O que se sabe sobre a morte de Khamenei
O ataque que matou o líder supremo do Irã, Ali Khamenei, em 28 de fevereiro – aparentemente graças à invasão de câmeras de vigilância de Teerã – pode vir a ser estudado “em escolas militares de todo o mundo”, afirmam alguns analistas que consideram a operação um exemplo de precisão.
Outros especialistas, no entanto, lembram que Khamenei não estava escondido e que, portanto, era um alvo relativamente fácil.
O inesperado bombardeio israelense atingiu o complexo residencial do aiatolá em Teerã, onde estava prestes a ocorrer uma reunião de funcionários de alto escalão da segurança iraniana.
O ataque marcou o início da guerra conduzida por Israel e Estados Unidos contra o Irã e provocou um forte abalo no aparato de poder do país, ao matar Khamenei e um número ainda não determinado de generais e autoridades de segurança.
A morte do líder supremo amplia a longa lista de operações atribuídas ao Mossad, o serviço de inteligência israelense, embora muitos detalhes permaneçam desconhecidos.
– Uma lista crescente –
A morte de Khamenei “em seu bunker em Teerã (…) coloca Israel em uma posição de superioridade sem precedentes”, escreveu o especialista militar Yossi Yehoshua no jornal israelense Yedioth Ahronoth.
Nos últimos meses, “os serviços de inteligência militar melhoraram suas capacidades para realizar decapitações seletivas”, acrescentou.
Desde o ataque do movimento islamista palestino Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023, que desencadeou a guerra em Gaza, a lista de líderes eliminados vem crescendo.
Entre eles estão dirigentes do Hamas, o chefe do governo dos huthis no Iêmen e membros do movimento libanês Hezbollah, aliado do Irã. Em alguns casos, centenas de militantes foram mortos após a explosão simultânea de pagers utilizados pelo grupo.
Também foram atingidos integrantes do alto comando militar iraniano durante a guerra entre Israel e Irã em junho de 2025.
Segundo Yehoshua, estas operações começaram no Líbano, continuaram com o conflito com o Irã em 2025, foram aperfeiçoadas no Iêmen e atingiram com o ataque de 28 de fevereiro “um nível de excelência” sem precedentes, que ele descreve como uma “arte do assassinato seletivo”.
– “Muito cedo para falar” –
Outros analistas pedem cautela antes de classificar a operação como um marco militar.
“Quando os detalhes de seu assassinato forem conhecidos, o mundo inteiro ficará boquiaberto”, escreveu o colunista Ben Caspit no jornal Maariv.
Segundo ele, “o fato de Israel ter obtido uma foto do corpo de Khamenei é simplesmente inconcebível”, acrescentando que “esse primeiro ataque será estudado durante anos nas escolas militares de todo o mundo”.
De acordo com a imprensa israelense, a fotografia do corpo do líder iraniano teria sido mostrada ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu e ao presidente americano Donald Trump, que anunciou a morte do “diabólico Khamenei”.
Mesmo assim, como as operações militares continuam, especialistas afirmam que “ainda é muito cedo para falar” sobre o papel exato dos agentes do Mossad no Irã.
– Câmeras e vigilância –
Alguns detalhes começaram a surgir nesta semana em reportagens do The New York Times e do Financial Times.
Segundo o jornal americano, citando fontes anônimas, a CIA transmitiu a Israel informações “de grande confiabilidade” sobre a localização de Khamenei na madrugada do ataque.
Por volta das 9h40 no horário iraniano, generais e funcionários de alto escalão da segurança estavam reunidos em um dos edifícios do complexo, enquanto Khamenei se encontrava em outro.
O Financial Times acrescenta que grande parte das câmeras de vigilância rodoviária de Teerã foi invadida por hackers há anos.
Uma delas tinha visão direta do complexo do líder supremo na rua Louis Pasteur, no centro da capital, permitindo observar movimentos, identificar pessoas e analisar os hábitos dos guarda-costas.
“Conhecíamos Teerã como conhecemos Jerusalém”, disse ao jornal britânico um alto funcionário da inteligência israelense.
Segundo o FT, também foi assumido o controle remoto de dezenas de telefones celulares na área nos minutos que antecederam o ataque, para impedir qualquer reação da equipe de segurança.
O jornal menciona ainda a existência de uma misteriosa “fonte humana” que teria informado sobre a reunião.
– Um alvo visível –
Apesar das revelações, especialistas lembram que muitas informações vêm de fontes anônimas israelenses ou americanas.
Khamenei “não estava escondido (…) embora tomasse precauções”, observa o Financial Times.
O jornalista israelense Ronen Bergman ironizou nas redes sociais: “É como ter um cartaz na porta: aqui vive a feliz família Khamenei”.
Na tradição da República Islâmica, marcada pelo simbolismo do martírio, a permanência do líder em Teerã mesmo diante da ameaça de ataque pode ter sido deliberada.
“Minha vida vale pouco”, dizia frequentemente Khamenei.
Segundo o porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Esmail Baghaei, “o líder supremo permaneceu em seu posto, no coração de Teerã, mesmo quando todos diziam que um ataque era iminente. Ele se sacrificou pelo Irã”.
Para um analista francês, os detalhes da operação são “muito difíceis de conhecer”, mas a mensagem parece clara: uma ação “limpa, clara e sem erros” capaz de decapitar um regime rapidamente e mudar o equilíbrio estratégico.
Ainda assim, ele ressalta que o conflito está longe de terminar.
“Não estamos jogando pôquer. Não estamos em Las Vegas. Estamos jogando xadrez, e a perda de uma peça importante não é o fim da partida”, afirma.
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