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Punições e peculiaridades do Código de Trânsito suíço

Um jovem corre à frente de um elétrico em Zurique.
Na Suíça, os bondes também têm prioridade sobre os pedestres. Keystone / Gaetan Bally

O Código de Trânsito suíço está entre os mais detalhados e rigorosos da Europa. Atualizado anualmente, ele reflete algumas obsessões típicas da mentalidade e dos costumes suíços.

Para circular pelas estradas do país, é preciso pensar de uma forma “tipicamente suíça”: liberal, racional e meticulosa. Os semáforos, por exemplo, exibem a luz amarela não apenas antes da vermelha, mas também antes da verde. Diante da luz amarela, no entanto, é proibido avançar, exceto nos casos em que uma frenagem brusca possa colocar alguém em risco. Ela serve, sobretudo, para alertar os motoristas e agilizar o fluxo.

Diferentemente de outros países do continente, onde a sinalização se concentra principalmente nas margens das vias e em placas verticais, na Suíça as marcações no asfalto desempenham um papel essencial. É na própria pista que se indica a divisão da via em faixas para bicicletas, corredores reservados ao transporte público e faixas exclusivas para virar à esquerda, à direita ou seguir em frente.

Uma estrada suíça vista de cima.
Mãos no volante e olhos na estrada. Keystone / Ennio Leanza

O código está disponível no site da Secretaria Federal de Estradas (FEDRO)Link externo e é regido pela Lei Federal sobre a Circulação Rodoviária. O federalismo transforma tudo em uma verdadeira selva regulatória, com competências distribuídas entre cantões [equivalente a estados] e municípios. Sem falar nas 74 páginas do Regulamento de Circulação Rodoviária.

Nada de buzinar

As obrigações refletem o “espírito suíço”, desde a atenção aos detalhes até a paixão por ordem e limpeza.

Nada de buzinar para reclamar ou para cumprimentar um amigo. O artigo 29 do regulamento qualifica esse mecanismo como um “sinalizador sonoro”, equipara-o aos faróis altos e especifica que só deve ser usado “se a segurança do tráfego o exigir”. São dois os casos previstos: para chamar a atenção de alguém distraído ou ao fazer uma curva fechada e sem visibilidade. Após anoitecer, a buzina é permitida apenas em caso de perigo.

Sinal indicando que é proibido buzinar.
Não buzinar, exceto em circunstâncias extraordinárias. Keystone / Christian Beutler

O regulamento também alerta para os ruídos. É proibido manter o motor ligado sem necessidade, acelerar de forma brusca ou “dar voltas desnecessárias repetidamente em áreas urbanas”. Em 2025, o barulho provocado pelo sistema de escapamento, sobretudo quando produz estouros, foi incluído como uma infração passível de multa de até 10 mil francos.

Além disso, é proibido carregar e descarregar o carro sem cuidado e bater as portas com força. Também são vedadas “outras perturbações”, como jogar água em pedestres quando a pista estiver molhada.

O regulamento especifica que é necessário circular de modo que os demais usuários da via “sejam incomodados o mínimo possível”. A Suíça, com seu caráter meticuloso, inseriu isso em seu código de trânsito para que houvesse um instrumento legal para colocar motoristas mal-educados nos trilhos.

Multas pesadas

Há zero tolerância no que diz respeito ao estacionamento. Estacionar é caro, e você precisa morar na Suíça há alguns anos para entender a lógica. Há vagas com limite de tempo, vagas gratuitas por 60 ou 120 minutos mediante a exibição de um disco de estacionamento, além de demarcações com faixas brancas e azuis. Nas cidades, praticamente não existe o conceito de estacionar de graça, e a fiscalização é frequente.

Um polícia suíço escava a neve à procura de um recibo de estacionamento.
Sem piedade. Uma policial suíça escava a neve em busca de um recibo de estacionamento. Keystone / Regina Kuehne

As punições por excesso de velocidade são severas. Elas variam de 40 francos suíços a milhares de francos, além da suspensão da carteira de motorista. EstesLink externo são os limites de velocidade na Suíça.

As regras são tantas e tão minuciosas que a melhor estratégia ao volante é viver em paranoia constante. Por exemplo, o sulco dos pneus deve ter profundidade mínima de 1,6 milímetro. Um desgaste abaixo desse limite pode acarretar uma multa de 100 francos. Se os pneus estiverem muito gastos, a carteira de motorista pode ser suspensa por pelo menos um mês.

No código suíço, os bondes têm sempre prioridade. Não apenas sobre os automóveis, mas também sobre os pedestres. Portanto, tire da cabeça a ideia de que o veículo sobre trilhos vai parar se você estiver atravessando a rua, porque ele não vai.

Rodando em círculos

As rotatórias são uma verdadeira obsessão suíça. Elas são tão comuns que, no site do Touring Club Swiss (TCS), há animaçõesLink externo explicando como utilizá-las. Outra peculiaridade suíça é ornamentar o centro das rotatórias com arranjos florais ou obras de arte. Alguns exemplos podem ser vistos nesta galeria publicada pela Swissinfo.

Uma rotunda vista de cima, com um disco de vinil no centro.
Uma rotunda com um disco de vinil no centro em Lyss, no cantão de Berna. Keystone / Peter Klaunzer

O termo jurídico é “áreas de circulação rotatória obrigatória”, mas no cantão do Ticino elas são chamadas de rotonde. A região de língua italiana concentra a maior proporção de motoristas indisciplinados nesse tipo de via, adverte o site da polícia cantonal do Ticino.

A obsessão pelo detalhe levou à inclusão de regras tão evidentes que chegam a parecer desnecessárias. Assim, é proibido percorrer na contramão em um túnel de mão única, e especifica-se que uma criança pode andar de bicicleta… desde que seja capaz de pedalar.

A mania nacional por limpeza também se impôs ao Código de Trânsito. Na Suíça, faróis, retrovisores e vidros de um veículo devem estar limpos. Se você se apresentar para uma vistoria com o carro sujo, pode ser mandado de volta para casa.

Quem dirige deve enxergar a via “com um campo visual de 180°”. Pendurar bugigangas no retrovisor pode render uma multa, advertência e até a suspensão da carteira de motorista. Cuidado com a neve: na Suíça, você pode ser multado se tiver limpado apenas parte do para-brisa. Um bom cidadão ou cidadã mantém no carro uma espátula para retirar neve e gelo do teto e dos vidros.

Carros e camiões na Passagem de Maloja, em Graubünden.
Carros e camiões na Passagem de Maloja, em Graubünden. Keystone / Gaetan Bally

Nas estradas alpinas, os veículos que estão subindo e os veículos pesados têm prioridade. Se dois motoristas se encontrarem em um trecho estreito, quem está descendo deve dar marcha ré, exceto se o outro estiver próximo de um recuo lateral. Mas, se você cruzar com um PostBusLink externo (ônibus de linha amarelo com uma típica buzina de três tons), deve lembrar que o artigo 38 do regulamento confere ao motorista de transporte público poderes semelhantes aos de um agente de trânsito: ele pode determinar o que devemos fazer, e somos obrigados a obedecer.

Um autocarro postal na Passagem de Furka, ligando Uri e Valais.
Um autocarro postal na Passagem de Furka, ligando Uri e Valais. Keystone / Urs Flueeler

Ao contrário de muitos países europeus, na Suíça não há obrigação legal de utilizar pneus de invernoLink externo. Ainda assim, quase todos providenciam a troca assim que termina a estação quente, porque a lei estabelece que o veículo “deve estar sempre em condições seguras”. Isso significa que, se você se envolver em um acidente no inverno com pneus de verão, pode ser multado e ainda enfrentar um pedido de ressarcimento por parte da seguradora. É um clássico da mentalidade suíça: liberal, mas de punho firme. A mensagem é a seguinte: “Escolha como agir – e decida se quer ser punido”.

Etiqueta e costumes

Na Suíça, se você cruzar com outro carro em um trecho estreito, acene.  Ao atravessar na faixa de pedestres, agradeça ao motorista. As crianças aprendem no ensino fundamental sobre como se comportar no trânsito, já que é tradição irem sozinhas para a escola. Elas usam coletes refletivos e acenam com a mão depois de atravessar.

A questão das faixas de pedestres é central na cultura suíça de convivência cívica. Tanto que o jornal Blick dedicou uma enquete provocativa ao tema: “Como as pessoas que leem nosso jornal se comportam nas faixas de pedestre?”Link externo Entre as 20 mil pessoas consultadas, apenas 1% declarou não cumprimentar o motorista que parou para deixá-las atravessar.

Um homem e três dachshunds na passadeira.
Na Suíça, basta colocar um pé na faixa para parar o trânsito. Keystone

Basta pôr a ponta do pé na faixa para que os carros parem. O hábito transforma um suíço ou uma suíça no exterior em um perigo público em potencial: tente fazer o mesmo em uma movimentada avenida de Roma.

Diante da abundância de bicicletas, há inúmeras regras que regulam o uso de veículos de duas rodas. A Secretaria Federal de Estradas dedica uma página em seu site ao chamado CicloGalateoLink externo.

Rodovias e pedágio

A Suíça foi o primeiro país, em 1984, a introduzir o selo que certifica o pagamento de pedágio. Desde 1994, o sistema está consagrado na constituição do país. O adesivo muda de cor a cada ano e hoje também existe em formato digital. A ausência do selo implica uma multa de 200 francos suíços; quem o manipular ou utilizar mais de uma vez pode ser punido com pena de prisão de até três anos.

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Uma estrada cheia de carros

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Política suíça

Por que a Suíça ainda é o país das rodovias

Este conteúdo foi publicado em Rodovias suíças à beira do colapso: com 49 mil horas perdidas em engarrafamentos em 2023, a saturação cresce. Tráfego 130% maior desde 1990, efeito da maior mobilidade e dependência do carro. Soluções? Ampliação não é consenso.

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Desde 2021, é obrigatório formar um “corredor de emergênciaLink externo” no centro da pista das rodovias assim que surgem congestionamentos, para garantir a passagem dos veículos de emergência. Quem descumpre a regra pode ser multado em 100 francos, com sanções mais severas caso impeça o atendimento, incluindo processo penal e apreensão da carteira de motorista.

O corredor de emergência, mostrado aqui num exemplo na Alemanha.
O corredor de emergência, mostrado aqui num exemplo na Alemanha. Keystone / DPA / Soeren Stache

A população suíça costuma achar graça da perfeição de suas estradas, recapeadas com tanta frequência que as autoridades federais se viram obrigadas a se justificar em uma seção de Perguntas Frequentes: “No que diz respeito à manutenção das vias, os suíços são perfeccionistas?”. Os números de 2023 da Secretaria Federal de Estatística confirmam a percepção difundida: “A manutenção, a operação e a ampliação da infraestrutura rodoviária custaram aos cofres públicos 7,7 bilhões de francos suíços”.

Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

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Debate
Moderador: Zeno Zoccatelli

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