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Dez anos após Brexit, modelo suíço volta ao debate britânico

Uma fileira de bandeiras da União Europeia com uma bandeira do Reino Unido em primeiro plano
Uma viagem ao passado: a bandeira britânica à porta da Comissão Europeia em 2016. Laurent Dubrule / Keystone

Dez anos após o Brexit, o chamado modelo suíço voltou a ganhar espaço no debate político britânico. Se antes era defendido por eurocéticos como alternativa à União Europeia, agora é visto por setores pró-Europa como uma possível fórmula para reconstruir os laços com a UE.

Na década que se seguiu à votação do Reino Unido para sair da União Europeia (UE), o termo “Brexit” teve uma trajetória bastante movimentada. Muito mais do que uma escolha de política externa, ele se tornou sinônimo da principal linha divisória da política britânica, separando a nação entre os grupos dos “Remainers” (que apoiam a permanência) e dos “Leavers” (que apoiam a saída). No exterior, o conceito alimentou debates semelhantes: Grexit, Frexit, Swexit. Mais recentemente, com muitos britânicos insatisfeitos com o rumo das coisas, surgem rumores de um “Bregret” (arrependimento pelo Brexit).

Outro termo com uma década de uso intenso é o “modelo suíço”. Este, por outro lado, não é novo, já que a maneira peculiar suíça de lidar com a UE vem se desenvolvendo aos trancos e barrancos há décadas. Mas o Brexit lhe conferiu uma relevância repentina. Do ponto de vista do Reino Unido, foi a prova, para o bem ou para o mal, de que há vida na Europa para além de Bruxelas. A Suíça, um país não pertencente à UE, consegue comercializar, interagir e, aparentemente, beneficiar-se de seus vizinhos. Será que a Grã-Bretanha conseguiria fazer o mesmo?

Até o momento, as coisas não decorreram dessa forma. O Reino Unido pós-Brexit tornou-se, bem, o Reino Unido pós-Brexit. Mesmo assim, as discussões sobre o modelo suíço nunca cessaram completamente. Primeiro, foram feitas por figuras da direita como Nigel Farage; dez anos depois, com a UE e o Reino Unido buscando “redefinir” as relações, são os estrategistas de esquerdaLink externo e colunistasLink externo do Financial Times que as defendem. O que explica o apelo duradouro do modelo suíço pós-Brexit apesar de enfrentar tantos desafios próprios?

pilha de documentos sobre uma mesa
Uma pilha de papelada: os tratados bilaterais recentemente negociados entre a UE e a Suíça, impressos pelo Partido Popular Suíço, de direita. Keystone / Christian Beutler

Modelo mal interpretado?

Uma resposta meio séria é que ninguém entende o que o modelo suíço realmente significa. Nem mesmo na Suíça isto está sempre claro. Para alguns, é uma “quase-adesãoLink externo personalizada” à UE; para outros, é o cerne de uma antiga luta para se manter livre dela. Mas em um contexto acirrado como o referendo do Brexit, a ambiguidade pode ser útil. A Suíça simplesmente parecia estar obtendo da Europa o que o Reino Unido sempre quis: “maximizar os ganhos da integração econômica e minimizar as perdas de soberania”, como afirma Sandra Lavenex, da Universidade de Genebra.

Mas “nos primeiros tempos, havia claramente algum mal-entendido sobre as limitações do modelo suíço”, diz Lavenex. O acesso ao mercado interno da UE não é gratuito. Como parte de sua rede de tratados bilaterais, a Suíça assume grandes partes da legislação da UE sem ter uma participação real em sua elaboração. Ela também aceita a livre circulação de pessoas, uma clara “linha vermelha” para o Reino Unido após o Brexit. E, apesar de sua imagem de estabilidade política, os laços com a UE têm sido um tema politicamente delicado na Suíça há anos, para não mencionar em Bruxelas.

Dez anos depois, será que o entendimento melhorou? Os defensores do Brexit de direita pelo menos diminuíram o entusiasmo pelas referências aos Alpes. Farage chegou a dizer que a Suíça era uma “inspiração” para o Brexit; desde então, comparou um modelo suíço a uma “traição” (e parece também ter diminuído seu entusiasmo pelos apelos à democracia direta). Quanto às ideias mais recentes sobre um “alinhamento dinâmico” ao estilo suíço, Martin Wolf, do Financial Times, geralmente sabe do que está falando. Mas será que ele acredita que essa opção seria aceita pela UE, ou pelos defensores da saída da União Europeia no Reino Unido)

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«Eu disse à UE: isto não ajuda»: Guy Parmelin e Ursula von der Leyen assinam os Acordos Bilaterais III em Bruxelas, em março de 2026.

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Isso agrada a todos?

Isso levanta outra característica do modelo suíço: ele é compreendido, mas seletivamente. Inicialmente, os aspectos de soberania estavam em voga: no calor de uma campanha de referendo, a ideia de uma pequena nação resistindo a Bruxelas, à la Guilherme Tell, é cativante. Mas isso era principalmente “retórica, instrumental para defender um ponto de vista”, diz Giorgio Malet, do instituto federal suíço de tecnologia ETH Zurich. “Assim como o apoio à democracia direta, essa ideia se dissipou rapidamente”.

A opção suíça logo passou a ter outros usos. De ideal da direita, ela se tornou para ela agora um bicho-papão; um modelo de alerta usado por opositores a qualquer implementação do Brexit que considerassem muito branda. O Plano de Chequers de 2018 da então primeira-ministra Theresa May, que tinha algumas semelhanças com o modelo suíço, causou turbulências no Partido Conservador. Dois anos depois, o Reino Unido optou por um Brexit radical sob a liderança de Boris Johnson. A Suíça, nesse contexto, “está muito mais integrada do que o Reino Unido teria aceitado”, afirma Malet.

E em 2026? Com um governo trabalhista mais amigável à Europa em Londres, o modelo suíço está ressurgindo como uma opção econômica sensata para tempos difíceis. Sem abandonar todas as linhas vermelhas, argumenta-se, por que não ser mais suíço e fazer concessões setoriais com a UE? Isto poderia significar concessões em questões como a livre circulação de pessoas. Mas a “dor política” poderia ser compensada pelo “ganho econômico” através do acesso às cadeias de abastecimento e mercados europeus, escreveuLink externo o Movimento Trabalhista pela Europa.

Novamente, parte disso pode ser posicionamento político, especialmente considerando que a posição do primeiro-ministro Keir Starmer no Partido Trabalhista está sendo questionada. “Posições sobre a Europa estão sendo usadas por potenciais líderes para sinalizar algo por razões políticas internas”, disseLink externo Anand Menon, do grupo de estudos UK in a Changing Europe, ao jornal The Observer em janeiro. Quanto ao modelo suíço, “estamos falando entre nós sobre algo que a UE não necessariamente nos dará”, afirmou Menon.

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Duas mulheres se cumprimentando

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Modelo cujo momento chegou?

Menon não está sozinho em seu ceticismo. Se a Suíça e o Reino Unido são comparáveis é uma coisa. Outra é que, desde o Brexit, a UE tem sido clara em não querer outro “selecionador de favores”: um não-membro que consegue se beneficiar das melhores vantagens do clube. A UE está até mesmo farta da Suíça fazendo isso, e o novo pacote de acordos UE-Suíça, atualmente em debate em Berna, é o resultado de um longo impasse sobre a viabilidade do modelo suíço.

Para Malet, o momento mais lógico para se falar sobre um modelo suíço para o Reino Unido foi por volta da votação de 2016, antes que o Reino Unido definisse suas linhas vermelhas e antes que as relações entre a Suíça e a UE entrassem em crise. No geral, Malet acredita que, com a Grã-Bretanha e a Suíça enfrentando dilemas semelhantes em relação à Europa, os modelos são úteis para comparação. “Mas os pontos de partida e os objetivos são muito diferentes.”

Ao mesmo tempo, as coisas estão mudando na Europa, acrescenta ele. A guerra na Ucrânia aproximou alguns países da UE. Entre outros, a Islândia e a Noruega estão considerando a adesão em meio ao que o ministro das Relações Exteriores desta última descreveu como uma transição de um “mundo benigno” para um “mundo insano”. A UE também se tornou um pouco mais flexível nesse contexto geopolítico, afirma Malet, o que, segundo ele, pode ter beneficiado a estratégia de cautela da Suíça em relação ao bloco.

Cada vez mais consciente das consequências econômicas do Brexit, o Reino Unido também está tentando se aproximar da Europa. Ele voltou a participar do programa de intercâmbio estudantil Erasmus+. No âmbito comercial, ele já está testando uma abordagem de “alinhamento dinâmico” com um toque suíço: seguir as regras da UE em certos setores para reduzir a burocracia para as empresas. Em preparação para a cúpula UE-Reino Unido neste verão, a Grã-Bretanha está “discretamente se desvinculando do Brexit”, escreveuLink externo recentemente a revista The Economist, com mais uma referência ao modelo suíço.

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Nigel Farage, figura de proa do Brexit, na Suíça em 2014, onde discursou numa reunião do grupo «Campanha por uma Suíça Independente e Neutra». Steffen Schmidt / Keystone

Modelo para tempos confusos ou de confusão?

Não está claro se a UE está aberta a uma aproximação britânica. Mas uma pesquisaLink externo recente mostra que o humor da população no Reino Unido também está mudando. Dez anos após o Brexit, a maioria se arrepende. Apenas 31% querem que as coisas permaneçam como estão com Bruxelas, enquanto 56% chegam a desejar a reintegração à UE. Seria o momento de um retorno espetacular? Para o ex-presidente da Câmara dos Comuns, John Bercow, não é impossível, mas “extremamente improvável” nos próximos cinco anos, como ele declarouLink externo recentemente ao jornal Neue Zürcher Zeitung. “Na política, as coisas levam tempo”, afirmou.

Quanto a outras formas de reaproximação, Lavenex, da Universidade de Genebra, aponta para uma vantagem do sistema britânico de democracia representativa. Em teoria, seria mais fácil para o Reino Unido chegar a acordos com Bruxelas sobre questões setoriais espinhosas, sem a ameaça de um referendo como na Suíça. Ao mesmo tempo, com o partido Reform UK de Farage em alta nas pesquisas, os limites dessa flexibilidade política ficam claros. Em poucos anos, tudo poderá ser diferente novamente.

Isso levanta uma última explicação para a discussão recorrente sobre a abordagem suíça. Os modelos, como se sabe, oferecem orientação em uma realidade confusa. E, dada a velocidade das mudanças na política britânica e europeia na última década, não é de surpreender que tantos tenham surgido; sejam eles da Noruega, do Canadá, da Turquia ou da Suíça. Atualmente, enquanto o modelo suíço enfrenta suas próprias transformações tendo em vista uma votação pública sobre o novo pacote de acordos bilaterais que pode ocorrer no próximo ano, ele pode não ser o guia mais claro. Mas, em tempos incertos, mesmo um ponto de referência instável pode ser melhor do que nenhum.

Edição: Mark Livingston/gw

Adaptação: DvSperling

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