The Swiss voice in the world since 1935
Principais artigos
Democracia suíça
Newsletter

Guerra na Ucrânia desafia conceito de neutralidade da Suíça

Dois soldados guardam um edifício, com as bandeiras da Ucrânia e da Suíça à sua frente
Visita ao Palácio de Santa Maria, a residência cerimonial do presidente ucraniano. Keystone / Anthony Anex

O debate sobre a guerra na Ucrânia expôs divisões internas na Suíça sobre o significado de sua tradicional neutralidade. Embora o país mantenha restrições baseadas nesse princípio, críticas apontam inconsistências e dilemas morais na aplicação das regras.

As leis de um Estado dizem muito sobre sua autoimagem e, às vezes, também são feitas leis que não chegam nem a ser aprovadas.

Em fevereiro de 2022, quando começou a grande invasão russa da Ucrânia, a UE e os EUA impuseram amplas sanções contra organizações e pessoas na Rússia, às quais a Suíça também aderiuLink externo. O que muitas vezes passa despercebido é o fato de que a Suíça também impôs sanções à Ucrânia como parte em guerra. Isso com base no direito de neutralidadeLink externo, segundo o qual Estados neutros “não podem prestar apoio militar”: e isso vale para todos que tomam parte em uma guerra, independentemente de quem seja o agressor.

O governo suíço utilizou o direito de emergência para impedir a exportação de bens à Ucrânia que pudessem ser usados militarmente. Esse direito de emergência tem um tempo limitado: após quatro anos teria de ser aprovada uma lei. Em outras palavras: a Suíça teria de ter imposto sanções ordinárias à Ucrânia.

Após idas e vindas, a lei agora não será aprovada. Embora a situação em si não mude, a discussão é reveladora. Ela diz muito sobre o debate de neutralidade dentro da Suíça. E sobre a margem de manobra de política externa que o país tem, justamente por causa disso.

Posição singular da Suíça

O projeto de lei foi enterrado porque a maioria dos partidos e associações econômicas resistiu a ele. No entanto, a prática de autorização não muda, como escreveLink externo o governo: “As proibições de exportação e de trânsito relevantes do ponto de vista do direito de neutralidade continuarão a ser reguladas pela legislação existente na área de material de guerra e controle de bens.”

Em outras palavras: as sanções permanecem. Mas evita-se o efeito simbólico de uma lei especial que, em países amigos, certamente teria causado estranhamento. Estados vizinhos acusaram repetidamente a Suíça de oportunismo nos últimos anos.

Antes mesmo do debate, o historiador e político do Partido Verde-liberal Marco Jorio criticou fortemente o “provavelmente único país do mundo com uma lei anti-Ucrânia”. “Imagine só: a Suíça sancionaria a Ucrânia atacada, invocando um suposto direito de neutralidade, por meio de uma lei própria anti-Ucrânia – isso é absurdo.”

Com base na chamada Lei de EmbargosLink externo, a Suíça pode decidir de forma autônoma se, e de que forma, adota sanções da ONU, da OSCE (Organização para a Segurança e Cooperação na Europa) ou de seus “principais parceiros comerciais” (diferentemente das sanções do Conselho de Segurança da ONU, que devem ser obrigatoriamente adotadas).

A Lei de Material de GuerraLink externo regula a fabricação e a transferência de material bélico. Ela prevê que material de guerra suíço não pode ser exportado para países envolvidos em um conflito interno ou internacional.

A Lei de Controle de BensLink externo regula questões relacionadas a “bens militares especiais”. Isso inclui também coletes e capacetes de proteção ou redes de camuflagem – estes também não podem ser exportados atualmente para a Ucrânia.

Mas a crítica à política continua, mesmo que ela prossiga sem base legal específica. A deputada federal social-democrata Franziska Roth disse, em resposta a uma consulta, afirma: “Quem, de forma totalmente ‘neutra’, não diferencia entre o agressor e o atacado, declara falência moral.” Ela se diz satisfeita por a lei não ter sido aprovada. Mas o governo estaria agora continuando uma “política anti-Ucrânia” e colocando-a sobre uma “nova base jurídica temerária”.

Do outro lado está o partido nacional-conservador SVP (Partido do Povo Suíço) que, como o maior partido eleitoral, vê com ceticismo as sanções contra a Rússia. Já em 2022, afirmouLink externo que as sanções “destruiriam a credibilidade da neutralidade”. Essa posição foi recentemente reforçada pelo ministro Jean-Luc Addor em uma entrevistaLink externo ao jornal russo pró-governo Izvestia. Políticos do SVP não responderam aos pedidos de posicionamento da Swissinfo sobre o tema.

Antes disso, o Partido Liberal-radical (FDP) foi o único a se manifestar positivamente em relação ao projeto de lei. Ambos os partidos não se posicionaram sobre o projeto rejeitado.

Essas discussões políticas internas contrastam com os esforços diplomáticos da Suíça: o país já organizou várias conferências internacionais para discutir sobre a guerra, bem como conversas entre as partes em Genebra. O Ministério das Relações Exteriores também reafirma repetidamente sua disposição de atuar como mediador em negociações.

Mostrar mais

Poder das terminologias

No centro desse debate está uma particularidade da neutralidade suíça, a saber, a posição central da Convenção de Haia de 1907. O direito de neutralidade invocado pelo governo baseia-se em grande parte nela – e dela deriva também o princípio da igualdade de tratamento, que a Suíça aplica de forma estrita.

Juristas críticos do direito internacional afirmam que a Carta da ONU anula justamente esse princípio de igualdade de tratamento em caso de guerra de agressão. Do ponto de vista do direito internacional, a Ucrânia pode se defender da agressão russa. A ajuda à vítima, portanto, seria compatível com a neutralidade.

A posição suíça nessa guerra tem sido repetidamente criticada por outros Estados europeus. Por exemplo, quando material de guerra comprado da Suíça não pôde ser reexportado para a Ucrânia.

Mostrar mais

O ministro suíço das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, recentemente gerou debates com um termo: a Suíça deveria “se virar” nesse mundo turbulento. Ou seja, encontrar um caminho pragmático para preservar seus próprios interesses. Diante das críticas, ele chegou a reforçarLink externo: “se virar” não é uma falha, mas “um princípio de uma política inteligente”.

O fato de isso ter incomodado muitos na Suíça se deve provavelmente menos à natureza simples e engenhosa da expressão – e mais ao fato de que a Suíça realmente funciona assim em política externa. Para os progressistas, falta posicionamento; para os isolacionistas, já se foi longe demais.

Isso também se reflete na forma de lidar com a Ucrânia. O equilíbrio aparece, por exemplo, nas terminologias. O governo suíço fala, em relação à Rússia, de sanções impostas. Por outro lado, refere-se a “medidas relacionadas à situação na Ucrânia”.

A Rússia insiste no argumento de que a Suíça abandonou sua neutralidade ao lhe impor sanções. Isso apesar de a Suíça participar de cerca de 30 regimes de sançõesLink externo diferentes, alguns deles há décadas.

E a população suíça? Em uma pesquisa de opinião realizada no início do ano, 80% se declarou a favor da neutralidade – e uma maioria de 56% apoiou o fornecimento de armas à Ucrânia. Uma grande parte da população, portanto, não parece ver contradição nisso.

As discussões devem continuar: ainda este ano, os eleitores suíços deverão votar a “Iniciativa da Neutralidade”. Ela pretende, entre outras coisas, inscrever na Constituição uma proibição ampla de sanções.

Mostrar mais

Edição: Benjamin von Wyl

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

Mais lidos

Os mais discutidos

Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Mostrar mais: Certificação JTI para a SWI swissinfo.ch

Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch.

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR

SWI swissinfo.ch - sucursal da sociedade suíça de radiodifusão SRG SSR