Macron denuncia comentários “estúpidos” de líderes estrangeiros sobre distúrbios na França
O presidente francês, Emmanuel Macron, denunciou nesta quarta-feira (21) os comentários “estúpidos” e eleitoreiros de líderes estrangeiros, como Donald Trump, sobre os distúrbios na França, no momento em que seu governo determina um dispositivo policial “massivo” diante da convocação de novos protestos.
A segunda maior economia da União Europeia presenciou, no sábado, um dos piores episódios de violência urbana dos últimos anos, apenas seis meses antes de o país eleger o sucessor do atual presidente de centro-direita.
Imagens de saques e incêndios em prédios públicos varreram o mundo. Vários líderes se manifestaram sobre o ocorrido, como o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e figuras de extrema direita na Europa.
Trump afirmou que a França está sendo “conquistada, saqueada e reduzida a cinzas por migrantes, jihadistas e comunistas”, enquanto Netanyahu classificou o país como um refúgio do “islamismo extremista”. Ambos enfrentam eleições legislativas decisivas nas próximas semanas.
Em Doha, Macron criticou comentários “inaceitáveis” e “estúpidos”, baseados em imagens criadas por IA, e lamentou que dirigentes “que estão em campanha, na região ou do outro lado do Atlântico”, façam “campanha às custas” da França.
“Quando vejo líderes que estão em campanha, seja na região ou do outro lado do Atlântico, que às vezes, com credulidade, repetem o que aparece na inteligência artificial (…), percebo que fazem campanha às nossas custas”, lamentou.
As autoridades francesas atribuem os distúrbios a “pequenos grupos de extrema esquerda”, aos quais teriam se juntado “criminosos oportunistas”, que saquearam centenas de lojas.
Dos cerca de 2.500 detidos, 174 encontram-se na prisão, seja aguardando julgamento ou já condenados, informou o ministro da Justiça, Gérald Darmanin.
– Convocação de greve –
Os distúrbios ocorreram à margem de protestos multitudinários para denunciar o aumento do custo de vida e exigir melhores condições para os estudantes do ensino médio.
Outros países europeus, como Bélgica e Itália, também presenciaram manifestações contra o alto custo de vida, e milhares de estudantes na Grécia foram às ruas nesta quarta-feira “como na França”.
O movimento dos “coletes amarelos”, que já abalou o primeiro mandato de Macron em 2018 e 2019, e os estudantes já convocaram novas manifestações para o próximo sábado.
Para evitar novos distúrbios e críticas, o primeiro-ministro, Sébastien Lecornu, prometeu uma mobilização policial “massiva”.
Isso se traduzirá na proibição de manifestações em algumas áreas e na mobilização de veículos blindados, militares da força de vigilância Sentinelle e unidades policiais de elite, segundo o Ministério do Interior.
As autoridades decretaram, nesta quarta-feira, pela terceira noite consecutiva, um toque de recolher em bairros de Paris e de outras cidades.
Além disso, a Polícia de Paris proibiu concentrações e manifestações entre 8h00 e 20h00 da quinta-feira em várias áreas da capital francesa.
As zonas designadas são o perímetro próximo ao Palácio do Eliseu, sede da Presidência, Matignon, gabinete do primeiro-ministro, a Assembleia Nacional, o Senado e locais turísticos como o Museu do Louvre e a avenida Champs-Élysées.
No entanto, para além da área de segurança, o governo está sob pressão de sindicatos e da oposição de esquerda para responder ao descontentamento social.
Lecornu se reuniu com as principais forças sindicais, que denunciaram a falta de respostas concretas às suas reivindicações, e na quinta-feira se reunirá com partidos políticos.
“Chegou o momento de subir o nível da mobilização; a greve deve assumir o protagonismo” no dia 5 de novembro, declarou a líder do sindicato CGT, Sophie Binet.
O ministro da Educação, Édouard Geffray, anunciou que, na segunda-feira, apresentará suas “primeiras decisões” às organizações estudantis.
– Pressão sobre a dívida –
No entanto, uma resposta política que envolva um aumento dos gastos públicos parece complicada.
O governo, em minoria no Parlamento, busca implementar um ajuste fiscal significativo em 2027 para reduzir o alto nível da dívida e do déficit públicos e tranquilizar os mercados.
O rendimento do título francês de 10 anos ultrapassou o patamar simbólico de 5% pela primeira vez desde 2002, o que significa que a França precisa pagar mais para se financiar nos mercados; além disso, seu prêmio de risco, que determina a solvência do país, atingiu o nível mais alto desde 2011.
“Os distúrbios deste fim de semana prejudicaram a reputação da França”, comentou à AFP Mike O’Sullivan, economista-chefe da Moonfare.
A pressão sobre a dívida poderá, nos próximos meses, refletir-se no bolso dos franceses, que já se mostram preocupados com o seu poder aquisitivo, especialmente desde o encarecimento dos combustíveis em decorrência do conflito no Oriente Médio.
Durante sua viagem por esta região, Macron anunciou acordos com o objetivo de reduzir os preços, como o firmado com a Arábia Saudita, que se comprometeu a fornecer um suprimento adicional de diesel à França “durante os meses que forem necessários”.
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