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Uma Igreja Católica na Suíça… que não reconhece a autoridade do papa

Frank Bangerter, novo bispo da Igreja Católica-Cristã da Suíça, recebe a mitra durante a sua consagração episcopal, celebrada a 14 de setembro de 2024 na igreja de São Pedro e São Paulo, em Berna.
Frank Bangerter, novo bispo da Igreja Católica-Cristã da Suíça, recebe a mitra durante a sua consagração episcopal, celebrada a 14 de setembro de 2024 na igreja de São Pedro e São Paulo, em Berna. Keystone / Anthony Anex

A Suíça adora exceções. As quatro línguas nacionais, as votações populares e o exército de milícias são algumas das mais conhecidas. Mas existe outra, bem mais discreta: uma Igreja Católica que não reconhece a autoridade do papa.

Encontrado às vezes, por acaso, em documentos ou estatísticas, seu nome gera curiosidade e sua existência, mais ainda. A Igreja Católica-CristãLink externo da Suíça é, no entanto, bastante real, mesmo que muitos suíços e suíças jamais tenham ouvido falar dela. Embora seja reconhecida oficialmente em vários cantões, ela permanece quase invisível no cenário religioso suíço.

Com cerca de 12 mil a 13 mil membros, ela representa entre 0,1% e 0,2% da população. Um peso tão pequeno que desaparece até nas estatísticas oficiais: o Escritório Federal de EstatísticaLink externo a inclui na categoria genérica de “outras comunidades cristãs”, ao lado dos ortodoxos e das várias igrejas evangélicas.

Uma raridade em escala mundial

Em escala mundial, os católicos-cristãos constituem uma minoria ínfima. Eles pertencem à família das igrejas chamadas “católicas velhas” ou “veterocatólicas”, surgidas no século 19 após desavenças com Roma e reunidas hoje na União de UtrechtLink externo.

O movimento existe apenas em alguns países, particularmente nos Países Baixos, na Alemanha, na Suíça e na Áustria. Ainda assim, nesse pequeno universo religioso, a Suíça ocupa um lugar bem mais importante do que seu número de fiéis sugeriria.

Poderia parecer uma curiosidade obscura. No entanto, a Igreja Católica-Cristã possui cerca de trinta paróquias, mais da metade delas nos cantões de Berna, Argóvia, Soleura e Basileia. Ela também tem seu próprio bispo e está entre as principais comunidades veterocatólicas do mundo.

O paradoxo, portanto, é real: enquanto boa parte da Suíça ignora sua existência, essa pequena Igreja possui uma estrutura de fazer inveja a organizações bem maiores.

Uma separação nascida no século 19

Para entender sua origem, é preciso voltar à Europa do século 19, que estava em plena transformação. Tanto na Alemanha quanto na Suíça, os jovens Estados modernos buscavam afirmar sua autoridade diante de Roma.

Em 1870, o Concílio Vaticano I proclamou o dogma da infalibilidade pontifícia e reforçou a autoridade do papa sobre toda a Igreja Católica. Para muitos católicos, essa evolução não representava problema algum. Outros, porém, viram nela uma centralização excessiva do poder religioso.

Na Suíça, a controvérsia rapidamente ganhou dimensão política. No contexto do KulturkampfLink externo, que opunha as autoridades liberais à Igreja Católica Romana, padres e fiéis rejeitaram as novas orientações de Roma e decidiram seguir seu próprio caminho.

A ruptura acaba se consumando. Em 1871, nasce a Igreja Católica-Cristã. Nada, na época, sugeria que esse movimento perduraria por décadas. No entanto, mais de 150 anos depois, ele continua existindo, tendo sobrevivido a disputas há muito tempo esquecidas pela maioria dos europeus.

Conteúdo externo

Uma Igreja Católica de tendências liberais

Quem assiste pela primeira vez a uma celebração católica-cristã corre o risco de se surpreender com a falta de surpresas. A liturgia, de fato, se assemelha bastante à de uma missa católica romana. As orações, os sacramentos e boa parte dos ritos são familiares. À primeira vista, quase nada distingue as duas Igrejas.

As diferenças aparecem sobretudo quando se observa o que está por trás do altar. O bispo, por exemplo, não é nomeado por Roma. Ele é eleito pelo Sínodo Nacional, no qual os leigos desempenham um papel importante ao lado do clero. Os católicos-cristãos, além disso, reivindicam a tradição da Igreja do primeiro milênio e, por isso, não reconhecem alguns dogmas adotados posteriormente por Roma, entre eles o da infalibilidade pontifícia.

Eleição do bispo da Igreja Católica-Cristã da Suíça.
Na Igreja Católica-Cristã, o bispo não é nomeado por Roma, mas eleito pelo Sínodo Nacional. Os delegados reuniram-se em Aarau, a 24 de maio de 2024, para escolher o seu novo líder espiritual. Keystone / Urs Flueeler

Mas são sobretudo algumas de suas reformas que chamam a atenção. Desde sua origem, a Igreja adota as línguas nacionais na liturgia e autoriza o casamento de padres. Pessoas divorciadas também podem contrair novo casamento religioso. Desde 1999, as mulheres são admitidas ao sacerdócio. Desde 2022, casais do mesmo sexo também podem se casar religiosamente.

Ordenação de uma mulher como sacerdotisa
Em 2000, Denise Wyss tornou-se a primeira mulher da história a ser ordenada sacerdotisa na Suíça. Keystone

Não é exatamente o que se esperaria encontrar em uma Igreja fundada em 1871. Pequena em número de fiéis, a Igreja Católica-Cristã costuma se mostrar mais ousada que instituições cem vezes maiores.

Entre Roma e a Reforma

No fundo, toda a originalidade da Igreja Católica-Cristã está em sua posição singular. Ela conserva a liturgia, os sacramentos e a estrutura episcopal herdados da tradição católica, mas dá lugar de destaque à participação dos fiéis e a reformas geralmente associadas ao mundo protestante.

Essa posição intermediária se reflete até na formação de seu clero. Os futuros padres católicos-cristãos estudam na Universidade de Berna, no Instituto de Teologia Católica-Cristã, integrado a uma faculdade historicamente marcada pela tradição protestante. Uma situação que resume bem a identidade dessa Igreja.

Interior da igreja de São Martinho, em Rheinfelden
Os católicos-cristãos cultivam de bom grado o diálogo com os protestantes. No que diz respeito à decoração das igrejas, porém, mantiveram um gosto muito católico, como se pode ver na igreja de São Martinho de Rheinfelden. Keystone / Georgios Kefalas

Essa abertura também se manifesta em suas relações com outras confissões cristãs. Membro da União de UtrechtLink externo das Igrejas Veterocatólicas, ela está em “plena comunhão eclesial” com as Igrejas anglicanas. Em termos mais simples, isso significa que ministérios e sacramentos são reconhecidos mutuamente, uma proximidade que poucas Igrejas podem reivindicar.

Mais de 150 anos após seu nascimento, a Igreja Católica-Cristã continua, assim, a ocupar um lugar à parte no panorama religioso europeu. Nem totalmente romana, nem verdadeiramente protestante, ela forjou ao longo do tempo uma identidade própria. Em suma, uma Igreja que é católica demais para ser protestante, mas independente demais para ser romana.

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Moderador: Zeno Zoccatelli

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Baseado em um artigo publicado pela Swissinfo em 2021, por ocasião do 150º aniversário da Igreja Católica-Cristã da Suíça

Adaptação: Clarice Dominguez

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