Le Pen aposta em discurso de ordem em meio à onda de violência na França
Em um vídeo de tom presidencial publicado nas redes sociais no domingo (18), a líder da extrema direita francesa e pré-candidata à Presidência Marine Le Pen aborda os confrontos no país, sentada em seu escritório, diante de uma bandeira francesa e da toga que usava como advogada.
Nesse vídeo publicado nas redes sociais no domingo (18), a política, de 58 anos, denuncia a “impotência” do governo do presidente Emmanuel Macron e acusa o partido de esquerda radical A França Insubmissa (LFI), de seu adversário Jean-Luc Mélenchon, de querer provocar uma “guerra civil”.
“Vivemos uma profunda crise de confiança, de autoridade, que representa uma ameaça à democracia”, lamenta Le Pen.
A França viveu no fim de semana um dos piores episódios de violência nas ruas dos últimos anos, em meio a grandes manifestações contra o aumento do custo de vida, a apenas seis meses da eleição do sucessor de Macron.
Le Pen, que lidera as pesquisas, busca se apresentar nesse contexto como a candidata da ordem, após se esforçar desde 2011 para afastar a imagem radical que seu pai, Jean-Marie Le Pen, deixou para o partido Frente Nacional, rebatizado como Reagrupamento Nacional (RN).
Seu aliado e presidente do RN, Jordan Bardella, adotou o mesmo estilo solene um dia depois. Apontado como futuro primeiro-ministro caso Le Pen vença a eleição presidencial, o político aparece de pé, atrás de um púlpito com o lema: “Diante do caos, a França em ordem”.
As redes sociais do partido de extrema direita repetiram o lema desde o fim de semana, enquanto imagens de saques, incêndios em prédios públicos e confrontos com a polícia dominavam os canais de televisão.
De olho na eleição presidencial, Bardella promete “restabelecer a segurança e a ordem por todos os meios legais possíveis” caso seu partido chegue ao poder e faz um claro convite ao voto daqueles que não vão às ruas protestar: “A melhor maneira de protestar é votar”.
Nesta terça-feira (20), a deputada Laure Lavalette chegou a prever uma vitória de Le Pen durante uma sessão de perguntas ao governo no Parlamento: “Vocês têm condições de manter a autoridade legal do Estado e impedir um colapso generalizado, enquanto esperamos que uma nova presidente coloque a França em ordem?”.
– Benefício eleitoral –
Com essa estratégia em andamento, os adversários da líder de extrema direita, como o candidato social-democrata à Presidência Raphaël Glucksmann, temem que ela acabe se beneficiando eleitoralmente do “caos”.
O Reagrupamento Nacional nega querer tirar proveito dos confrontos: “Não podemos ficar felizes ao ver o país nesse estado. Quando se é patriota, isso dói”, comenta um dirigente do partido sobre as imagens de uma França em chamas que circulam pelo mundo.
O cientista político Bruno Cautrès adota uma postura cautelosa em relação às consequências eleitorais da violência dos últimos dias.
“No curto prazo, tudo isso favorece os políticos que falam sobre lei e ordem, segurança”, explica à AFP, mas ressalta que isso não vai “se traduzir mecanicamente nas urnas”.
O diretor do Instituto Francês de Opinião Pública (Ifop), Frédéric Dabi, avalia que, “por pura lógica, isso poderia fortalecer” Le Pen no primeiro turno.
Uma pesquisa do Ifop divulgada na noite desta terça-feira parece confirmar essa avaliação. O levantamento foi realizado entre 17 e 19 de outubro, período em que os franceses tomavam conhecimento dos episódios de violência e saques.
Le Pen avançou em todos os cenários pesquisados, com intenções de voto entre 34% e 38% no primeiro turno, bem à frente de seus adversários. Segundo o levantamento, ela também venceria os confrontos de segundo turno pesquisados.
Mélenchon, acusado pelas autoridades de incentivar a violência, aparece como o candidato mais bem posicionado para disputar o segundo turno contra Le Pen.
Nesse contexto, integrantes do RN aproveitam para atacar o governo Macron, mas também Mélenchon, para consolidar uma disputa direta de olho na eleição presidencial.
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