The Swiss voice in the world since 1935

Startup de Basileia aposta em cobre para diagnosticar câncer  

Diretor Executivo
Na qualidade de diretora executiva, Leila dedica-se à estratégia internacional da Nuclidium e ao seu principal objetivo: melhorar a disponibilidade e a acessibilidade dos radiofármacos no diagnóstico e no tratamento do cancro a nível mundial. Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

A startup suíça Nuclidium levantou mais de 100 milhões de francos para avançar no desenvolvimento de radiofármacos à base de cobre capazes de diagnosticar e tratar cânceres como os de próstata e mama metastáticos.

A Nuclidium poderá se tornar a Novartis do futuro? Essa é certamente a esperança dos investidores que acabam de injetar mais de 100 milhões de francos suíços nessa promissora startup de biotecnologia sediada em Basileia. Fundada em 2021, a Nuclidium é pioneira no desenvolvimento de radiofármacos à base de cobre para o diagnóstico e o tratamento de vários tipos de câncer, entre eles o câncer de próstata e o de mama metastáticos.

Os radiofármacos à base de cobre são considerados um avanço importante porque podem melhorar tanto a detecção quanto o tratamento do câncer por meio do uso de um par correspondente de isótopos de cobre. Isso permite uma verdadeira abordagem “teranóstica”: diagnosticar o câncer e, em seguida, tratar o mesmo alvo com um medicamento relacionado.

Essa abordagem ajuda os médicos a selecionar os pacientes com maior probabilidade de se beneficiar do tratamento e a estimar a dose de radiação que atinge os tumores e aos tecidos saudáveis.

O mercado potencial é enorme. Segundo a empresa, somente o mercado americano de diagnóstico e tratamento do câncer de próstata metastático poderia exceder US$ 50 bilhões por ano – um valor comparável às vendas anuais globais da gigante farmacêutica suíça Novartis.

Apesar desse início promissor, Leila Jaafar, CEO da Nuclidium, de 51 anos, ressalta que a empresa ainda tem um longo caminho a percorrer antes que seus produtos cheguem ao mercado e que, antes de tudo, os ensaios clínicos conclusivos precisam vir primeiro.

Entrevista com a Leila 1
Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Como cidadã alemã de origem malaia, por que decidiu estabelecer a Nuclidium em Basileia, na Suíça?

Leila Jaafar: Por razões históricas. Até 2016, fui diretora de programas na Areva, um grande grupo industrial multinacional francês especializado em energia nuclear e no setor energético. Eu era responsável pela produção de radionuclídeos [átomos com núcleos instáveis que liberam energia excedente sob a forma de radiação], e um de nossos principais clientes era a usina nuclear de Gösgen, no cantão de Soleura, na Suíça.

Ainda no mesmo setor, posteriormente fundei a Swiss Nuclides, uma empresa de consultoria sediada no cantão de Argóvia, voltada ao desenvolvimento de radiofármacos à base de cobre, bem como de terapias e diagnósticos voltados ao tratamento de diversos tipos de tumores sólidos, como o câncer de próstata e o câncer de mama.

Em seguida, fundei a Nuclidium, em Basileia, em 2021, com investimentos iniciais do Hospital Cantonal de Baden-Baden e da Alpiq, uma empresa suíça do setor energético. Escolhemos Basileia porque nossos primeiros ensaios clínicos foram realizados na Universidade de Basileia.

Swissinfo: O que Basileia oferecia a senhora?

L.J.: O ecossistema regional em nossa área é excepcionalmente forte. O Instituto Paul Scherrer, por exemplo, no cantão de Argóvia, é pioneiro no campo dos radiofármacos e em seu desenvolvimento. A região de Basileia também abriga importantes clientes e parceiros potenciais. A Suíça é ainda um bom lugar para obter financiamentos iniciais. No nosso caso, recebemos apoio financeiro de organizações como a Innosuisse; essa agência governamental também nos orientou na elaboração de um plano de negócios sólido.

Em seguida, captamos 10 milhões de francos suíços na primeira rodada de financiamento, a Série A, junto a um grupo de investidores abastados sediados na Suíça. Esse recurso nos permitiu realizar dois ensaios clínicos. O sucesso deles, por sua vez, nos permitiu captar mais de 100 milhões de francos suíços na segunda rodada, a Série B, em 2025-2026.

Swissinfo: Seus investidores da Série B estão todos sediados fora da Suíça. Por que nenhum investidor suíço participou?

L.J.: Na prática, primeiro atraímos uma importante empresa europeia de capital de risco que acreditou fortemente em nossos trabalhos científicos. Essa empresa desempenhou um papel fundamental na formação de um grupo final de investidores e na atração de seus habituais co-investidores europeus. Isso, no entanto, não exclui de, no futuro, recebermos apoio financeiro do ecossistema suíço.

Swissinfo: O que torna os radiofármacos à base de cobre tão especiais? Por que isso representa um avanço médico tão importante?

L.J.: Um radionuclídeo é uma forma instável e radioativa de um elemento que libera radiação à medida que se desintegra naturalmente. Entre os exemplos de radionuclídeos estão o cobre-61 e o cobre-67.

A Nuclidium usa o cobre-61, que emite radiação detectável pelos chamados exames de PET (tomografia por emissão de pósitrons), para localizar os tumores com precisão, e o cobre-67 – que também emite radiação – para destruir esses tumores.

Swissinfo: Quem são seus principais concorrentes?

L.J.: Nossos principais concorrentes não são apenas outras empresas que desenvolvem radiofármacos em fase clínica, mas também grandes empresas farmacêuticas, como Novartis, Lilly e AstraZeneca, que atuam na mesma área de tratamento oncológico e seguem a mesma linha terapêutica.

Entrevista com a Leila 2
Vera Leysinger / SWI swissinfo.ch

Swissinfo: Qual é o tamanho de seus mercados potenciais?

L.J.: Para dar uma ideia da ordem de grandeza, se considerarmos apenas o diagnóstico e o tratamento do câncer de próstata metastático nos Estados Unidos, poderíamos razoavelmente esperar tratar 200 mil pacientes por ano. Supondo que cada paciente necessite de quatro a seis doses anuais, com cada dose ao preço de 56 mil dólares, isso representaria um mercado de aproximadamente 56 bilhões de dólares por ano. Esse mercado potencial é, portanto, significativo.

Swissinfo: A senhora cita o mercado americano porque ele é sua prioridade geográfica?

L.J.: Os Estados Unidos são um mercado estratégico de enorme valor. Muitos investidores e empresas farmacêuticas também estão sediados no país. Por essa razão, muitas startups europeias como a nossa se concentram inicialmente no mercado americano para a realização de ensaios clínicos, a obtenção de autorização para comercialização e os procedimentos de reembolso. Em uma segunda etapa, elas se voltam para os mercados europeus, que, em conjunto, têm aproximadamente o mesmo tamanho que o mercado americano.

Swissinfo: Quando espera colocar seus primeiros produtos no mercado?

L.J.: Sei que a maioria dos fundadores de startups sonha com um futuro brilhante. No nosso caso, porém, preferimos nos concentrar inteiramente em concluir com sucesso os ensaios clínicos de Fase 1 e Fase 2 de nossas primeiras soluções diagnósticas e terapêuticas. Isso significa analisar os dados dos ensaios clínicos sem fazer concessões, garantir que nossas soluções sejam seguras e não apresentem toxicidade inaceitável, demonstrar evidências iniciais de eficácia e obter informações iniciais sobre a dosimetria adequada.

Estamos inclusive dispostos a interromper o desenvolvimento de uma solução se os dados não a sustentarem. Sem essa disciplina, o risco de realizar ensaios clínicos de Fase 3 extremamente caros e, ainda assim, não obter a autorização para comercialização é grande demais.

Swissinfo: De quanto financiamento adicional a Nuclidium precisará para colocar seus primeiros produtos no mercado?

L.J.: O financiamento adicional necessário depende em grande medida do sucesso de nossos ensaios clínicos de Fase 1 e Fase 2. Dado o custo e a complexidade consideráveis da realização de ensaios clínicos de Fase 3, que sempre envolvem muitos pacientes, decidiremos no momento oportuno qual será a melhor forma de prosseguir. No entanto, como somos uma empresa relativamente pequena, uma das opções naturalmente seria estabelecer algum tipo de parceria com empresas maiores. Alternativamente, dada a nossa priorização do mercado americano, uma oferta pública inicial de ações na Nasdaq poderia ser outra opção.

gráfico
Gráfico: Kai Reusser, Swissinfo

Swissinfo: Levando em conta o foco da empresa no mercado americano, a Nuclidium cogita transferir para os Estados Unidos o centro de suas operações?

L.J.: De modo algum. Atualmente, a cadeia de fornecimento de radiofármacos está concentrada nos Estados Unidos e no Canadá, enquanto a Europa e a Suíça continuam sendo mercados relativamente pouco desenvolvidos. Vemos uma oportunidade de negócios no desenvolvimento dessa cadeia de fornecimento na Europa, particularmente na Suíça, e em usá-la para atender aos mercados globais. É importante lembrar que os radiofármacos têm uma longa tradição na Suíça, que tem ampla expertise nessa área.

Swissinfo: A formação da senhora é predominantemente científica. Quais são os desafios que enfrenta ao dirigir uma empresa?

L.J.: Sei muito bem que, em geral, as empresas fracassam não por falta de boa ciência, mas por falta de visão empresarial. Felizmente, desenvolvi essa capacidade ao cofundar duas outras empresas e ao longo dos meus seis anos na Areva, onde inicialmente trabalhei como líder técnica e, posteriormente, como gerente de programas, com responsabilidade sobre lucros e perdas.

Swissinfo: Seu sucesso depende da contratação de pessoas certas. Como convencer candidatos de alto nível a ingressar em uma startup como a Nuclidium em vez de uma empresa já consolidada?

L.J.: Ressalto que, em uma startup como a nossa, cada funcionário – inclusive os que estão no início da carreira – pode ter um impacto considerável, por exemplo, em nossos ensaios clínicos e, em última instância, na vida dos pacientes. Em grandes empresas já estabelecidas, os funcionários geralmente recebem tarefas muito específicas. Independentemente de quanto ganhem, eles não conseguem ter a mesma amplitude de impacto. Em nossa área, também competimos com os melhores, o que é uma fonte de motivação e orgulho para todos os nossos funcionários.

Swissinfo: Quais são os principais desafios daqui para a frente?

L.J.: O desafio imediato continua sendo a cadeia de suprimentos. Precisamos de acesso confiável a radionuclídeos, capacidade de produção suficiente e entrega pontual aos pacientes que participam dos ensaios clínicos.

Em um sentido mais fundamental, nosso desafio continua sendo demonstrar a eficácia clínica e a utilidade clínica. Precisamos comprovar que nossos produtos são eficazes e suficientemente seguros, e mostrar como eles melhoram as decisões terapêuticas e os resultados para os pacientes na prática clínica.

Biografia

Desde 2021: fundadora, CEO e membro do conselho de administração da Nuclidium

2016–2022: fundadora e CEO da Swiss Nuclides

2010–2016: ocupou diversos cargos na Areva

Formação acadêmica

2006–2009: doutorado em Biofísica pela Universidade Friedrich-Alexander de Erlangen-Nuremberg e pela Escola Internacional de Pós-Graduação Max Planck para a Física da Luz.

Edição: Virginie Mangin/gw

Adaptação: Karleno Bocarro

Mais lidos

Os mais discutidos

Preferir a Swissinfo no Google

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR