos as razões pelas quais as pessoas lutam, mas a maneira como lutam e sua responsabilidade para com as populações civis”, acrescenta, em tom solene.
Assim, às vezes ocorrem interações que, para um observador externo, poderiam surpreender, ou até chocar. “Recentemente, estava ao telefone discutindo uma questão delicada com um comandante que dificilmente poderia ser qualificado de homem afável. No fim da conversa, ele me disse: você e eu compartilhamos os mesmos valores”, deixa escapar Alain Délétroz, com um riso constrangido. Mas falar com todos é exatamente o seu trabalho.
Quando fala de suas numerosas viagens a zonas de guerra, que recentemente o levaram à República Democrática do Congo (RDC) e em breve o levarão à Ucrânia e ao Oriente Médio, o diretor evita cuidadosamente nomear seus interlocutores. Isso, porém, não o impede de adotar uma franqueza bastante rara no mundo geralmente discreto da Genebra internacional.
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Erosão do direito humanitário
A missão do Apelo de Genebra talvez nunca tenha sido tão difícil quanto hoje. Pois como convencer grupos armados a respeitar as Convenções de Genebra quando os próprios Estados que as adotaram não o fazem? “Nenhum exército nacional envolvido em combate se comporta corretamente”, constata Alain Délétroz, com amargura. Ele lamenta “uma erosão generalizada do direito internacional humanitário”, da Ucrânia a Gaza, passando pelo Sudão.
“Desde os bombardeios israelenses em Gaza, vários comandantes de grupos armados do Oriente Médio nos disseram muito claramente: não nos falem mais das Convenções de Genebra. Se um horror desses pode acontecer diante dos nossos olhos sem que ninguém se comova, então por que deveríamos respeitar essas regras?”, confidencia Alain Délétroz.
Suas equipes precisam então buscar outros referenciais, nos códigos de conduta de outras milícias ou em textos religiosos que prescrevem regras semelhantes. “Ao contrário do que se poderia pensar, a grande maioria dos grupos quer continuar o diálogo”, faz questão de esclarecer Alain Délétroz. Ele reconhece, contudo, que não é possível estabelecê-lo com alguns grupos, sobretudo jihadistas, que o recusam.
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De seu escritório, com vista para a Praça das Nações, Alain Délétroz também acompanha a evolução dos conflitos. “A maior mudança dos últimos dez anos é o espaço do mapa-múndi que os grupos armados controlam”, afirma. Esse espaço se ampliou consideravelmente e hoje engloba mais de 200 milhões de pessoas. Algumas milícias tornaram-se “autoridades de facto”, administrando territórios inteiros.
Uma evolução que também transformou o trabalho de sua organização, cujo orçamento anual gira em torno de 20 milhões de francos. “No início, trabalhávamos essencialmente sobre o comportamento dos combatentes. Hoje, também oferecemos treinamentos para a gestão e a proteção das populações civis.”
Manter a esperança
Depois de quase dez anos no cargo, perguntamos a Alain Délétroz se também guarda algum arrependimento. O diretor reflete por um instante. “Quando vi as imagens de 7 de outubro, pensei que havíamos cometido um erro ao não dialogar com o Hamas. Pois nenhum dos grupos com os quais trabalhamos hoje executa civis a golpes de ferramentas de jardinagem”, murmura. O Apelo de Genebra nunca havia abordado o movimento palestino, porque muitos atores humanitários já estavam presentes no Oriente Médio. A organização havia, assim, escolhido concentrar seus esforços em outros conflitos, sobretudo na África.
Aos 62 anos, e apesar da erosão do direito internacional, da deterioração do contexto de segurança e da crise que atinge o setor humanitário, esse pai de dois filhos e três filhas se recusa a ceder ao pessimismo. “O que me motiva é ver pessoas que antes cometiam crimes mudarem de comportamento, instituírem regras para suas tropas e punirem as violações. É isso que nos dá força para continuar.”
Edição: Samuel Jaberg
Adaptação: Karleno Bocarro
Este perfil é o primeiro de uma série dedicada às personalidades que encarnam as tendências que hoje moldam a Genebra internacional. O próximo episódio traçará o perfil de Alain Werner, diretor da Civitas Maxima, uma ONG que rastreia criminosos de guerra a partir de Genebra, em uma época em que a justiça internacional está sob pressão.
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