The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Arte e números: a fórmula mortal do chefe do exército de drones da Ucrânia

afp_tickers

As paredes do centro de comando subterrâneo de Robert “Madyar” Brovdi estão cobertas de telas piscantes que exibem imagens de drones ucranianos atacando tropas russas, mapas das linhas de frente e marcadores de alvos destruídos. 

Este homem de 50 anos, com uma barba grisalha desgrenhada, orquestra e supervisiona os ataques de drones ucranianos que recentemente constrangeram o Kremlin, a partir de seu bunker secreto. 

Cada ataque é gravado e analisado para que ele possa desenvolver novas estratégias para deter o avanço russo. 

Mais conhecido por seu nome de guerra “Madyar”, Brovdi era um rico comerciante de grãos sem experiência militar quando a guerra começou. Agora, ele é um dos principais alvos de Moscou. 

Reservado, ele resmunga e afirma não gostar de entrevistas. Mas seu rosto se ilumina quando a conversa se volta para matemática e guerra. 

“Os números são a base da guerra. Tudo começa aí. Quem ignora isso não pode jogar este jogo. Serão seguidores, não líderes”, disse Brovdi à AFP.

Quando as tropas russas lançaram uma ofensiva contra a Ucrânia em fevereiro de 2022, Brovdi se ofereceu para lutar e, posteriormente, criou sua própria unidade de drones, “Os Pássaros de Madyar”. 

Ele compreendeu a importância dessa tecnologia muito antes dos outros e rapidamente ganhou reconhecimento dentro das forças armadas. 

Em junho de 2025, o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, o nomeou comandante das forças gerais do exército para sistemas não tripulados. 

Sua trajetória reflete como a Ucrânia utilizou a inovação para combater o exército russo, com um arsenal convencional mais poderoso. 

“Eu simplesmente levei meu sistema de contabilidade para a guerra. Pegamos os nomes das variedades de grãos da tabela e inserimos os tipos de drones e munições”, disse ele à AFP. 

Brovdi foi o mentor de alguns dos maiores ataques contra instalações militares e petrolíferas russas, que enfraqueceram gradualmente a máquina de guerra de Vladimir Putin.

– “Perigoso, dedicado” –

Durante uma visita a um de seus bunkers secretos, jornalistas da AFP tiveram que seguir protocolos rigorosos, como viajar em um carro com os vidros completamente escurecidos.

Obras de arte ucranianas e destroços de drones compõem a decoração eclética de seu posto de comando. 

De seu escritório sem janelas, ele atende a um fluxo constante de ligações e entra e sai para conversar com seus homens, curvados sobre suas telas. 

Na semana passada, suas forças atacaram São Petersburgo justamente quando o principal fórum econômico da Rússia estava começando na cidade. 

As operações lhe renderam reconhecimento, ainda que relutante, de analistas militares russos. 

“Madyar é um inimigo perigoso, dedicado e profissional”, escreveu Andrei Medvedev, blogueiro e repórter da televisão estatal russa, no ano passado. 

A equipe de Brovdi representa apenas 2% do exército ucraniano, mas reivindica a responsabilidade por 30% a 35% de todos os alvos russos destruídos.

Sua estratégia para vencer a guerra se resume a uma equação simples: matar mais russos do que Moscou consegue mobilizar. 

Para aumentar a eficácia dos ataques, Madyar se baseia em dados de vídeos transmitidos ao vivo para seu posto de comando. 

Os vídeos mostram drones ucranianos perseguindo forças russas perto da linha de frente, através de campos e florestas, até que a transmissão seja interrompida com o impacto. 

Nas redes sociais, onde tem centenas de milhares de seguidores, Brovdi recebe alguns desses vídeos editados com música caricata e legendas zombeteiras. 

As imagens que glorificam os mortos desencadearam um debate moral na Ucrânia. Especialistas jurídicos sugeriram que elas poderiam constituir um crime de guerra.

– “Os pés no chão” –

Em seu bunker, vídeos de guerra contrastam fortemente com obras de renomados artistas ucranianos, como uma natureza-morta de flores de Maria Prymachenko. 

“A arte nos permite manter os pés no chão e nos distrair das circunstâncias que nos trouxeram até aqui”, explica Madyar. 

Ela também lhe oferece uma sensação de lar, agora que ele não pode retornar à sua própria casa por motivos de segurança. 

“Não posso olhar para o meu lugar favorito em casa, para certos objetos, um vaso, a vista da minha janela”, diz esse pai de dois filhos. 

Apenas sua esposa, que administra o serviço de apoio às tropas de sua unidade, e um pequeno círculo de amigos sabem de seus movimentos. 

Mas esses sacrifícios pessoais são compensados por “aquela satisfação momentânea, quando você finalmente coloca as mãos no controle remoto e vê os resultados do seu trabalho com seus próprios olhos”.

brw/jbr/hol/dbh/pc/aa/fp

Mais lidos

Os mais discutidos

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR