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“Putsch”: a palavra suíço-alemã mais revolucionária do mundo

Zuriputsch
Combates na Paradeplatz, em Zurique, durante o Züriputsch, em 1839. Public Domain / Zentralbibliothek Zürich

O que um carrinho de bate-bate e um golpe de Estado têm em comum? A resposta é uma das pouquíssimas palavras suíço-alemãs a cruzar as fronteiras do país e entrar em dicionários estrangeiros: putsch. Aperte o cinto para uma viagem etimológica fascinante – e muitas vezes violenta.

De angst a zeitgeist, passando por schadenfreude e wanderlust, centenas de palavras alemãs aparecem em dicionários ingleses e conversas (pretensiosas). Quando o assunto são as palavras suíço-alemãs, porém, a história é outra. Alguns falantes de inglês talvez arrisquem muesli – quem sabe rösti –, mas a maioria não vai muito além disso.

E não podemos culpá-los. Nem toda palavra é tão áspera na garganta quanto Chuchichäschtli (armário de cozinha), mas o suíço-alemão pode mesmo intimidar. Ainda assim, uma palavrinha foi exportada com sucesso para o mundo inteiro.

“É um putsch parlamentar dos patrões e dos figurões contra os trabalhadores deste país […]. É um putsch contra a soberania dos cantões”. Cédric Wermuth não estava nada satisfeito. Com essa frase, o copresidente do Partido Social-Democrata, de esquerda, reagia no parlamentoLink externo, no ano passado, a uma decisão da Conselho Nacional [Câmara Baixa] de não dar prioridade aos salários-mínimos cantonais sobre os acordos coletivos de trabalho. “Posso tranquilizá-lo”, respondeu Philipp Matthias Bregy, presidente do Partido do Centro. “Não há nenhum putsch acontecendo aqui hoje”.

Um putsch e um golpe de Estado são praticamente a mesma coisa, mas com diferenças sutis, dependendo de quem você pergunta. Nenhum dos dois é uma revolução.

A filósofa russo-americana Ayn Rand escreveu um artigoLink externo, publicado na revista The New York Times Magazine em 1970, com o título “Estaríamos no meio da Segunda Revolução Americana?”. “A Nova Esquerda não anuncia uma revolução, como afirmam seus porta-vozes, mas um Putsch. Uma revolução é o ápice de um longo desenvolvimento filosófico e expressa o descontentamento profundo de uma nação; um Putsch é a tomada do poder por uma minoria. O objetivo de uma revolução é derrubar a tirania; o objetivo de um Putsch é instaurá-la”.

Vinte anos depois, também no New York Times, William Safire, em sua coluna sobre a língua inglesaLink externo voltou-se para o que acontecia na União Soviética: a tentativa da linha-dura comunista de derrubar o líder soviético Mikhail Gorbatchev. “Embora ‘golpe fracassado’ não esteja incorreto, há algo de errado: por que usar um qualificador para corrigir um substantivo que não é exatamente o melhor quando existe o substantivo perfeito?”, escreveu Safire.

“A palavra certa, usada por Boris Iéltsin desde o início, talvez por sua associação histórica com o nazismo [alusão ao Putsch da CervejariaLink externo, tentativa fracassada de golpe liderada por Hitler em Munique, em 1923], é putsch. O termo alemão também significa ‘golpe, impulso’, como coup em francês [e golpe, em português], mas carrega a conotação de ‘tentativa’ em vez de ‘conclusão rápida e bem-sucedida’. Uma rebelião é uma revolução que fracassou; um putsch é um golpe que não vingou”.

Será que Safire tem razão? Um putsch é um golpe fracassado? Muitas vezes, sim. Mas o Zuriputsch [revolta ocorrida em 1839, no cantão de Zurique, na Suíça], por exemplo, pode ser considerado um sucesso relativo.

Para David Lane, sociólogo da Universidade de Cambridge, segundo seu texto de 2008Link externo, um putsch é conduzido por uma elite que, no momento, não está próxima do poder (como o exército), ao passo que um golpe de Estado envolve uma facção política substituindo outra. “Esses processos políticos se distinguem pela participação popular relativamente pequena, tanto na derrubada quanto na defesa dos governantes, e, por intenção, não têm efeitos sociais ou econômicos significativos”, afirmou Lane.

The Chambers Dictionary (13ª edição) define putsch como “uma irrupção revolucionária súbita; um golpe de Estado”. Já a definição de golpe de Estado é “uma ação violenta ou subversiva que resulta numa mudança de governo ou da política de Estado”.

A Suíça moderna é famosa por sua estabilidade política, mas as coisas eram bem diferentes 200 anos atrás. Um dos principais focos de tensão era o atrito entre as populações rurais conservadoras e os governos e moradores progressistas das cidades. Em 1833, por exemplo, disputas políticas e conflitos armados levaram à divisão histórica do cantão da Basileia em dois: Basileia-Cidade e Basileia-Campo.

Züriputsch

A situação chegou ao ponto de ebulição em 1839, quando um teólogo alemão liberal, David Friedrich Strauss – cuja tese, em resumo, era a de que os milagres de Jesus eram, na verdade, mitos usados pela Igreja como propaganda –, foi nomeado professor da Universidade de Zurique. Aquilo provocou tamanha comoção que Strauss foi aposentado antes mesmo de começar (e doou o dinheiro aos pobres).

Mesmo assim, “a população rural conservadora e crítica da modernização não ficou satisfeita com esse desfecho”, explica o Dicionário Histórico da SuíçaLink externo, com notável eufemismo. “Criticavam a falta de religiosidade nas escolas primárias e no seminário de formação de professores e exigiam a abolição da universidade”.

As autoridades de Zurique proibiram, então, as assembleias convocadas por um comitê conservador e mobilizaram a infantaria para manter a ordem pública. Em 5 de setembro, Bernhard Hirzel, pastor em Pfäffikon, município nos arredores de Zurique, mandou tocar os sinos da igreja por quatro horas durante a noite. Outras comunidades fizeram o mesmo. Na manhã seguinte, tudo explodiu.

“Às 7h, a Paradeplatz de Zurique foi tomada por cerca de 2 mil insurgentes”, escreveu o jornal BlickLink externo. “A essa altura, o governo cantonal já estava entrincheirado na agência dos correios havia horas. A multidão, armada de forcados, foices e lanças, viera para derrubá-lo”. Os soldados intervieram, e o confronto que se seguiu custou a vida de 14 manifestantes e de um membro do governo cantonal (que tentara ordenar um cessar-fogo). O governo colapsou, e novas eleições foram realizadas três dias depois, com vitória dos conservadores.

“Esses acontecimentos atraíram enorme atenção no exterior”, o jornal Blick registrou. “Os jornais alemães noticiaram o Züriputsch [Putsch de Zurique]. Na França e na Inglaterra, as reportagens logo passaram a falar em ‘le putsch’ ou ‘the putsch’ na Suíça”.

Inúmeros golpes de Estado e levantes ocorreram ao longo da história. Eis alguns dos que são geralmente conhecidos como putsches:

1830 – Freiämterputsch. Talvez a primeira menção a putsch no sentido político. Uma revolução sem derramamento de sangue, conduzida pela população rural do cantão de Argóvia, no norte da Suíça, que exigia mudanças na constituição cantonal. Embora o governo não tenha sido derrubado, ele concordou com uma revisão completa da constituição.

1839 – Putsch de Zurique. Ver matéria.

1890 – Tessiner Putsch. Apoiadores do Partido Liberal do Ticino se sublevaram contra o governo cantonal conservador na Suíça de língua italiana. Após ocuparem o arsenal de Bellinzona, uma multidão armada invadiu o edifício do governo no centro da cidade. Vários funcionários e representantes dos conservadores foram presos, e um político foi morto a tiros. Os insurgentes instalaram um governo de transição liberal, substituído ainda naquele ano por um governo em que ambos os principais grupos políticos estavam representados.

1920 – Kapp Putsch. Uma tentativa frustrada de golpe de Estado contra o governo nacional alemão em Berlim, levada a cabo por parte das forças armadas e por facções nacionalistas e monarquistas. Embora o governo tenha sido obrigado a fugir da cidade, o golpe fracassou em poucos dias, quando grande parte da população alemã aderiu a uma greve geral convocada pelo próprio governo.

1923 – Putsch da Cervejaria. Também conhecido como Putsch de Munique. Em 8 de novembro, o líder do Partido Nazista, Adolf Hitler, e cerca de 600 membros da Sturmabteilung (SA) dirigiram-se ao Bürgerbräukeller, onde o ministro-presidente da Baviera discursava. Enquanto a SA cercava o salão, Hitler entrou, disparou um tiro para o teto e proclamou que o governo bávaro havia sido derrubado e que a revolução nacional havia começado. Poucos dias depois, Hitler foi preso, acusado de alta traição e condenado a cinco anos de prisão (dos quais cumpriu nove meses).

1934 – Putsch de Julho. Uma tentativa frustrada de golpe de Estado na Áustria, levada a cabo por nazistas austríacos contra o governo da Frente Pátria, de Engelbert Dollfuss. O governo austríaco acabou sufocando o golpe, com mais de 200 mortos em seis dias de combates.

1961 – Putsch da Argélia. Também conhecido como Putsch dos Generais. Uma tentativa frustrada de golpe de Estado destinada a forçar o presidente francês Charles de Gaulle a não abandonar a Argélia Francesa, a comunidade europeia ali radicada e os argelinos pró-França. Foi organizado na Argélia Francesa por generais reformados do Exército francês e levou o país à beira da guerra civil.

1991 – Putsch de Agosto. Uma tentativa frustrada da linha-dura do Partido Comunista da União Soviética (PCUS), incluindo altos funcionários militares e civis, de tomar o controle do país das mãos de Mikhail Gorbatchev, então presidente soviético e secretário-geral do PCUS.

2021 – ‘Putsch Presidencial’. Embora alguns analistasLink externo tenham se referido à invasão do Capitólio dos EUA por apoiadores de Donald Trump como um putsch, outros ponderaram que Trump tentava se manter no poder, e não o tomar. Argumentam, portanto, que se tratou de um autogolpe.

2023 – Rebelião do Grupo Wagner. O Grupo Wagner, uma empresa militar privada russa liderada pelo oligarca russo Yevgeny Prigozhin, promoveu um levante contra o governo russo que parece atender a muitos dos requisitos de um putschLink externo. A marcha sobre Moscou durou um dia e, para surpresa de ninguém, Prigozhin morreu na queda de um avião alguns meses depois.

Pou! Putsch!

Embora esse não tenha sido exatamente o primeiro uso de putsch no sentido moderno de golpe de Estado ou tentativa súbita e violenta de derrubar um governo pela força (o Freiämterputsch, no vizinho cantão de Argóvia, ocorrera nove anos antes), o significado da palavra passou por algumas reviravoltas surpreendentes ao longo dos últimos 500 anos. Como ela acabou entrando para o vocabulário político?

“Putsch é uma chamada onomatopeia. Quando duas coisas se chocam, elas fazem ‘putsch’”, escreveu Christoph LandoltLink externo, linguista do Swiss Idiotikon, um dicionário de suíço-alemão. Landolt citou fontes do século 19 em que o verbo putsche, butsche ou pütsche designava o barulho que alguém fazia ao atirar uma pedra em algo, disparar uma arma ou dar um tapa em alguém.

“Logo, a descrição onomatopaica do som evoluiu para o sentido físico de bater ou colidir”, disse Landolt. Em 1525, a tradução da Bíblia de Zurique de Juízes 19:22 trazia: Do kamend die lüt der statt […] und umgabend das huß und putschtend an die tür und sprachen zuo dem […] hußwirt: bring den mann häruß, der in din huß kommen ist! (Então os homens da cidade vieram […] e cercaram a casa e bateram à porta e disseram ao […] dono da casa: “Traga para fora o homem que entrou na sua casa!”)

Em registro mais cordial, era também sinônimo de brindar, fazendo tinir as taças. Nesse momento, Landolt volta presente. “Quem não gosta de andar no Putschauto nos parques de diversões, como são chamados na Suíça os carrinhos de bate-bate?”

Carro de choque
Um golpe de Estado na feira de diversões. Keystone

Segundo o Swiss Idiotikon, a partir desse sentido concreto e físico desenvolveu-se um mais figurado, especificamente no cantão de Zurique, no sentido de “partir de forma abrupta, aos solavancos; avançar ou correr em disparada em direção a algo”. Landolt cita o sábio conselho: bim Hüraate mues me nüd driipütsche – que, em essência, equivale a “em matéria de casamento, só os tolos se precipitam”.

‘Tolo arroubo emocional’

Quanto a putsch como substantivo, ele também designava o som provocado por uma colisão, impacto, estrondo ou disparo – além de um solavanco ou golpe violento. Outro significado era o de “esforço especial”. O Swiss Idiotikon registra que, já em 1555, o dramaturgo de Berna Hans von Rüte escreveu, numa peça sobre a morte de Golias por Davi, que, apesar de terem derrotado os inimigos numa batalha, “der putsch ist noch vorhanden (a luta ainda não acabou).

“É interessante que o Swiss Idiotikon reconheça a palavra Züriputsch em dois sentidos”, disse Landolt. “De um lado, no sentido específico que remete ao levante de 1839. De outro, num sentido geral e nada lisonjeiro: ‘um surto repentino de entusiasmo que logo se esvai; um ímpeto repentino em direção a alguma empreitada’”. Ele observa que “daí até o significado de ‘levante popular’ ou ‘revolta’ é um passo curto’”.

O Swiss Idiotikon citou Anton Klingler, pastor sênior da catedral Grossmünster, em Zurique, que em 1702 escreveu que muitos homens respeitáveis “haviam sido lançados na mais completa desgraça por um Putsch de Zurique precipitado e frenético”.

Esse sentido foi popularizado pelo escritor suíço Gottfried Keller em seu romance Der grüne Heinrich (Henrique, o Verde), publicado em 1855. “A palavra Putsch vem da boa cidade de Zurique”, escreveu Keller, “onde uma súbita pancada de chuva passageira é chamada de Putsch e, por consequência, as invejosas cidades vizinhas chamam de Züriputsch todo tolo arroubo emocional, entusiasmo, ira, capricho ou modismo do povo de Zurique”.

Ouvida no mundo inteiro

No que diz respeito ao uso de “putsch” em inglês, o NGram ViewerLink externo do Google, que mapeia a frequência das palavras em fontes impressas entre 1500 e 2022, mostra um pequeno sinal na década de 1830, mas a palavra só decolou mesmo por volta de 1915, com picos durante a Segunda Guerra Mundial e o chamado Putsch de Agosto na União Soviética, em 1991.

Conteúdo externo

Hoje, a palavra suíço-alemã pode ser ouvida no mundo inteiro, em línguas como o espanhol (el putsch), o português (o putsch), o italiano (il putsch), o francês (le putsch) e, sem dúvida, muitas outras. O polonês altera um pouco a grafia (pucz), assim como o esperanto (la puĉo).

Mas, independentemente de como se escreve, a boa notícia é que, por ora, não há nenhum putsch acontecendo na Suíça.

Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

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Moderador: Zeno Zoccatelli

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