Equador vota sobre volta de bases militares estrangeiras e nova Constituição
Os equatorianos votaram neste domingo(16) em um referendo sobre o retorno das bases militares estrangeiras e a redação de uma nova Constituição, em um referendo crucial para o país aliado dos Estados Unidos e mergulhado na violência do narcotráfico.
Quase 14 milhões de equatorianos foram convocados a votar de maneira obrigatória em meio à preocupação pela violência galopante e às tensões pelos bombardeios dos Estados Unidos a barcos que supostamente traficam drogas no Caribe e no Pacífico.
Além do retorno das bases militares estrangeiras proibidas desde 2008 e da redação de uma nova Carta Magna por uma Constituinte, os equatorianos se pronunciaram sobre se encerram o financiamento estatal aos partidos políticos e se reduzem o número de congressistas de 151 para 73.
A apuração avança lentamente e sem nenhuma tendência definida.
Com 30% das urnas apuradas, o “não” ganhava nas quatro perguntas submetidas a referendo, de acordo com o Conselho Nacional Eleitoral.
Ana Manotoa, de 36 anos, votou no “não” em sinal de “reprovação ao governo”.
“Não me agrada em nada o que ele [Noboa] está fazendo. Não há saúde, não há segurança”, afirmou ela no norte de Quito.
O presidente Daniel Noboa convocou o referendo depois que a Justiça bloqueou várias de suas iniciativas por considerá-las contrárias a direitos fundamentais, como a castração química para estupradores ou a vigilância sem ordem judicial.
– ‘Terminar com a insegurança’ –
Poucos minutos após o início da votação, Noboa, que está no poder desde 2023, anunciou a captura na Espanha do chefe da poderosa organização criminosa Los Lobos.
Muito próximo à Casa Branca e com um discurso de linha-dura contra o crime, Noboa busca mais poder para enfrentar as diversas gangues que semeiam terror no país.
“É a única maneira de endurecer um pouco as leis e terminar com a insegurança em nosso país”, disse à AFP Teresa Jácome, de 60 anos e moradora de Guayaquil (sudoeste).
O Equador atravessa uma crise de segurança inédita, com a maior taxa de homicídios da América Latina: 39 para cada 100.000 habitantes em 2024, segundo o site Insight Crime.
– Criminoso mais procurado é capturado –
Enquanto votava em seu reduto no balnepario de Olón (sudoeste), Noboa anunciou a prisão na Espanha de Wilmer Chavarría, conhecido como Pipo.
A gangue Los Lobos controla operações de garimpo ilegal e está associada ao cartel mexicano Jalisco Nova Geração, segundo o presidente.
“Hoje capturamos […] o criminoso mais procurado da região […]. O criminoso que fingiu sua morte, mudou de identidade e se escondeu na Europa”, escreveu o mandatário no X.
Noboa, de 37 anos e nascido nos Estados Unidos, aposta na cooperação internacional para combater o narcotráfico e se tornou um dos maiores aliados do governo de Donald Trump na região.
Desde que chegou ao poder, o líder equatoriano tem ampliado os laços com Washington mediante acordos migratórios, tarifários e de segurança, enquanto os Estados Unidos avaliam retornar à base militar de Manta, onde operaram voos para combater as drogas entre 1999 e 2009.
Para Luis Córdova, pesquisador do Observatório Equatoriano de Conflitos da estatal Universidade Central, Trump tem “interesse” em um “acesso fácil” a pontos-chave como Galápagos, a 1.000 quilômetros da costa continental.
Enquanto México, Brasil, Colômbia e Venezuela reprovam os bombardeios no Caribe e no Pacífico que deixam pelo menos 83 mortos, Noboa defende esta ofensiva como estratégia contra o tráfico de cocaína que sai sobretudo de seus portos.
– Nova Constituição –
Criticado por organizações de direitos humanos que denunciam abusos das forças de segurança, Noboa promove a sua imagem de governante implacável com o crime.
Na semana passada, divulgou fotos de centenas de presos com uniformes laranja, cabeças raspadas, alguns de joelhos e com as mãos na nuca, enquanto eram levados para sua nova megaprisão, uma atitude que lembra as protagonizadas por seu homólogo salvadorenho Nayib Bukele.
Com 56% de aprovação à sua gestão que termina em 2029, Noboa quer mudar a Constituição por considerá-la “garantista” demais com os criminosos.
Contudo, não tem sido claro sobre quais modificações devem ser feitas, o que gera questionamentos sobre um possível desejo de acumular poder e restringir direitos. O texto final deve ser aprovado em um novo referendo.
Em 2024, Noboa obteve a aprovação por consulta popular da extradição de equatorianos e o aumento de penas para o crime organizado.
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