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Impacto do fenômeno El Niño esta semana no mundo

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Inundações na Argentina, incêndios mortais no Peru, seca na Guiana Francesa… Os efeitos do El Niño continuam atingindo várias partes do mundo, o que levou a ONU a pedir uma “ação preventiva” diante desse fenômeno climático, que representa “uma verdadeira força destrutiva”.

 

– Um fenômeno ‘sem precedentes’ –

O atual episódio do El Niño “poderia atingir uma intensidade sem precedentes, superando literalmente as escalas de monitoramento” utilizadas “há quatro décadas”, alertou na quarta-feira (21) a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial (OMM), Celeste Saulo, durante uma entrevista coletiva.

A argentina pediu “uma ação antecipada, urgente e coordenada” diante dos impactos esperados desse fenômeno, que “atingirá sua intensidade máxima no fim de 2026”, mas cujas “repercussões serão sentidas muito depois dessa data”, advertiu.

“Isso provocará choques econômicos (…) e alimentará ainda mais os conflitos, os deslocamentos populacionais e as migrações”, previu, durante o mesmo evento, o chefe de operações humanitárias da ONU, Tom Fletcher.

“Este episódio do El Niño é um fenômeno colossal. É uma verdadeira força destrutiva (…) que atingirá em cheio a América Latina, a África Oriental e Austral, a Ásia e a região do Pacífico”, afirmou.

– ‘Entrou um metro de água’ –

“De um dia para o outro, entrou um metro de água na minha casa, a barreira se rompeu e veio tudo de uma vez”, relatou à AFP Juan Pablo Gómez, diante de sua casa inundada na cidade turística argentina de Paso de la Patria, no nordeste do país, onde as enchentes relacionadas ao El Niño deixaram dois mortos nos últimos dias.

Em algumas partes da cidade, apenas os telhados das casas permanecem acima do nível da água. Em um campo de futebol, só é possível ver o travessão de um dos gols.

Na semana passada, mais de 2.000 pessoas foram obrigadas a deixar suas casas no nordeste argentino devido às chuvas, que elevaram o nível dos rios Paraná, Uruguai e Iguaçu, que marcam as fronteiras entre Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai.

– Incêndios mortais no Peru –

“Temos uma enorme massa de ar quente e seco sobre todo o Peru. Isso é resultado do El Niño. Estamos vivendo um problema climático muito complicado”, alertou à AFP o biólogo florestal Daniel Valle, professor da Universidade Científica do Sul, ao comentar os incêndios mortais que atingem o país sul-americano.

Pelo menos 12 pessoas morreram desde junho no Peru em decorrência desses incêndios florestais, intensificados pelo El Niño, que deixaram centenas de pessoas afetadas, informaram as autoridades em meados da semana passada.

A maioria dos mortos são agricultores que sofreram queimaduras graves e asfixia enquanto tentavam controlar as chamas por conta própria.

– Seca preocupante na Guiana Francesa –

A Guiana Francesa enfrenta há vários meses um grave déficit de chuvas devido ao El Niño. O transporte fluvial foi interrompido gradualmente em razão da forte redução do nível dos rios nesse território ultramarino francês.

As autoridades estabeleceram uma ponte aérea para abastecer 40.000 moradores de municípios isolados, que não têm acesso por estrada.

– O El Niño em números –

874.000: número de pessoas que podem ser obrigadas a deixar suas casas na Somália nos próximos três meses devido às inundações, alertou a Organização Internacional para as Migrações (OIM).

Segundo as previsões, a estação chuvosa deverá registrar precipitações acima do normal no país africano devido ao fortalecimento do El Niño, destacou a OIM na quarta-feira.

A organização afirmou ter arrecadado apenas cerca de 14,4% dos 16,62 milhões de dólares (R$ 91,4 milhões) necessários para preparar a resposta às inundações.

Quatro: número de meses consecutivos com recordes mensais de temperatura na Colômbia, país onde as temperaturas ficaram aproximadamente 1,5°C acima do normal em julho, agosto e setembro, segundo uma análise da AFP de dados do centro europeu Copernicus.

– O El Niño é o responsável? –

Diante da multiplicação dos fenômenos extremos, por que é difícil atribuir formalmente um evento ao El Niño?

“Podemos comparar o El Niño a uma rodovia, e os fenômenos meteorológicos aos veículos que circulam por ela. O El Niño não permite prever a velocidade de um veículo específico, nem a faixa em que ele circula, e às vezes acontece de os veículos saírem ou entrarem repentinamente na rodovia”, explicou à AFP Michelle L’Heureux, física da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) dos Estados Unidos.

“Da mesma forma, as características específicas dos fenômenos meteorológicos serão influenciadas por outros fatores além do El Niño”, acrescentou.

Segundo a especialista, no entanto, “o El Niño pode tornar certos fenômenos meteorológicos mais ou menos prováveis durante uma estação”.

“Simplesmente não é possível atribuir a totalidade de um fenômeno meteorológico ou de um evento extremo associado exclusivamente ao El Niño, já que outros fatores também desempenham um papel importante”, afirmou a física.

Para Davide Faranda, diretor de pesquisa do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França (CNRS), “não basta constatar que um evento ocorre durante um episódio do El Niño para concluir que ele é a causa”.

“É preciso comparar as condições observadas com o que se esperaria na ausência desse fenômeno, levando em conta as mudanças climáticas e a variabilidade natural”, considerou.

bur-alb/jum/lpt/arm/cr/lm/aa

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