The Swiss voice in the world since 1935

Sequestro do corpo de Chaplin chocou a Suíça em 1978

Charlie Chaplin no papel de Charlot
Charlie Chaplin em "Luzes da Cidade". Keystone

Em março de 1978, poucos meses depois da morte de Charlie Chaplin, dois mecânicos desempregados roubaram seu caixão do cemitério de Corsier-sur-Vevey, no cantão de Vaud, e exigiram US$ 600 mil de resgate à família.

Era 1º de março de 1978. Em Corsier-sur-Vevey, a névoa espessa dava lugar a uma chuva fria. Duas figuras circulavam com cautela pelo cemitério. Suas intenções não eram nobres.

No dia seguinte, no lugar de uma das sepulturas, o coveiro encontrou um buraco fundo e vazio. Marcas de pneus indicavam que o caixão enterrado no local havia sido levado por desconhecidos. O funcionário acionou o alarme, dando início a uma investigação rocambolesca que ganharia repercussão internacional. O corpo roubado era o de Charlie Chaplin.

Cova aberta
A cena do crime. Keystone / Str

Suíça, pátria adotiva de Chaplin

O grande cineasta britânico viveu no vilarejo às margens do Lago Léman por 25 anos, até sua morte, em 25 de dezembro de 1977. Ele não escolheu a Suíça por capricho, mas foi impelido até lá pelo macarthismo (n.r.: campanha política anticomunista promovida nos Estados Unidos na década de 1950, marcada por intensa perseguição a artistas e intelectuais). Nos Estados Unidos, Chaplin entrou na mira do FBI (a polícia federal norte-americana), que o acusava de “atividades antiamericanas”, sobretudo pelas críticas à guerra e ao capitalismo presentes em muitas de suas obras.

Em 1952, enquanto estava na Inglaterra para a estreia de Luzes da Ribalta, o governo dos Estados Unidos revogou sua permissão de reentrada no país. Sem poder retornar a Hollywood, Chaplin desembarcou na Suíça. O que deveria ser uma parada de poucas semanas transformou-se em mudança definitiva.

Em Corsier-sur-Vevey, ele adquiriu a propriedade do Manoir de Ban, apelidada de “Little White House” (Pequena Casa Branca). Apesar de um pequeno atrito devido ao incômodo do diretor com o barulho de um estande de tiro vizinho, o local virou o lar de Chaplin, que costumava descrever os moradores locais como “fascinantes, hospitaleiros e autênticos”, recorda um artigo do jornal NZZLink externo. 

Chaplin e sua família
Charlie Chaplin e a sua esposa, Oona, tiveram oito filhos. Esta fotografia de família data de 1961. AFP

Chantagem de “Monsieur Rochat”

De volta às duas figuras suspeitas: tratava-se de Roman Wardas, de 24 anos, e Gantscho Ganev, de 38, dois mecânicos desempregados em busca de dinheiro fácil. O primeiro, de nacionalidade polonesa, era o cérebro da dupla. Inspirado por casos semelhantes lidos em um jornal italiano, convenceu o comparsa, búlgaro, a ajudá-lo na empreitada grotesca: roubar os restos mortais de Charlie Chaplin para depois exigir um resgate da família. Mais tarde, Wardas relatou que concebeu o sequestro do cadáver como uma “decisão financeira viável” para saírem da miséria e abrirem a própria oficina mecânica.

Charlie Chaplin
Charlie Chaplin no papel de Adenoid Hynkel numa das cenas mais famosas de «O Grande Ditador». Keystone

Nos dias que se seguiram ao desaparecimento do caixão, a imprensa, a polícia e a opinião pública tateavam no escuro. A Interpol (organização internacional de cooperação policial) foi acionada para auxiliar nas buscas no exterior, e surgiram as teorias mais diversas sobre os motivos do crime: uma tentativa de repatriação à Inglaterra por admiradores britânicos; vingança de fanáticos neonazistas irritados com a sátira de Adolf Hitler feita por Chaplin no filme O Grande Ditador; uma simples piada de mau gosto; ou até mesmo a hipótese de que o corpo havia sido roubado para criopreservação (técnica de congelamento de corpos em baixíssimas temperaturas na esperança de reanimação futura).

As especulações caíram por terra quando o telefone tocou na residência dos Chaplin. Do outro lado da linha, um homem identificado como “Monsieur Rochat” revelou ser o autor do roubo e exigiu um resgate de 600 mil dólares. Tratava-se de Wardas, que havia conseguido o número da casa ao se passar por jornalista.

Ele e o cúmplice, contudo, não contavam com a firmeza de Oona O’Neill, viúva de Charlie Chaplin. Ela considerou o caso “ridículo” e afirmou: “Um corpo é apenas um corpo. Meu marido está no céu e no meu coração”. Não pretendia desembolsar um único centavo.

Ainda assim, em alinhamento com a polícia, a viúva aceitou entrar no jogo para ganhar tempo e, por meio do advogado da família, Jean-Félix Paschoud, iniciou uma negociação simulada para reduzir o valor pedido.

Para complicar o cenário, muitos anônimos passaram a entrar em contato com a polícia alegando, falsamente, estar com o ataúde. A família exigiu de “Rochat” uma prova concreta. Wardas e Ganev enviaram então uma foto do caixão em um milharal, fornecendo o primeiro indício visual aos investigadores. Descobriu-se depois que o registro havia sido feito no vilarejo de Noville, a cerca de vinte quilômetros de Corsier-sur-Vevey, onde os criminosos tiveram de se desdobrar fisicamente para ocultar os mais de 130 quilos do esquife e de seu ocupante.

As falsas negociações duraram cerca de dez semanas. Perto do fim do período, Wardas começou a perder a paciência, elevou o tom das ameaças e chegou a prometer matar os filhos de Oona e Charlie caso não recebesse o montante.

Mostrar mais
imagem

Mostrar mais

Curiosidades suíças

“Aquela múmia é meu bisavô”

Este conteúdo foi publicado em O ex-diplomata suíço Claudio Mazzucchelli conta a incrível história da descoberta no Egito da múmia de seu ilustre bisavô.

ler mais “Aquela múmia é meu bisavô”

Passo em falso

A polícia não estava inerte. A linha telefônica da família Chaplin foi grampeada, permitindo aos investigadores ouvir as conversas e rastrear o sinal de origem. Os violadores do túmulo, porém, eram prudentes: utilizavam cabines telefônicas na região de Lausanne sem repetir o mesmo aparelho.

A estratégia funcionou até os chantagistas darem um passo em falso: agendaram data e horário precisos para o telefonema decisivo, no qual acreditavam que seriam combinados os detalhes da entrega do dinheiro.

A polícia do cantão (estado) de Vaud deflagrou então aquela que mais tarde definiria como “a maior operação” de sua história, vigiando simultaneamente cerca de 200 cabines telefônicas em Lausanne e arredores.

Em 16 de maio de 1978, às 9h30, Wardas atendeu ao telefone pela última vez no papel de “Monsieur Rochat”. Policiais à paisana o prenderam na Avenue de la Dôle antes que ele pudesse concluir sua 27ª ligação extorsiva. O cúmplice foi detido logo em seguida.

A trama reservava um desfecho tragicômico: Wardas e Ganev já não conseguiam lembrar o ponto exato onde haviam enterrado o corpo do “Vagabundo”. Chaplin talvez permanecesse até hoje em um milharal anônimo de Noville não fossem as alças metálicas do caixão, que os policiais localizaram com o uso de detectores de metal.

Caixão aberto
O caixão foi novamente encontrado pela polícia em Noville. Photopress-Archiv / Str

“Tudo está perdoado”

O jornal britânico The Guardian relatouLink externo que, durante o julgamento, Paschoud pediu permissão ao tribunal para ser apresentado a “Monsieur Rochat”. Wardas levantou-se tenso, e o advogado, com quem havia negociado intensamente sob o pseudônimo, cumprimentou-o com um cordial “bonjour” (bom-dia).

Durante os depoimentos, o jovem violador admitiu ter ficado “morto de medo” ao ver a comoção da imprensa internacional provocada pelo crime. Revelou também que o plano inicial previa esconder o caixão em uma cova mais profunda dentro do próprio cemitério, manobra frustrada porque a terra estava encharcada e pesada demais por causa das chuvas.

Duas pessoas entram num edifício
Algemados, Ganev (à esquerda) e Wardas entram no tribunal a 11 de dezembro de 1978. Keystone / Str

Wardas foi condenado a quatro anos e meio de prisão por tentativa de extorsão e violação da paz dos mortos. Ganev, a quem foi atribuída responsabilidade secundária, recebeu pena de 18 meses em regime condicional (suspensão condicional da pena sob cumprimento de requisitos legais).

Mais tarde, os dois escreveram uma carta de desculpas à viúva, que se mostrou compreensiva e respondeu que “tudo estava perdoado”.

Não há registros precisos sobre o paradeiro de Wardas e Ganev, que retornaram ao anonimato após o episódio. O caso inspirou, em 2014, o longa-metragem O Preço da Fama (La rançon de la gloire), que romantiza a história misturando fatos reais e ficção.

Conteúdo externo

Sabe-se, por outro lado, que o corpo de Charlie Chaplin voltou a “descansar” em Corsier-sur-Vevey, ao lado de sua mulher Oona (falecida em 1991) e sob a proteção de uma espessa camada de concreto.

Adaptação: Alexander Thoele

Mostrar mais

Debate
Moderador: Zeno Zoccatelli

Você já ouviu algo peculiar sobre a Suíça que tenha achado interessante?

Há algo peculiar relacionado à Suíça que tenha despertado seu interesse? Compartilhe conosco e talvez possamos incluí-lo em um artigo!

109 Curtidas
116 Comentários
Visualizar a discussão

Mais lidos

Os mais discutidos

Preferir a Swissinfo no Google

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR