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A fondue, ou como discordar juntos

Dois garfos em cima de um caquelon de fondue
Mergulhar o pão no mesmo caquelon é o que dá à fondue seu caráter social e acolhedor. Keystone / Martin Rütschi

A Suíça: seu chocolate, seus chalés, seus relógios, seus bancos... e sua fondue. No exterior, é difícil achar um símbolo mais consensual. Só que, na Suíça, esse prato que deveria encarnar a união nacional vem acompanhado, de bom grado, de pequenas polêmicas, até no fundo da panela.

Comecemos pelo assunto espinhoso: a fondue é mesmo suíça? A Saboia, na França, também reivindica a paternidade do prato, uma pretensão que não é totalmente infundada.

De modo geral, a história não esperou a Confederação Suíça para imaginar que seria possível derreter queijo. A ideia é antiga: já encontramos vestígios dela na Ilíada. Homero descreve ali uma mistura de queijo de cabra ralado, vinho e farinha de cevada, aquecida até formar uma espécie de mingau.

Essa ideia de um queijo derretido misturado a uma bebida alcoólica chegou até as ilhas britânicas, um reduto de ousadias gastronômicas onde não se hesita em servir cerveja morna, pança de ovelha recheada e molhos de hortelã. No País de Gales, já na Idade Média imaginou-se combinar cheddar derretido e cerveja, uma mistura que se degustaLink externo sobre pão torrado.

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garfo com fondue

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História

Uma fondue gigante nas ruas de Friburgo

Este conteúdo foi publicado em A “Fondue do Século”, como foi chamado o evento pelos organizadores, conseguiu atrair uma multidão de aficionados pela iguaria de queijo fundido, apesar das nuvens negras e das borrascas de vento que cobriram a cidade de Friburgo ao meio-dia da quinta-feira (9). Um banquete servido gratuitamente a todos, o evento corou as festividades organizadas pela…

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Mais perto da Suíça, em toda a região dos Alpes, dos vales de Saboia às encostas do Tirol, se derrete queijo há séculos. Nessas regiões, onde o leite precisava ser processado rapidamente, aquecê-lo permitia amaciá-lo, conservá-lo um pouco melhor e obter um prato nutritivo para o inverno.

Mas, embora o princípio básico pareça ser o mesmo, foi na Suíça que a fondue moderna se estabeleceu. O primeiro registro aparece em 1699, em um livro de culinária de Zurique: a receita Käss mit Wein zu kochen já descreve a mistura de queijo derretido com vinho, na qual se mergulha pão. Destaca-se, sobretudo, o gesto coletivo que caracteriza o prato. Já a fondue tal como a conhecemos hoje só surgiu em 1875, e seria preciso esperar mais dez anos para que a Escola de Economia Doméstica de Zurique estabelecesse a versão “oficial”.

Um prato que une tanto quanto divide

Em princípio, a fondue não esconde grande segredo. Ela se baseia na fusão de queijos de massa dura aquecidos com vinho branco (da uva chasselas, é claro!), cuja acidez estabiliza as proteínas e impede a separação. O resultado é uma emulsão que precisa ser mantida por um movimento constante, para conservar uma textura lisa e homogênea.

Embora seja um prato simbólico da convivência e união suíças, a fondue também é um terreno propício às divergências, no qual a partilha se soma a discussões, às vezes acaloradas, sobre a maneira “certa” de fazer.

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mãos misturando uma fondue

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A fondue que veio do calor

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A questão dos ingredientes é onde começam as disputas. Alguns acrescentam um pouquinho de amido, às vezes misturado a kirsch [aguardente de cereja], para firmar a textura, prática difundida, mas longe de ser unânime. Para os puristas, esses acréscimos representam uma espécie de heresia, uma alteração desnecessária do equilíbrio original.

O alho também divide. Basta esfregar um pouco no fundo da panela, gesto discreto e quase ritual, ou ele precisa ter presença mais marcante? As respostas variam, muitas vezes com convicção. E, na hora de mergulhar o pão, de preferência levemente dormido, os debates nem sempre se acalmam. É preciso girar bastante o pão, desenhar oitos, nunca parar, mexer com constância? Ao redor da panela de fondue, as certezas se afirmam com a mesma convicção dos gostos.

Como se vê, a fondue não tem nada de terreno neutro – nem mesmo na Suíça. Mas, além dessas divergências, o essencial se decide em outro lugar: no domínio do fogo, que não tolera excessos nem aproximações. Forte demais, a chama rompe a emulsão; fraca demais, ela a solidifica, equilíbrio delicado que cada um reivindica à sua maneira.

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Debate
Moderador: Zeno Zoccatelli

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O sucesso de um acordo

Se a ideia geral permanece constante, as fondues variam conforme os queijos escolhidos. Em geral, privilegiam-se queijos de massas duras ou semiduras, ricas em caseína e suficientemente curadas. Na Suíça, o Gruyère, o Vacherin Fribourgeois, o Emmental e o Appenzeller constituem a base das misturas mais difundidas. Em outros lugares, as composições se adaptam às produções locais: na França, por exemplo, predominam Comté, Beaufort e Emmental.

Na Suíça, no entanto, uma mistura se impôs: a moitié-moitié (meio a meio), associação em partes iguais de Gruyère e Vacherin fribourgeois. Seu sucesso se deve a um equilíbrio simples entre estrutura e untuosidade, um acordo estável, acessível, que acabou se impondo como uma evidência.

Curiosamente, essa evidência não é universal. No exterior, foi por muito tempo a fondue neuchâteloise, mistura de Gruyère e Emmental, que serviu de referência. Mais suave, mais elástica, ela se adaptava melhor a paladares menos habituados a sabores marcantes. Sua difusão foi, além disso, impulsionada pela indústria, que privilegiou esse tipo de mistura, mais fácil de padronizar, nas fondues prontas para consumo que passaram a ser exportadas.

Uma tradição não tão recente

As versões em sachê, hoje amplamente difundidas, alimentam uma polêmica persistente. Em contraste com a imagem do pastor alpino ajustando pacientemente sua mistura, os sachês apresentam receitas padronizadas, calibradas para a regularidade mais do que para o gesto, um contraste que alimenta certo mal-estar entre os defensores de uma fondue “autêntica”.

Preparação de fondue na Gerber.
Preparação de fondue nas instalações da Gerber, em Thun (Berna), um dos fabricantes mais conhecidos de fondue em sachês da Suíça. Keystone / Martin Rütschi

Na prática, porém, os resultados são menos categóricos. TestesLink externo mostram regularmente que as fondues industriais se saem melhor do que se esperava: estáveis, regulares, tecnicamente confiáveis, elas conseguem convencer em testes às cegas. Mas essa eficiência tem um contraponto: o de um sabor considerado mais uniforme, menos singular. Uma fondue dominada, sem asperezas.

Como se vê, a fondue não é apenas para os estômagos; ela também diz algo sobre uma identidade. Ou, talvez, sobre uma maneira de construí-la. Pois, por trás da imagem de uma tradição imemorial, a realidade é mais recente. Até meados do século 20, a fondue era um prato regional, longe de qualquer pretensão nacional.

É o exército suíço, nas décadas de 1950 e 1960, que contribui para transformá-la em um ritual de união e confraternização: um prato simples, barato, adequado a soldados vindos de todos os cantões. Ao mesmo tempo, os meios ligados à produção de queijo lançam uma promoção ativa para transformá-la em símbolo nacional suíço. Em uma geração, o significado da fondue muda. De especialidade local, torna-se emblema nacional, não apenas por herança, mas por construção, uma espécie de “produto natural fabricado”, como a qualificou um artigo do blog do Museu Nacional SuíçoLink externo.

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E é sem dúvida aí que, no fundo, reside sua singularidade: nessa capacidade de manter juntos, em uma mesma panela de fondue, tradição reivindicada, práticas discutidas e narrativa coletiva.

Edição: Samuel Jaberg/fh
Adaptação: Clarice Dominguez

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